Colunistas

30 de abril de 2018, 14h10

O editorial do Estadão e os dois corpos de Michel Temer

O jornal, embora demonstre a imagem decadente do presidente golpista, o descreve como o presidente mais corajoso e empenhado da história do Brasil, pois ele se dispôs a livrar o país de sua maior crise e ainda afirma, repetidas vezes, que quem ganhar a presidência deverá ter a mesma disposição

Foto: Beto Barata

Durante a Idade Média havia uma forma fundamental de legitimar o poder do rei. Segundo os doutores da época, o soberano possuía dois corpos: o próprio, isto é, o físico, mortal, que adoece e perece; e um simbólico, ora ligado ao christomimesis, a imitação de Cristo na terra, ora ligado a Justiça racional, reconhecendo “que estava preso à Razão que comanda todos os reis”, ou que “César deve ser, simultaneamente, o Pai e Filho da Justiça”.1 Esse corpo, por sua vez, era místico, imortal.

Havia toda uma linguagem jurídica e eclesiástica para construir e reforçar essa imagem. No século XVII, por exemplo, o padre Antonio Vieira foi o grande responsável pela construção da imagem santa de D. João IV, mas, no fundo, tinha a missão de alavancar a política que conduziu a Restauração e desenvolver o consentimento dos espíritos que se encontravam em conflito, principalmente acerca da preservação da independência lusitana.

Hoje se reconhece a imagem monstruosa de Temer perante a população. Mas os meios de difusão em massa procuram elogiar outra questão, sua política, a qual deve “comandar todos os outros governantes”. Algo supremo que está acima do corpo e da imagem de Michel Temer, mas que foi inaugurado por ele, como uma espécie de segundo corpo do presidente.

O editorial do Estadão de sexta-feira (27) deixa claro que não vivemos mais em uma época da imitação de Cristo. Nem mesmo a lei é invocada, pois se sabe que o atual presidente não é tão idôneo assim. O principal espírito é o mercado. E a retórica não pode ser jurídica muito menos sacra, mas da “retomada do crescimento”.

Todo governante tem o direito de buscar valorizar aquilo que considera terem sido suas principais realizações durante o mandato. […] O que está em jogo é a defesa do seu nome, da sua honra, da sua história. No caso do atual governo, no entanto, a defesa do que foi feito desde maio de 2016 vai muito além de uma questão de ordem pessoal do presidente Michel Temer”.2

Ou seja, trata-se de uma questão racional, uma estratégia que busca despersonalizar o argumento e as razões pelas quais se deve adotar a ideia que se defende. Isso, sem dúvida, pelo fato da imagem pessoal do objeto defendido (Michel Temer) estar totalmente corrompida.

Além disso, uma retórica do reconhecimento é agenciada para persuadir de que aquilo que se está defendendo é sensato: “Deve-se reconhecer que os índices de popularidade de Michel Temer não são animadores. A ter em conta apenas a popularidade do presidente, a impressão é de que a campanha será muito mais fácil para os candidatos de oposição. Dentro dessa lógica, seria uma tarefa inglória a defesa do legado de Michel Temer”.

Aristóteles mostra as estratégias em louvar o que não merece louvor. Usa-se os “traços vizinhos daqueles que realmente existem num indivíduo, a fim de os confundir de algum modo”.3 Desta maneira, se Temer é impopular, e tem a imagem deformada perante todos, diz-se que sua política é “fundamental”, “fiscal responsável” diferente do “populismo irresponsável dos governos petistas”.

Outra forma de elogio ao presidente golpista encontra-se na seguinte passagem: “não há espaço para titubeios e, muito menos, para novos experimentos populistas. Trata-se de continuar o bom trabalho começado por Michel Temer”. Uma estratégia ensinada por Cícero, onde se deprecia o que veio antes para valorizar a tese em questão.

