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20 de dezembro de 2018, 16h04

O projeto de Marx, Gramsci e Einstein para uma educação socialista

Raphael Silva Fagundes: “Aumentar a repressão nas escolas, sob o argumento de que é necessário recuperar a autoridade do professor, só irá servir para formar escravos disciplinados em vez de escravos indisciplinados, como é atualmente”

Foto: Arquivo Pessoal

A verdade é muito difícil de se entender, até mesmo de alcançá-la, devido aos engodos fabricados pela linguagem. Por isso, as mentiras ditas sobre alguém ou sobre alguma ideia são muito mais fáceis de se propagar. Imagine um indivíduo comum que buscasse conhecimento sobre Marx. Ele teria que ter horas vagas para ler uma linguagem complexa, cheia de formulações teóricas criadas no século XIX e para o século XIX. Certamente esse indivíduo, atarefado por seus afazeres diários, não tentaria ler o próprio Marx. Portanto, quando hoje se resolve falar sobre ele (ou sobre qualquer outra pessoa) esse indivíduo vai ouvir e acreditar no que se diz, nas palavras que filtram a verdade. Um paradoxo: ao mesmo tempo em que as palavras nos dão acesso à verdade, são elas mesmas que nos impedem de atingir o pensamento original. E por sinal, Marx só existe para um imenso número de pessoas, através da avaliação de quem o detrata, não por ele mesmo.

Em relação à educação, isso é claro. Marx é contra uma educação ideológica. Para ele e Engels, a educação deve ser profissional. “Consideramos a tendência da indústria moderna para fazer cooperar as crianças e adolescentes de ambos os sexos na grande obra da produção social como um progresso legítimo e salutar, apesar de a maneira como esta tendência se realiza sob o reinado do capital ser perfeitamente abominável” (1). Ou seja, Marx e Engels não são contrários ao ensino para a produção, eles são contrários ao modelo de educação que fortaleça “um sistema social que degrada o operário ao ponto de o transformar num simples instrumento de acumulação de capital, e que fatalmente muda os pais em comerciantes de escravos dos seus próprios filhos”.

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Marx e Engels entendem por educação três pontos: 1) Educação intelectual; 2) Educação corporal, tal como é produzida pelos exercícios de ginástica e militares; 3) Educação tecnológica, abrangendo ciência e a manipulação dos instrumentos elementares de todos os ramos da indústria.

Eles preveem um sistema em que ensine não somente a refletir, mas a trabalhar, porque ninguém será sustentado por ninguém: “Aquele que quer comer deve igualmente trabalhar, não só com o seu cérebro, mas também com as suas mãos”.

Por isso, não pode haver duas escolas, uma para cada grupo social, uma escola para pessoas que vão dirigir e outra para pessoas que vão trabalhar. Gramsci conclui que “se se quer destruir essa trama” é necessário criar “um tipo único de escola preparatória” para conduzir o jovem à profissão que deseja desempenhar (2). Ou seja, o ensino marxista é contra a ideologia e defensor da prática industrial. A diferença em relação a proposta capitalista está no fato de que o trabalhador não deve ser apenas um instrumento, uma engrenagem, mas um ser que pensa sobre o mundo para o qual trabalha.

Por que é que no Brasil se odeia a educação? Onde os professores são os menos respeitados do mundo? Primeiro, que se fosse possível pular a escola, poucos seriam contrários. A escola serve como depósito de crianças para que os pais possam trabalhar ou receber benefícios sociais. Em outros casos, os pais se tornaram de fato comerciantes de escravos de seus próprios filhos. Preparam os filhos para ter um bom emprego, mas que não pensem no bem-estar social, sejam incapazes de solucionar problemas complexos ou de pensarem em termos de cidadania.

Há outras questões que o modelo capitalista de educação prejudica. “A produção é realizada com a finalidade do lucro, não com a do uso”, disse Albert Einstein. “O lucro como motivação, em conjunto com a concorrência entre os capitalistas, é responsável por uma instabilidade na acumulação e utilização do capital, a qual leva a crises cada vez mais graves”.

Em seguida, em seu artigo intitulado “Por que socialismo?”, o físico teórico conclui: “Essa deformação dos indivíduos, eu a considero o pior dos males do capitalismo. Nosso sistema educacional inteiro sofre desse mal. Uma atitude competitiva exagerada é inculcada no estudante, que, como preparação para sua futura carreira, é treinado para idolatrar um sucesso aquisitivo” (3). Se o conhecimento técnico fosse voltado para o desenvolvimento humano e não para o lucro, chegaríamos a níveis tecnológicos inimagináveis. Dessa forma, é mais do que evidente: o capitalismo é um entrave para o desenvolvimento tecnológico e científico da humanidade.

Talvez isso explique como a URSS passou de uma praticamente economia feudal para uma economia espacial em menos de 40 anos. Talvez isso explique por que Cuba possui dificuldades econômicas, mas consegue criar curas para doenças que não existem em outras partes do mundo. Trata-se do modelo de educação que não está voltado para o lucro, mas para o desenvolvimento humano.

Mas o futuro governo mente para manter um sistema de educação falho, que visa somente o lucro. Aumentar a repressão nas escolas, sob o argumento de que é necessário recuperar a autoridade do professor, só irá servir para formar escravos disciplinados em vez de escravos indisciplinados, como é atualmente. A educação continuará servindo para o lucro, prendendo o pensamento e a ciência às exigências do capital.

(1) MARX, K. e ENGELS, F. “Crítica da Educação e do Ensino”. Lisboa: Moraes, 1978.

(2) GRAMSCI, A. “Os intelectuais e a organização da cultura”. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

(3) EINSTEIN, Albert. “Por que socialismo?”. https://www.marxists.org/portugues/einstein/1949/05/socialismo.html

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