Colunistas

09 de julho de 2018, 11h55

No Brasil, a bola continua em jogo

Em novo artigo à Fórum, João Vicente Goulart diz: “Nenhum país do mundo avançou tanto em desenvolver um modo nacional de jogar, uma escola própria de futebol, quanto o Brasil, desde a época de Leônidas e Domingos da Guia”

Tivemos, no dia 6, mais uma derrota da nossa Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo. Além de problemas ocasionais da equipe ou do treinador – ou de momento, no jogo – os brasileiros perguntam o que está acontecendo, nos últimos tempos, com o nosso futebol. Não com o nosso futebol em geral, mas com o desempenho da nossa Seleção nas Copas do Mundo – a competição que sempre uniu, e sempre une, flamenguistas e botafoguenses, corintianos e palmeirenses, colorados e gremistas, e assim por diante, na mesma torcida.

Pois, nossa Seleção, queiramos ou não – e, no nosso caso, nós queremos – é uma parte da nossa identidade nacional.

Daí, o trauma de 1950, quando perdemos, na final, para a brava (em mais de um sentido) seleção uruguaia. Ou a festa de 1958, quando ganhamos na Suécia (e, por sinal, ganhamos da Suécia).

Melhor ainda, a festa de 1962, o bicampeonato mundial, quando, sob aclamação popular, o presidente João Goulart desfilou, com a Seleção, que vencera a Tchecoslováquia na final da Copa do Chile, a 17 de junho.

Foto: Arquivo pessoal

E, até mesmo sob a ditadura, a vitória na Copa de 70, disputada no México.

Poderíamos acrescentar as duas outras copas que vencemos, as de 1994 e 2002, porém, as três primeiras foram aquelas que marcaram nosso futebol e o consolidaram como um elemento da nossa nacionalidade.

Evidentemente, não somos obrigados a ganhar todas as Copas do Mundo – embora, até que seria muito bom, mas, provavelmente, tornaria as Copas algo monótonas.

Porém, quando completamos quatro copas sem chegar à final, algo parece estar errado.

Em 1958, em 1962 e em 1970 tínhamos uma escola de futebol, no mesmo sentido em que se usa a palavra “escola” para definir certas tendências da arte e da literatura.

Agora, com quase todos os atletas da Seleção jogando em países estrangeiros – e, uma parte deles, desde muito jovens – essa “escola brasileira” de futebol está deixando de se expressar onde ela é mais necessária: na Seleção.

Não se trata, em nossa opinião, de um problema futebolístico – ou apenas futebolístico.

O enfraquecimento econômico do país, devido a políticas de devastação neoliberais, desde 1990, teve, como consequência, a drenagem de profissionais para fora do país.

Isso foi verdade em todas as áreas – e até onde não havia, propriamente, uma “área”: o Brasil, que sempre foi receptor de migrantes, vindos de países os mais distantes ou mais próximos, transformou-se em exportador de gente, a maior parte para trabalho menos qualificado do que, se a política econômica fosse outra, poderiam encontrar em nosso país.

Hoje, existem brasileiros que, aqui, eram estudantes de engenharia ou de matemática, lavando pratos – ou coisa que o valha – em Boston ou Cleveland.

O que o Brasil ganha com isso?

Somente entre 2011 e 2017, as Declarações de Saída Definitiva do país aumentaram em 160%, segundo a Receita Federal. Mas essas são as declarações oficiais – e as declarações daqueles que têm bens e renda.

A maior parte dos que saem do país não faz essa declaração, porque não tem bens e renda a declarar – ou até porque a sua situação em outros países, no início, é, muitas vezes, irregular.

Em uma situação na qual os 10% da população que têm maiores rendimentos concentram 43,3% dos rendimentos do país (e os rendimentos desses 10% são superiores aos de 80% dos outros), pode-se sentir porque, hoje, há 3 milhões de brasileiros residindo em outros países, segundo o Ministério das Relações Exteriores.

Por esses dados vê-se que a situação é calamitosa. No entanto, é pior. Na mesma PNAD Contínua do IBGE, de onde extraímos essas informações, consta que 39,8% da população em idade de trabalhar, não têm qualquer rendimento (pela mesma pesquisa sabe-se que, entre aqueles que têm rendimento, 1% da população recebe 36,1 vezes mais que metade da população com menores rendimentos).

Sempre alguém poderá dizer que essa pauperização brutal, que afeta a maior parte da população, nada tem a ver com a drenagem de jogadores de futebol para fora do país, pois estes ganham grandes salários etc.

Logo, para esses, a drenagem de jogadores deve acontecer porque o mundo é assim mesmo…

Porém, a mercantilização alucinada (e internacional) do esporte é a outra face – ou, pelo menos, uma delas – da miséria interna.

Nem Garrincha nem Pelé – este, exceto depois de sua aposentadoria no Brasil – jogaram no exterior. Nem Nílton Santos ou Zito ou Gérson.

O único caso desse tipo foi Didi, que ficou um ano no Real Madrid, mas voltou para o Rio de Janeiro – e para o Botafogo – depois de uma briga com o hispano-argentino Alfredo Di Stéfano.

Reciprocamente, quando, na Copa de 58, se soube que Mazzola negociava sua transferência para a Itália, o técnico Vicente Feola retirou-o do time – em que, até então, fora titular -, substituindo-o por Vavá.

O Brasil, nessa época, conseguia manter seus jogadores no país. Os campeonatos dentro do país eram a base do estilo – e, neles, estava a totalidade da escalação do selecionado brasileiro.

Essa Copa demonstrou a mediocrização a que conduziu o chamado “futebol globalizado”, esse que leva alguns brasileiros a torcer pelo Barcelona ou Ajax, que conhecem pela televisão, ao invés de algum time brasileiro.

Não é um problema, como a Copa mostrou, apenas do Brasil.

No entanto, a ideia de formar seleções de futebol sempre significou mostrar as várias maneiras nacionais de se jogar futebol. É necessário que exista uma base nacional para formar uma Seleção nacional, o que parece óbvio.

Nenhum país do mundo avançou tanto em desenvolver um modo nacional de jogar, uma escola própria de futebol, quanto o Brasil, desde a época de Leônidas e Domingos da Guia.

Mas é difícil manter esse desenvolvimento, quando cada jogador convocado exerce a sua profissão em um país diferente do mundo (ou quase isso).

Não pretendemos, aqui, ter esgotado os problemas da nossa Seleção – muito menos tê-los resolvido.

Apenas apontamos que, no futebol, tal como em outros terrenos, a destruição a que o país está submetido há décadas, está ameaçando avanços que nós tínhamos conquistado.


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum