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03 de janeiro de 2019, 15h43

O ridículo do falo em “O pau do Brasil”, de Wilson Alves-Bezerra

Tomaz Amorim analisa em sua coluna o livro de poesia “O pau do Brasil”, de Wilson Alves-Bezerra: “Bezerra, um mestre da citação, recorta, parodia, deforma e remonta. O que aparece é uma imagem triste, confusa e, no entanto, realista do Brasil do noticiário, do Brasil eterno em sua maldade da vez”

Foto: Reprodução

Há um gesto como o de Gregório de Matos em “O pau do Brasil” (Editora Urutau, 2018), de Wilson Alves-Bezerra. Sua poesia se afia, toma gume para falar das coisas do mundo, sem abrir mão, no entanto, de sua força maior: os procedimentos técnico-literários. A sátira, a escatologia, a inversão, a metáfora, tudo serve para trazer à luz o que se esconde na limpeza do jornal. A escolha precisa de técnicas apropriadas para cada tipo de episódio, revela os ângulos sujos no rosto do poder colonial-nacional.

Sobre este conceito de fantasia medieval, de ficção científica, chamado estado-nação, esta invenção europeia sempre em decadência, esta infecção europeia que pela milésima vez tenta se impor sobre o descrente cidadão de cada geração, “O pau do Brasil” afirma: “Cada país é uma série infinita de bilhetes de volto logo e uma série infinita de não volto mais”.

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Se parece que pouco mudou desde o Barroco de Gregório, “O pau do Brasil” não mitifica a desgraça social brasileira, como se houvesse algum tipo de condição inescapável. Pelo contrário, ele esmiúça os aspectos novos e velhos que estruturam as desigualdades presentes.

Não se trata, então, de um livro apenas melancólico, raivoso, resignado. Por mais crítica, satírica, que seja, a obra de arte precisa conter, muitas vezes em segredo, um ponto de vista redimido, nem que seja negativo. Seu lamento, sua reivindicação se encontra justamente na discrepância entre a utopia presente em sua forma e o desastre das coisas no mundo que ela denuncia. (Mas há de nascer um novo pau – algo, no fundo, brilha em negativo, radioativo, que seja. Quem sabe um pau menos “um junco, um pinho, um cacto”, quem sabe um “novo pau do Brasil” frutífero?).

Um dos méritos do livro é o domínio do autor de variadas técnicas literárias. Prosa poética, recortes jornalísticos, discurso direto e indireto, versos com e sem ritmo e rima. O tumulto público do país é assim investigado a partir das potencialidades narrativas e críticas da literatura. A sessão que nos brindou com o discurso célebre e pilantra de um parlamentar é sucedida por uma prosa poética no estilo de um Rimbaud menos ligado à Bíblia católica e mais de saco cheio dos jornais da república.

Há, sim, certos lugares comuns no livro. As cansadas metáforas da terra virgem estuprada pelo colonizador que são atualizadas sobre o presente do turismo sexual. Os ratos ligados à corrupção. As vaginas vingativas. O desejo de poder como híbrido de corrupção e sexualidade. Mas a coragem, a força estética de “O pau do Brasil” está justo em falar estritamente de si: mostrar-se repetidamente, expor a falência e o ridículo deste falo apodrecido.

É talvez o que tem para hoje, 2019: expor o ridículo do falo. A invenção de outra forma masculina fica como hipótese posterior, a escuta das possibilidades femininas de poder fica reservada a outras obras, mais capacitadas para falar a partir daí. Não é disso que “O pau do Brasil” quer falar porque não é aí que está o problema, o seu e o nosso. Sua tarefa é a descrição dolorosa e pormenorizada do falo falado em terceira pessoa, mas também, e sempre, em primeira, como todo homem precisa saber.

“O pau do Brasil” é um livro aberto, em composição. A edição mais recente é a terceira e conta com doze partes. O livro permanece fiel talvez à ideia de que, politicamente, o ano de 2013 ainda não terminou e vai assim adicionando, a cada nova edição, uma leitura dos novos-velhos fatos políticos.

Do pré-processo de impeachment ao governo Temer (com uma expectativa já alta para as aventuras do pau brasileiro em 2019). A primeira parte, “Terra em transe”, é um tipo de invocação da musa, um sobrevoo sobre a história mais geral do país e a repetição de sua violência através do tempo com diferentes roupagens. A segunda, “História do Brasil. Período contemporâneo”, é uma montagem de frases já históricas, apesar de recentes, de personagens como Michel Temer, Lula, relatores do impeachment e críticas à política econômica que estruturam narrativamente o processo de golpe pelo qual passou Dilma Rousseff em 2016. (Já é chocante, visto tão pouco tempo depois, a verdade e falsidade cristalina de algumas declarações).

