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14 de junho de 2019, 15h49

O álbum “TerraMar”, de Julinho Bittencourt, por Manoel Herzog

“Terra Mar” é exatamente isso que o nome reivindica, a fusão de duas forças antagônicas que geram a cultura de uma nação, a recepção da cultura de fora e sua ingestão antropofágica e regurgitada como Brasil

Julinho Bittencourt. Foto: Bruno Santana/Divulgação

Do mar à terra, da terra ao mar.

TerraMar/Capa. Foto: Reprodução

É possível se compreender a história da formação da nação brasileira através de um movimento de incursão e volta ao ponto de chegada, o porto que recebeu o primeiro colonizador.  Portugal se apropriou daquelas terras a partir de um Monte Pascoal ao Norte, primeiramente, e depois ao Sul, na ilha de Cubas/São Vicente. Manteve o entremeio, todo o litoral do Espírito Santo, virgem e feito à guisa de uma barreira verde, um muro de proteção às riquezas escondidas das Minas Geraes. De Santos e de Paraty a Estrada Real conduzia a tropa de burros ao interior de riquezas, levando produtos finalizados da metrópole e trazendo commodities (como hoje os neoliberais chamam as matérias-primas). De uma forma escusa, escondida, sem que predadores e piratas e corsários pudessem ver, os portugueses seguiam sangrando o profundo Brasil, e hoje não mais os portugueses o fazem, e nem tão de forma escusa, há golpes mais escancarados vindos de outra metrópole.

Esta digressão preliminar serve pra ilustrar num conceito marxista que toda uma formação cultural nasce deste trajeto da economia, de como o entrar no Brasil profundo nos civiliza e nos dá identidade. A capital já foi Salvador e depois o Rio, transferindo-se por fim à Brasília sonhada pelos inconfidentes. Machado de Assis forjou nossa Literatura desde o velho Rio, para ela ser lapidada e vestida de uma definitiva roupagem pelo mineiro Guimarães Rosa. Antônio Carlos Jobim, sucessor legítimo de Villa Lobos, cunhou nossa música universal, mas ela cresceu em brasilidade com Milton e seu Clube da Esquina, tão profundamente mineiros.

A teoria que aqui esboço talvez seja razoável para explicar um fato pitoresco, como uma cidade litorânea feito Santos, que recebe tanto influxo do interior, pode ser fundamental na formação do conceito de brasilidade. Vem daqui o talvez maior nome da música de raiz caipira, Renato Teixeira. Também aponto ter sido aqui que a antológica dupla Alvarenga e Ranchinho se formou, nos idos anos 20 do século passado. Onde Anchieta pisou evangelizando, e o português junto ao primeiro indígena cunharam a viola caipira, o cateretê, os ritmos primordiais do país que surgia, e que viriam depois a ser enriquecidos pelo brilho africano, nas terras de Brás Cubas se cumpre uma profecia com o lançamento do belo trabalho de nosso talvez mais genuíno artista, o mais santixxxta de todos, o lendário Julinho Bittencourt, imperador do Torto Bar.

O CD autoral intitulado “TerraMar” é exatamente isso que o nome reivindica, a fusão de duas forças antagônicas que geram a cultura de uma nação, a recepção da cultura de fora e sua ingestão antropofágica e regurgitada como Brasil.  Nas dezesseis faixas o músico exercita a viola caipira na cultura caiçara mesclada e arranjos originais, coisa que é raiz mas que é ao mesmo tempo cosmopolita, universal. Julinho esteve em Brasília nos saudosos anos do governo legítimo, e a experiência resultou nas sonoridades deste trabalho. O sonho dourado de Juscelino, que reverbera Tiradentes, a Brasília eldorado, a cidade fraterna que se sonhou e que foi também palco de tantas injustiças, o Brasil enfim, ecoa nas faixas deste Terra Mar, com brilhantes participações de artistas locais, os letristas Vinicius Carvalho, parceiro mais regular nas faixas, e Rodrigo Savazoni, Paulo Barja, duas participações in memorian, Zelus Machado e o poeta Jair de Freitas, mais o brilho de Simone Schumacher, Rogério Baraquet e tanta gente valorosa que há por aqui .

Eu sei que estou me metendo em seara estranha, que não sou nem músico, quando muito faço umas letrinhas aí. Eu sei também que a cidade vive um momento fecundo com o contraponto deste trabalho do Julinho, o disco do Marcos Canduta, do qual, por razões óbvias, me vejo impedido de falar, até porque o próprio Julinho já o fez com muita propriedade e generosidade (pegando pesado neste segundo quesito). Mas quero dizer que, se o trabalho do maestro guitarrista aponta pra uma vocação exterior da cidade de Santos, Julinho com este disco insere a cidade no bojo da formação cultural do nosso país que não está, definitivamente, de costas pro Brasil e de frente pro mar. É, sim, e mais do que nunca, um duplo movimento, de voltar-se pro interior e daí ressurgir enquanto operação estética.


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