Foram muitos os erros cometidos no plano político por Temer desde que assumiu a Presidência da República, mas há muito o País não via um governante disposto a enfrentar de forma tão clara os principais desafios nacionais”. Para além do reconhecimento, outra estratégia é embutir virtude onde não podemos encontrá-la. E recusar o pessoal em nome do geral é fundamental nesse processo. Aristóteles nos diz: “de tudo o que se faz pela pátria em detrimento do interesse próprio, […] com a condição de não ser reservado ao indivíduo”.4

Há uma estratégia que quer forçar todos a verem o problema através de um único prisma uma política que favorece um único grupo, mas que, pelo encanto da retórica, parece favorecer a todos. A lógica é requisitada para conduzir esse argumento, pois rejeitar o governo Temer seria inépcia, ilógico, até mesmo desonestidade: “Rejeitar o legado de reconstrução do País promovido por Michel Temer é apoiar a volta da inflação, o aumento dos juros, a diminuição dos investimentos, o emperramento do mercado de trabalho. Não parece que sejam esses os sonhos dos brasileiros”. E continua: “A defesa das realizações do atual governo é uma questão de honestidade com o eleitor”.

O jornal, embora demonstre a imagem decadente do presidente golpista, o descreve como o presidente mais corajoso e empenhado da história do Brasil, pois ele se dispôs a livrar o país de sua maior crise e ainda afirma, repetidas vezes, que quem ganhar a presidência deverá ter a mesma disposição: “Quem assumir a Presidência da República em 2019 terá grandes desafios pela frente, mas nada comparável à situação deixada por Dilma Rousseff e o PT em 2016, com o País afundado na pior crise de sua história”. Nada comparável à Michel Temer!

Cada um pode e deve ter sua opinião política, mas é preciso respeitar os fatos. O Brasil de 2018 está em condições muito melhores do que em 2016 – e é preciso continuar nesse caminho”, conclui o editorial. A seleção de fatos é impressionante, o que não pode ser confundido com a fidelidade do real. A seleção dos fatos feitas por um orador, para Perelman e Olbrechts-Tyteca, quer dar presença ao que está ausente.5 Aquilo que o cidadão não vê, aquilo que não sente no dia a dia com o aumento do desemprego, da violência etc., é trazido para o primeiro plano. Que fatos devem ser respeitados? Se, como disse Roland Barthes, não existe imagem pura porque tudo é traduzido pela linguagem, será que a tradução feita pelo editorial do Estadão é compatível com a realidade, ou é um mero ponto de vista? A retórica, inclusive, é acionada sempre quando se está em jogo uma “comunicação que propõe uma visão da realidade que corresponde a desejos ou necessidades do retor e à sensibilidade e aos interesses do seu público”.6 Este último é levado a crer em uma realidade forjada, obnubilando as raízes dos problemas que vive.

É um toma lá da cá retórico, um jogo de linguagem que privilegia o legado, o aspecto que o orador definiu como útil e fundamental. “A disjuntiva que se apresenta nas eleições deste ano é muito mais profunda do que ser governista ou ser oposição”. Trata-se do “corpo” “supernatural” de Temer que ficará para a eternidade, herdado obrigatoriamente pelos presidentes que virão. “A retórica ajuda a celebrar o casamento dos interesses do influenciador com os do influenciado”.7 A vitória nas urnas por alguém que continuará a agenda do governo Temer é exatamente uma comemoração retórica dos golpistas.

Uma vez George Orwell disse que  “a linguagem política é destinada a fazer com que as mentiras soem como verdades, o assassínio ganhe respeitabilidade e o mero vento receba uma aparência de solidez”. O aumento do desemprego e da violência, a ação repressora da polícia e do Exército, a seleção do Judiciário, e o “crescimento” em meio ao aumento da fome, não retratam essa linguagem política? O fato indiscutível é que, enquanto outrora jurava-se à Bíblia, à Constituição, à nação, o próximo presidente deverá prestar juramento ao golpe.

1 KANTOROWICZ, Ernst H. Os dois corpos do rei: um estudo sobre teologia política medieval. Trad: Cid Knipel Moreira. São Paulo: Cia das Letras, 1997, p. 78.

2 http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,legado-a-ser-preservado,70002285771

3 ARISTÓTELES. Arte Retórica e Poética. Rio de Janeiro: Tecnoprint, s/d. p. 74.

4 Id. p. 72

5 PERELMAN, Chaïm e OLBRECHTS-TYTECA, Lucie. Tratado de Argumentação: a nova retórica. Trad: Maria Ermantina de Almeida Prado Galvão, São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. 133.

6 HALLIDAY, Tereza Lúcia. O que é retórica. São Paulo: Brasiliense, 1990. 30.

7 Id. p. 11.


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