É, de novo, ainda no modernismo mais característico, literatura tirada de notícia de jornal. Os fatos e falhas absurdos são relatados de tal maneira nos jornais que quase dispensam tratamento literário. Basta realizar aqui e ali um recorte preciso. História literária e história geral se misturam de tal forma que ambos os historiadores poderão buscar daqui décadas em “O pau do Brasil” pistas preciosas para entender os confusos últimos quatro anos. No último capítulo da sessão, “Vida de gado”, lê-se, em versos:

“Este pato representa a indignação das pessoas.

O povo brasileiro é um povo do bem.

O pato, com este olhar de paz,

é a forma brasileira de protestar”.

Como na boa poesia, não sobra mais nada a dizer. (Ou talvez: quanto mais tempo passa desde sua reprodução, mais grasna esse pato mudo).

Na sessão seguinte, figuras de alteridade se chocam. Deputados, em pleno discurso no dia do golpe, John Coltrane, Gregor Samsa, índios. Há uma contradição dolorida contra a qual o livro todo luta: o que sempre foi, a maldade política que se repete, não pode ser a totalidade do que há. Há de haver algo a mais. A história não acabou como disse o liberal Fukuyama há quase três décadas: “Fukuyama não viu Fukushima”. É verdade, mas o livro também propõe, com grande mal-estar, será apenas isso que a história terá a oferecer? Novas catástrofes?

Em mais de uma sessão de “História do Brasil”, agora já pós-golpe, Bezerra lança mão novamente do procedimento que talvez seja o mais poderoso deste livro: a mera citação, o recorte jornalístico com olhar de poeta. Esta sessão, não por acaso localizada quase no centro do livro, é uma crítica elegante e brutal do status quo, do vergonhoso “as instituições continuam funcionando normalmente”. Cada segmento da sociedade é apresentado a partir de recortes específicos, de depoimentos próprios quase nada ficcionalizados, não fosse seu ridículo já quase no reino do fantástico. André Nogueira descreve bem este procedimento:

“Wilson Alves-Bezerra fez isso por nós, pegou porções desse bolo de excrescência discursiva e com elas preparou um refluxo poético implacável. Quando em 2016, para ‘o terror de Dilma Rousseff’, uns deputados e filhos-deputados, de terno e coturno, golpearam nossa presidenta ‘pela memória do coronel’ aquele mesmo, que a golpeara outrora, o pau-de-arara foi alçado à tribuna do Parlamento. Desde então, muito temos engolido, mas não sem espumar. Dessa espuma, de nojo e revolta, Wilson faz matéria prima, incorpora os discursos mais abjetos com que nos têm regalado os poderes judiciário, executivo, legislativo, os pastores, empresários etc., e os expõe pela lente satírica”.

A sessão seguinte, “Textos do Inferno”, é a parte mais estritamente poética do livro até então. Imagens da vida política aparecem metamorfoseadas em roupagens escatológicas, sexuais e metalinguísticas. Bosch, Dante, Rimbaud, Lautréamont, Strindberg, Antonio Vieira – toda uma tradição de representação do inferno, desta vez, na banalidade da notícia do jornal tropical. O inferno também é aqui e a temporada é longa.

“Relato em três por quatro”, por sua vez, relata objetivamente os começos do governo Temer e seus escândalos de corrupção envolvendo o empresário Joesley Batista. No gesto típico do livro, os trechos são escolhidos com inteligência buscando não apenas os fatos políticos, mas traços de personalidade dos personagens envolvidos. Presidente e empresários se tornam figuras dramáticas, ou, melhor dizendo, cômicas, bufões, bobos. (Há algo, nesta crueza jornalística, nesta licenciosidade público-privada de Nelson Rodrigues).

Em “Não Ninguém Nunca”, as personagens e episódios anteriores aparecem alegorizados. A história oficial vai sendo romanceada, capítulo a capítulo, e conforme as máscaras vão caindo – com a velocidade carnavalesca dos heróis nacionais – a deformação vem à tona. Passamos a entender melhor o Barroco e sua necessidade de exagero, de deformação, de sadismo satânico. Porque a descrição distorcida pelo espelho luciferino de Bezerra é realista. O Barroco é realista, a metáfora é literal, o país não dá o nome, é ele, afinal, quem recebe e homenageia em permanência o Pau-Brasil, falo e mercadoria encarnados. “E eis que não havia metáfora”, ele mesmo diz. Nada escapa à esta deformação realista, nem golpistas, nem esquerda, nem leitor. O banquete oferecido é um regime, o militar, ou “fardos de feno à vontade”.

