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09 de abril de 2018, 16h22

O semianalfabeto político e o golpe passo a passo

Yuri Martins Fontes, em novo artigo, diz que o pragmatismo de visão curta é o máximo que o semianalfabeto consegue compreender da política, modelo que serve para que a elite do 1% não perca um centavo de seus lucros, mesmo em meio a uma crise econômica mundial

Foto: Reprodução

O semianalfabeto político é ainda pior à sociedade de que o analfabeto político de que fala Brecht, pois enquanto este não sabe que a política está no preço do pão e do remédio, o semianalfabeto acha que sabe – e sua voz ecoa muito mais, ao repetir a narrativa diariamente martelada na televisão e jornais comerciais (ainda que seja uma narrativa absurda e descolada da realidade ou da ciência).

O semianalfabeto político é aquele típico cidadão de classe-média ou média-alta, “bem informado” pelo monopólio discursivo da imprensa golpista – cuja opinião ajuda a promover a atual desconstrução nacional que vivemos no Brasil, e que agora culmina em um Estado de exceção que transgride a própria Constituição, conforme acusado pelos maiores juristas do país e do mundo.

O semianalfabeto – um “idiota” autocentrado — teve acesso aos bancos de razoáveis escolas, mas sua complexão mental foi limitada pela “informação” rasa obtida em meios como a Globo e o Estadão (e por vezes em “best-sellers” de narrativas suaves e fofas, sem aquelas “bobagens” das referências históricas e científicas “que não servem pra nada”).

Seu “conhecimento dos fatos” é aquele ao estilo “bula de remédio”: a “verdade” de rebanho difundida pela “imparcialidade comercial” do grupo Globo-Estadão-Folha-Abril, que há décadas faz do Brasil um país mais desgraçado, no qual uma elite mesquinha de famílias a se contar nos dedos detém mais de 90% da riqueza e da comunicação nacional.

O semianalfabeto político é o médico, o veterinário, o analista informático, o vendedor, o engenheiro que sabe tanto de política (através dos editoriais da mídia comercial), quanto o cidadão leigo costuma saber de medicina ou engenharia a partir da leitura de bulas ou folhetos publicitários de edifícios destinados a vendas.

Peças de propaganda imobiliária vendem seus novos escritórios, enquanto a imprensa comercial vende seu “produto intelectual”: a visão subalterna de um Brasil periférico destinado a ser um miserável aliado menor do centro do capital.

Para tanto, essa mídia corporativa expõe em suas “bulas” de meias-verdades as informações que devem ser conhecidas pelo ignóbil “comprador”, escondendo dele, naturalmente, os efeitos colaterais, os testes que falharam etc.

Fatos básicos do golpe para breve instrução de semianalfabetos políticos

Para que semianalfabetos possam sair de seu torpor anticonstitucional pós-rojões do fim de semana, vamos diretamente aos fatos mais explícitos sobre o tal “julgamento” que faz de Lula o preso político do século XXI:

Fato 1- Lula e Marisa compraram uma cota de uma cooperativa habitacional (processo que barateia a compra). A cooperativa faliu e transferiu o empreendimento para a OAS, que em 2009 o renomeou, e abriu aos cooperados a oportunidade de mudança de planos.

Fato 2- Segundo demonstraram juristas e advogados (com provas documentais), Lula e Marisa, a partir de convite da empresa para que transferissem a compra do apartamento-modelo para o triplex, em um primeiro momento manifestaram interesse, mas após a visita (relatada), desistiram da aquisição – ainda que a empresa já tivesse executado reformas que visavam tornar o imóvel mais atraente à família de Lula. Questão: Poderia a OAS ter dado um presente a Lula, como é tão típico empresas fazerem no capitalismo com chefes-de-Estado? Poderia. Seria ilegal? Não, é bem comum aliás. Mas não o fizeram.

Fato 3- O imóvel tríplex jamais veio a estar em nome de Lula ou de quaisquer familiares ou amigos de Lula, e nem mesmo de desconhecidos quaisquer que pudessem servir de “laranjas”. O tríplex manteve-se como propriedade pertencente à empresa OAS e assim está até hoje registrado, conforme as leis que regem as transações imobiliárias no país. Aliás, as leis sob o regime capitalista, como se sabe, não servem para preservar a dignidade ou vida humana, mas antes de tudo a propriedade privada – e daí que sejam extremamente rígidas com suas burocráticas certidões e escrituras, sem o que não há propriedade de nada.

Retomando, para mau-entendedor: Lula não teria como ter a segurança de usar um imóvel sem que estivesse em seu nome ou de alguns dos seus. Isto sem contar o fato de que isto seria algo imensamente irracional, dado que consistiria em um gesto aberto de corrupção, e fácil de ser comprovado (o que ocorreria ao mínimo desafeto que surgisse com a empresa, ou quando o poder de Lula fosse minimamente diminuído após seu mandato). Obviamente.

Fato 4- Conforme o mostram diversos advogados e juristas renomados, além de professores de direito das maiores universidades do país (e com provas concretas, como cabe à questão), a acusação do juizinho-qualquer de primeira instância, que em busca de fama, acusa Lula de “corrupção passiva” por ter se tornado “proprietário de fato” do tríplex em 2009, é “manifestamente absurda”. Isto porque, em 2009 o prédio estava na fase inicial de construção (com só 22% da obra concluída, conforme dados da própria sentença). Ninguém pode ser “proprietário de fato” de algo que ainda não existe – e que pode, portanto, jamais vir a existir (e muito menos de algo que tampouco é seu “de direito” – pois como dito, não há certidões etc).

