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05 de outubro de 2018, 19h52

Neste domingo, as elites convidam todos os trabalhadores a se enforcarem

Grande parte dos trabalhadores, microempreendedores e trabalhadores rurais da agricultura familiar estão sendo persuadidos a darem um tiro no pé em nome de uma prática que não vai acabar tão cedo em troca da perda de seus direitos e conquistas.

Reprodução

Marx e Engels diziam no Manifesto comunista que a burguesia, por ter gerado o proletariado, acabou por si tornar o seu próprio coveiro. Mas, por ora, enquanto os trabalhadores não se reconhecem enquanto classe, podemos dizer que essa lógica é invertida e os trabalhadores acabam sendo os seus próprios coveiros.

A política por aqui se resume a corrupção. Pelo menos foi o arcabouço ideológico recuperado pelo antipetismo, já que, durante anos, foi a estratégia para transformar os operários em seus próprios coveiros.

As classes dominantes sempre utilizaram do argumento da corrupção para conduzir a política do país. O célebre historiador José Murilo de Carvalho começa o seu artigo sobre a história da corrupção brasileira destacando: “Os republicanos da propaganda acusavam o sistema imperial de corrupto e despótico. Os revolucionários de 1930 acusavam a Primeira República e seus políticos de carcomidos. Getúlio Vargas foi derrubado em 1954 sob a acusação de ter criado um mar de lama no Catete. O golpe de 1964 foi dado em nome da luta contra a subversão e a corrupção. A ditadura militar chegou ao fim sob acusações de corrupção, despotismo, desrespeito pela coisa pública. Após a redemocratização, Fernando Collor foi eleito em 1989 com a promessa de caça aos marajás e foi expulso do poder por fazer o que condenou”.

A corrupção política iguala todas as classes, pois ela – em tese – prejudica a todos: o empresário que deixa de investir e o trabalhador que perde seu emprego. Mas não se diz que é através da corrupção que as empresas (corporações) crescem. Quando não corrompem a lei, usam da lei para corromper a teoria do livre mercado, livrando-se de impostos e recebendo regalias estatais.

A corrupção política destacada compulsivamente pelos meios de comunicação e apoiado pelos poderes judiciários (que em algum momento também saíram beneficiados com ela) serve para impedir a irrupção da ideia de que a luta de classes é também uma luta política. Assim, fecha-se os olhos para as propostas classistas defendidas pelos partidos políticos, e pensa-se apenas na luta contra a corrupção.

Daí, engana-se o povo com argumentos de igualdade, argumentos que asseguram que todos estão juntos contra a corrupção e que, portanto, é preciso nos unir para acabar com ela. Daí forjou-se o “cidadão de bem”, uma ideologia fictícia, anti-econômica.

Ao lado do discurso que diz que a corrupção afeta todo mundo, foi possível dizer que os direitos trabalhistas prejudicam todo mundo. Mas os trabalhadores convencidos de que política se resume a corrupção e não mais a uma luta de classes, o segundo discurso passou batido, enquanto que o primeiro adquiriu contornos precisos e inquestionáveis. Ele entranhou na percepção de todos, e entre o eleitor e a realidade, o ódio à corrupção tornou-se ópio.

Aqui temos a retórica da autoridade que para Bourdieu é o principal elemento da persuasão. A construção de um ethos, da imagem de quem é capaz de combater a corrupção se sobrepõe a imagem de quem é capaz de garantir os direitos dos trabalhadores? Esse é o verdadeiro conflito simbólico e material que há nessas eleições.

Os militares por não terem sido punidos pelas atrocidades que cometeram ao longo da ditadura, como ocorreu nos outros países da América Latina, mantiveram a imagem de instituição honesta, protetora da nação, que receberam desde a vitória na Guerra do Paraguai. Sendo assim, um ex-militar como candidato assume a responsabilidade de combater a corrupção. A imagem é persuasiva por si só devido ao capital simbólico acumulado.

Já o Partido dos Trabalhadores possui um ethos de ter administrado um Brasil que ficou conhecido mundialmente por seu crescimento, por sair do mapa da fome, dando poder de compra ao trabalhador sem tirar direitos trabalhistas, pelo contrário, havia 14° salário e em algumas empresas, até mesmo 15°.

A questão é que as classes dominantes conseguiram criar a imagem de um PT corrupto (imagem que o próprio partido ajudou a criar), e o PT tenta criar a imagem de um PSL contra os direitos trabalhistas (imagem que os candidatos da chapa PSL-PRTB que concorrem à presidência ajudaram a criar). No entanto, devido à força ideológica projetada pela mídia, a preocupação perante à corrupção se sobrepõe a de tirada dos direitos trabalhistas. Até porque temos candidatos de esquerda que não são corruptos e que não pretendem tirar os direitos trabalhistas, que não passam de 11%, se as pesquisas forem realmente verdadeiras (o que duvido muito). Até porque, na luta contra a corrupção, a burguesia esconde a sua verdadeira face exploradora.

É uma estratégia muito inteligente, uma arquitetura admirável, todavia, cruel. Essas eleições são as mais ideológicas dos últimos anos, pois é a que mais se preocupa em esconder os verdadeiros interesses, isto é, os interesses econômicos. E grande parte dos trabalhadores, microempreendedores e trabalhadores rurais da agricultura familiar estão sendo persuadidos a darem um tiro no pé em nome de uma prática que não vai acabar tão cedo (a corrupção só diminuiria com uma democracia mais direta) em troca da perda de seus direitos e conquistas.


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