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14 de janeiro de 2019, 15h35

Nossa família EXISTE

Monica Benicio, em seu novo artigo, diz: “Não há ninguém que possa questionar a legitimidade do meu amor ou da família que nós juntas decidimos formar”

Foto: Arquivo Pessoal

Mais um dia 14 e com ele se completam dez meses em que a tiraram de nós. Levaram uma militante aguerrida, uma parlamentar eleita, uma mulher negra, uma amiga, filha, mãe. Mas de mim arrancaram meu grande amor.

Ao longo desses mais de 300 dias tenho buscado ser incansável na luta por justiça. O “luto” só fez em mim enquanto verbo. Eu escolhi a luta como forma de seguir. Por ela, por mim e por todos nós.

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Isso me levou a uma série de entrevistas, vídeos, palestras, reuniões, eventos, homenagens, debates e uma lista sem fim de atividades. Tudo para não permitir o esquecimento do caso e para preservar sua história.

Essa decisão gerou uma mudança completa de rotina. Tive que abrir mão de parte significativa de minha vida profissional. Tenho feito inúmeras viagens e experimentado uma grande exposição na mídia e nas redes sociais. Tudo para cobrar por justiça e para manter sua memória.

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O que não se mostra ou que muitos não querem ver é que não há glamour em tudo isso que venho fazendo. A cada entrevista dada, é preciso retomar como era a vida com a Marielle, é mexer na ferida ainda não cicatrizada. É lembrar e sentir no peito a dor de saber que, no final do dia, não irei dormir ao lado dela. A cada viagem realizada, a lembrança dos planos que não irão se concretizar. A cada espaço de debate e discussão, a necessidade de estudar e de dominar habilidades novas. A cada exposição na mídia, recebo muito retorno com afeto, mas também muitos ataques, lesbofobias e ódio sendo disseminados contra mim. E o principal: ao fazer tudo isso, a impossibilidade de viver meu luto plenamente e de poder encerrá-lo.

Portanto, ao “escolher” a luta, a visibilidade e um novo propósito trazem muitas implicações que não conseguem ser captadas pelas publicações de rede social. O lugar de viúva, não é só difícil e sofrido, pela dor da perda da pessoa amada. Mas também pela cobrança do eterno sofrimento, da não superação, do não seguir a vida. O discurso geral pode até ser o de “a vida segue”, mas os julgamentos e na vida prática qualquer ação ou mudança deste status gera desconfiança: “já superou?”, “já esqueceu?” ou “está querendo se aproveitar”.

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Vivi isso recentemente quando decidi me filiar ao PSOL. Não importa se os novos caminhos que decidi tomar tenham origem justamente com a morte de minha companheira, não importa se isso significa uma forma de dar continuidade às lutas de Marielle ou simplesmente uma forma de seguir, um direito de construir outros caminhos. No lugar a que algumas pessoas tentam me colocar, eu não tenho esse direito. O eterno NÃO LUGAR que nós mulheres lésbicas somos colocadas cotidianamente. Aos olhos de muitos, meu único direito é o do sofrimento e do apagamento.

Estes e estas que julgam dessa forma, que levantam tantas injúrias acreditando estarem preservando a imagem de Marielle, acabam violentando sua família – porque, sim, eu também sou sua família – e se esquecem ou nunca souberam que Marielle lutou em vida para que nossa família pudesse ser reconhecida como tal, para que as mulheres fossem livres e pudessem viver plenamente suas vidas. Isso significa que ela não apoiaria esse tipo de julgamento feito a uma mulher que tenta reconstruir sua vida, que ainda, sem reunir todos os seus cacos, decidiu que a luta política é o seu espaço. Oportunismo está em quem julga, atira pedra e causa sofrimento em seu nome, não em quem está na luta. Marielle presente, significa luta. E vai ter luta!

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Seguiremos cobrando justiça por Marielle, para que nos respondam quem a matou, quem mandou matar e o porquê dessa violência brutal. Mas também seguiremos pela preservação de sua memória e por suas lutas. E eu ainda seguirei, além disso, pela continuidade de seus sonhos. Não há ninguém que possa questionar a legitimidade do meu amor ou da família que nós juntas decidimos formar. Eu sigo por ela e com ela e por todas nós. Eu sou porque nós somos.

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