Em “Tragédia e Farsa”, os magistrados tomam o palco tornado tribuna. As pérolas emitidas pelos porcos de bata são colhidas e expostas como em uma só joia, um cetro nas mãos ridículas de, como se sabe, um dos judiciários mais caros e ineficientes do mundo. Quem teve estômago de ler o roteiro tragi-cômico chamado jornal nos últimos anos se lembrará das referências: ministros do supremo dizendo que trabalham como escravos, Judith Butler caçada como bruxa no Brasil, Rodrigo Maia, encarnação da vez da massa fecal que domina o congresso desde antes de 1988.

Em “República Federativa dos Tiros” parece haver uma interrupção dramática. É um pouco uma miniatura do livro. Onde a linguagem falha, onde a indignação pela injustiça faz engolir a seco as palavras, ao invés de cuspi-las com palavrões, surge a paródia. Onde a linguagem não consegue se estruturar por conta própria, ela empresta de modelos canônicos estabelecidos, para poder seguir, mesmo que apenas através da distorção. É talvez por isso que depois de um breve texto sobre as declarações da PM sobre o assassinato de Marielle Franco, Bezerra alista Gonçalves Dias, Guimarães Rosa, García Lorca, para tentar dar conta destes tiros. Sem resolver, sem tentar resolver, ele fotografa com precisão este momento permanente de terror e loucura que é a história do Brasil. “E agora?”. Nem mesmo o José drummondiano aguenta o peso desta pergunta.

Em “Supremas palavras”, os juízes voltam à tribuna. Se é verdade que “as palavras perderam o sentido no Brasil”, se é verdade que a língua foi envenenada, com todas as fatais para qualquer debate democrático, a seleção precisa que Bezerra mostre o oposto. Não o tempo todo, mas algumas palavras entregam, sim, o jogo. Aqueles momentos dramáticos, de desabafo, quando a realidade crua e mais banal, vem à tona. “O pau do Brasil” pode ser entendido como documento literário, como antologia dramática destes momentos. “Vossa excelência sozinha desmoraliza o tribunal. É muito ruim, é muito penoso para todos nós termos de conviver com vossa excelência. Não tem ideia, não tem patriotismo, está sempre atrás de algum interesse que não é o da Justiça”.

“Cova rasa” é um tipo de mistura dos procedimentos anteriores. Paródia, prosa poética alegórica, denúncia crua e simples, revolta. A sessão se abre com uma paródia de um texto famoso atribuído erroneamente a Bertold Brecht: “Primeiro levaram os negros, mas não me importei com isso, eu não era negro”. Bezerra, um mestre da citação, recorta, parodia, deforma e remonta. O que aparece é uma imagem triste, confusa e, no entanto, realista do Brasil do noticiário, do Brasil eterno em sua maldade da vez. O capítulo seguinte trata de outro episódio desta vez mobilizando o estribilho do Corvo de Poe. Em seguida surge a Pasárgada de Bandeira transfigurada pela luz luciferina do trópico, do círculo polar. É um carrossel literário, um carrossel digno de filme de horror. É um carrossel como teria sido construído pelo Jack de Lars von Trier. Pasárgada se torna um deserto gelado, um amigo morreu, não há refúgio na intelectualidade, nas redes sociais, o livro vai chegando ao fim e ele não aguenta mais, nem o leitor, nem o crítico, nem o Brasil.

A última parte desta edição, “Cadernos do Cárcere”, trata, como não poderia deixar de ser, do processo de prisão de Lula. O mandato de prisão expedido por Moro e imortalizado nos jornais do país surge elegante, em versos. Elegante como um juiz de topete e gel. O Brasil é cinematográfico, Lula é o bom ladrão, Moro é o xerife, Guilherme Boulos apresentado por Bob Marley atira no xerife. Corta! Próxima cena. O jornalista Reinaldo Azevedo é o Janos tirado do Império Romano e atualizado na DC Comics, é o Duas Caras inimigo do Batman. Corta! (Tudo isso praticando meramente a arte da citação consciente, direto do jornal, do diário oficial). Lula na cruz, serei candidato, serei inocente. Corta! Bolsonaro e a covardia com que diz os absurdos aparece no penúltimo capítulo do livro. É a jogada de marketing do produtor, já anuncia a sequência do filme. “Tem que matar mesmo”. Corta! Nos créditos fala algum sociólogo em voice over, as letras sobem, as luzes se acendem, o público senta inerte. Corta!

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