Colunistas

01 de agosto de 2018, 15h21

O presepeiro compulsório

Charles Carmo, em novo artigo, escreve: “Antigamente, ser presepeiro era facultativo, hoje é obrigatório. Isso começou a mudar com os designers de tênis e os estilistas de roupas de ginástica. Como os detesto”

Foto: Divulgação

Para ditar moda é preciso ser esquisito antes dos demais. Com sorte, algum rico veste, um personagem de novela adere, sai em alguma revista, um cantor usa e – olha lá – o esdrúxulo se torna padrão, até a próxima excentricidade nos mostrar que a nossa esquisitice está superada e é preciso render-se à próxima, voluntariamente ou à força.

Tenho para mim que muitos desses modismos nascem da mais pura sacanagem, como no caso das “calças slim”, indumentária projetada para não caber, e nos fazer acreditar que estamos mais gordos do que realmente somos, ou pior; quebrando a privacidade de nossos quilos a mais.

Antigamente, ser presepeiro era facultativo, hoje é obrigatório. Isso começou a mudar com os designers de tênis e os estilistas de roupas de ginástica. Como os detesto. A bem da verdade, nem ginástica faço, o que não me impede de nutrir sincera antipatia, pois, invariavelmente, faço uso de tênis, calça e calção. Por isso, sofro.

Regozijam-se ao transformar em moda calçados com até quatro, cinco cores que não se harmonizam, e recusam-se terminantemente a dialogar com outras peças. Incansáveis, persistem até verem o mais discreto dos mortais transformado, compulsoriamente, em um presepeiro pleno.

Comprazem-se ao diminuir o tamanho dos bolsos, embora saibam de nossa necessidade. Inútil falar da gravata, essa iniquidade.

Em seu ateliê, enquanto dormimos, um estilista planeja o próximo atentado contra a natureza dos corpos e do clima, na cocó. Como transformar algo simples num produto mais desconfortável? Como aniquilar a autoestima da consumidora de tal forma que ela recolha sua calça abaixo da cintura e a substitua, imediatamente, por outra que de tão alta lhe toca os seios?

Enquanto você descansa, minha amiga, eles ficam lá, com caneta à mão, arquitetando uma forma de lhe vender o feio por preços proibitivos, porque é feio, mas é confortável. Sacanas.

Não pensem que não se divertem, está na cara que sim.

Lembre dos cadarços. Milhares de dólares são gastos no desenvolvimento de materiais, de forma a assegurar que eles jamais permaneçam amarrados, no que alcançam estrondoso sucesso.

Os consumidores precisam de conforto e beleza? Só vendem separado.

Daí o crocs.

É da moda vender o diferente a todo mundo, para que fiquemos iguais, ansiando aquilo que é díspar, na hora seguinte.

Muitos dirão: a isso se chama liberdade.

Não sei.

Deve ser porque eu sou diferente, como todo mundo.


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