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16 de fevereiro de 2018, 21h57

O golpe avança a olhos vistos – Primeiros pitacos sobre a intervenção federal no Rio de Janeiro

Os alvos dessa intervenção serão as favelas, os morros, as ocupações Estado afora, os mais pobres, os negros, os vulneráveis, e isso, essa caça, esse cerco, será comemorada pela classe média mais retrógrada, pela elite mais abjeta e pelos rentistas, os donos da roleta

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Vejo-me na obrigação de interromper a série de textos que vinha escrevendo sobre Leonel de Moura Brizola em razão da intervenção federal anunciada hoje pelo ilegítimo Michel Temer, responsável direto pela ruptura do processo democrático que vínhamos vivendo desde 1989, quando elegemos pela primeira vez o Presidente da República pelo voto direto desde a ditadura militar de 1964.

Chama muito – muito! – minha atenção esse passo (que é um tropeço, como todos os passos dados pelo ilegítimo), e esse estardalhaço, que está sendo dado e feito, empurrando uma mentira (mais uma) goela abaixo do povo brasileiro. Não há intervenção na segurança pública do Estado do Rio de Janeiro. Há, com todas as letras, uma intervenção federal – expediente jamais usado desde a Constituição de 1988.

Chama minha atenção a fala do ilegítimo logo após a assinatura do Decreto (inconstitucional, diga-se, uma vez que trata-se de medida excepcionalíssima através da qual flexibiliza-se a chamada autonomia federativa para que saia de cena a autoridade do Estado da Federação sob intervenção e entre em cena a autoridade nomeada pelo Governo Federal – e digo mais: a Constituição de 88, mais vilipendiada que Maria Madalena, prevê que o Decreto que instituir a intervenção traga em seu bojo as razões da medida, as amplitudes, o planejamento, o tempo de duração da intervenção, o que significa dizer que, findas as razões, ou resolvidas, a intervenção deixa de existir, e nada disso existe no Decreto há pouco assinado): “O crime organizado quase tomou conta do estado do Rio de Janeiro. É uma metástase que se espalha pelo país e ameaça a tranquilidade do nosso povo. Por isso acabamos de decretar neste momento a intervenção federal da área da segurança pública do Rio de Janeiro”.

E chama minha atenção por conta do uso da palavra “quase”, uma vez que a cúpula do Estado do Rio de Janeiro que antecedeu Luiz Fernando Pezão (uma marionete nas mãos de Sérgio Cabral) está atrás das grades bem como diversos Conselheiros do Tribunal de Contas do Estado (TCE). Quanto à metástase o ilegítimo finge não saber que a raiz do câncer que carcome o Brasil numa velocidade impressionante está em Brasília – o golpe jurídico-parlamentar pôs no poder uma camarilha que inclusive cantou a pedra e o roteiro do golpe numa gravação já famosa: com o Supremo, com tudo.

Chama minha atenção o fato de que tanto o Governador do Estado quanto o Prefeito da Cidade – Pezão e Crivella, este último fora do país desde o começo do Carnaval – comemoraram a inconcebível intervenção (comemorada também, como de se esperar, pela malta dos Marinho em editorial do jornal O Globo).

Chama minha atenção que esse decreto saia sem nenhum planejamento – as primeiras declarações do general nomeado interventor deixam isso claro – e dias após o Carnaval de 2018, marcado por protestos em todo o Brasil contra Michel Temer e suas ações contrárias aos interesses do povo brasileiro, com absoluto destaque para a G.R.E.S. Paraíso do Tuiuti que trouxe o ilegítimo caracterizado como um vampiro a sugar todas as conquistas dos brasileiros e das brasileiras nos últimos anos.

Não é crível – faço breve digressão – que alguém defenda o caos ou a violência. A defesa da ordem pública deve pautar a vida de qualquer governante em qualquer esfera mas sempre – sempre e inflexivelmente – de mãos dadas com o Estado Democrático de Direito, com a Constituição Federal. Assim como deve pautar a vida de qualquer cidadão. E nós precisamos – e refiro-me a quem, como eu, sente-se postado à esquerda – defender que a ordem pública impere e opere a partir dos mais altos escalões da República – e estamos a viver o contrário.

Os alvos dessa intervenção, não tenho nenhuma dúvida do que digo, serão as favelas, os morros, as ocupações Estado afora (recuso-me, por princípio, a usar o termo comunidades), os mais pobres, os negros, os vulneráveis, e isso, essa caça, esse cerco, será comemorada pela classe média mais retrógrada, pela elite mais abjeta e pelos rentistas, os donos da roleta.

Mais que a ordem pública é dever imperioso defender a (volta da) ordem democrática – a ruptura com o impeachment abriu uma fissura que só faz aumentar, dia após dia.

Pretendo voltar ao tema em brevíssimo – quem sabe amanhã, depois de ouvir o que tem a dizer à Nação esse sujeito que atende pelo nome de Michel Temer.

O que é certo é que houve uma espécie de roque no tabuleiro de xadrez da política brasileira: uma jogada especial que envolve a movimentação de duas peças no mesmo lance com a função de proteger o rei ao deslocá-lo para um dos cantos do tabuleiro e conectar as torres na primeira fileira. Resta saber quem são as torres e se elas terão condições de suportar a pressão popular.

Até.


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