sexta-feira, 25 set 2020
Publicidade

Nenhuma liberdade para os inimigos da liberdade

Aquele que nunca se queimou ao sol não sabe o valor da sombra
(Sabedoria popular turca)

Quem se torna uma ovelha acaba devorado pelo logo
(Sabedoria popular grega)

Mesmo que o babuíno use um anel de ouro, ele ainda é feio
(Sabedoria popular sul-africana)

Hoje os reacionários foram, conjunturalmente, contidos em debate em uma Comissão no Congresso Nacional. “Escola Sem partido” é um slogan demagógico para dissimular o indefensável: a censura.

A disputa política radicalizou e passou a ser uma implacável luta ideológica. O que pretendem é instalar uma patrulha nas escolas. Nas Universidades, também. Será só uma questão de tempo. Este anti-intelectualismo feroz é a expressão de um rancor profundo contra o mundo da cultura e da ciência. O nome desta campanha é fascismo.

A experiência histórica já demonstrou que é ingenuidade imaginar que a luta ideológica contra o fascismo pode se realizar com argumentos. A luta ideológica contra o pensamento conservador, e até ideologias reacionárias, é legítima. Faz sentido a disputa de ideias contraditórias, a ponderação de valores, a esgrima de opiniões, a apreciação de conceitos, o confronto de exemplos, a polêmica de teorias, o exame de juízos. Faz sentido porque um debate honesto entre contraditórios pode ser educativo, enriquecedor e construtivo.

Acontece que não há racionalidade no fascismo. O fascismo tem como programa a destruição das liberdades democráticas, a intimidação e, finalmente, a eliminação dos seus inimigos políticos. A tolerância com os fascistas abre um caminho irreversível para que os intolerantes nos destruam.

A vida é um laboratório de experiências. Não podemos cometer os erros das gerações que vieram antes de nós. A campanha pela “Escola Sem partido” será somente o começo de uma perseguição aos professores e intelectuais. A criminalização dos movimentos sociais pela tipificação das lutas sociais como terrorismo abrirá o caminho para a prisão das lideranças. A mudança do estatuto do desarmamento será a antessala para a disseminação de milícias armadas.

A campanha pela “Escola Sem Partido” é impulsionada por um partido que finge que não é um partido, porque está presente em muitos partidos de aluguel: o fascismo. Trata-se de um movimento que quer destruir as liberdades democráticas, o pluralismo de ideias, o direito ao contraditório. Começa exigindo a perseguição da esquerda. Ninguém pode dizer onde vai parar. Com a eleição de Bolsonaro estarão mais assanhados, mais agressivos, mais ousados.

Ela vai, infelizmente, degenerar em conflitos insanos, e muito dolorosos dentro das escolas de todo o país. Professores e estudantes devem estabelecer relações de colaboração entre si. Mas isso não quer dizer que não haja tensões em sala de aula. São normais. Hordas de mentecaptos, energúmenos e fanáticos já iniciaram ações de violência nas ruas. Não vai demorar muito para fanáticos desmiolados agirem nas escolas e faculdades.

Esta hostilidade anti-intelectual é comum em ambientes sociais e, culturalmente, ressentidos. Os professores são vistos como elitistas, pretensiosos, arrogantes, quase parasitários. Em contrapartida, o pragmatismo é exaltado. Os conhecimentos práticos são hipervalorizados, e os pressupostos teóricos desprezados. O anti-intelectualismo tem relação com o fundamentalismo religioso. Está associado com a percepção de que é necessária mais ordem, menos discussão e dissenção, portanto, com o autoritarismo político. Os professores de humanas, em geral, e os de história, sociologia, literatura e artes, em particular, são demonizados. Suas habilidades culturais, seus recursos de retórica e erudição são denunciados como manipulação.

Esta campanha merece ser chamada pelo seu nome: fascista

Nenhuma liberdade para os inimigos da liberdade.

Valerio Arcary
Valerio Arcary
É professor titular do IFSP. Doutor em história pela USP, estudou na Universidade de Paris e Lisboa entre 1974/78, participou da revolução portuguesa, voltou ao Brasil e se uniu à Convergência Socialista, esteve presente na reconstrução da UNE em Salvador em 1979, na fundação do PT em 1980 e da CUT em 1983, sendo secretário-geral da CUT/São Paulo entre 1985/86. Atuou na Apeoesp entre 1983/90, foi membro da Executiva Nacional do PT entre 1989/92, e foi presidente nacional do PSTU entre 1993/98 e, desde 2016 é membro da Coordenação Nacional do MAIS/PSOL. É autor de O martelo da história, entre outros livros.