Fato 5- A acusação do periférico juiz-pop se funda, portanto, não em provas concretas ou qualquer documentação, mas tão somente em suposições que interessam a sua “tese”, amparadas por acusações verbais – “delações premiadas” – colhidas junto a criminosos capturados pela justiça, como o tal Leo Pinheiro e um comparsa dele, desviador de recursos que, já condenado, em vista de sua “delação adequada”, foi liberado do cumprimento de sua pena criminal.

Questões para a reflexão dos rojões do semianalfabeto

Questão primeira: Será que Leo Pinheiro poderia ter mentido para obter sua liberdade? Ou será que ele poderia ter sido subornado pela CIA ou pela obtusa direita parlamentar vendida (ansiosa pela privatização da Petrobras, que lhe geraria boas propinas, tal como o caso das propinas da Vale, dada a preço de banana por FHC, crime jamais julgado pela “Injustiça Brasileira”)? Será que o valioso Pré-Sal interessaria à CIA em busca de manter sua influência sobre o quintal latino-americano que estava se perdendo com os BRICS, situação agravada pela acelerada crise ambiental-energética mundial?

Fato extra: Um porteiro do prédio afirma ter ouvido dizer que o apartamento seria de Lula. Em suma: o porteiro pode ter ouvido um boato de alguém interessado em lançar este boato… ou não?

Questão extra: Será que a CIA, com suas décadas de experiência em golpes de Estado, com seus milhões de dólares anuais para a formação de “inteligência” e refinados estrategas” (e não falo aqui de simplórios Kataguiris ou Waacks), e com todo o aparato de Estado dos EUA, não teria tido a ideia de, através de seus agentes, construir um boato a respeito desta “propriedade”? A poderosa CIA que envenena líderes de nações opositoras há quase meio século com fabulosos microdardos invisíveis, não teria tido uma ideia tão simples? E recordemos que houve muito tempo para elaborações astutas, pois o início das mobilizações reacionárias contra o reformismo lulista data de 2003 (início do jamais provado “mensalão”, suposto pagamento mensal que nunca caiu em conta alguma de nenhum parlamentar, nem mesmo dos mais suspeitos aliados do tal “centrão” safado, e que, portanto, segundo a história comprovou, de fato não passou de mais um “caixa-dois”, usado por todos os partidos).

Resumo da ópera: as “provas” contra Lula no roteiro do golpe

Em suma, as principais “provas” de Moro são, portanto: depoimento de dois ou três criminosos, interessados em deixar a prisão com os bolsos (decerto) bem cheios; documentos na casa de Lula que não “demonstram” nada para além de que ele fora convidado a adquirir o apartamento, e que efetivamente sua esposa (assassinada pelo escracho midiático criminoso) o visitou; mensagens trocadas entre dois bandidos condenados, envolvidos em variadas trapaças, que buscavam adaptar o apartamento para torná-lo mais atrativo e vendê-lo ao presidente – mas que nunca o venderam de fato.

A partir daí, o golpe seguiu o roteiro midiático-parlamentar-judiciário (quase-militar) — nesta ordem — que conhecemos.

E com que facilidade! – dada a estrutura herdada da ditadura de 1964, que permite que um juiz-qualquer, num país sem Estado de direito, tenha a prerrogativa de literalmente “caçar” sozinho um estadista e líder popular inconteste, que encabeçava uma oposição (por branda que fosse) aos projetos de recolonização e apropriação pelos EUA dos imensos recursos naturais e energéticos brasileiros.

Não esqueçamos que são tempos de grave declínio da unipolaridade geopolítica estadunidense, ameaçada pela oposição da aliança russo-chinesa (e antes do golpe, reforçada pelo próprio Brasil do lulismo “altivo e ativo”, junto aos BRICS).

Outros fatos e questões de relevância

Parlamento BBB: Quanto ao baixo nível do Parlamento brasileiro, não é preciso dizer nada, bastam as imagens e discursos do dia da votação do golpe contra a presidenta Dilma.

Supremo Tribunal do Privilégio: Quanto à desonestidade padrão do Judiciário, tampouco é preciso dizer muito, basta que se observem seus privilégios descarados tais como o auxílio-moradia de 5 salários-mínimos para cada juiz (inclusive quem tem imóvel no mesmo local em que trabalha) — dentre muitos outros, como pensão para filhas etc. Aliás, segundo a golpista Folha, o próprio Moro recebe esse auxílio em Curitiba, onde tem casa própria. Ou enfim, basta observarmos como juízes se unem fácil e corporativamente pela elevação de seus indecentes salários de em média 60 ou 100 mil reais por mês, enquanto o bolsa-família de 120 reais vem sendo “questionado” e cortado (“é a crise”).

Questão curiosa: por que será que Moro deixou a UFPR em que lecionava e mantinha prestígio “acadêmico”, para ir viver nos EUA logo após a Lava-Jato (informação da assecla do PIG Mônica Bergamo)?

Questão curiosa 2: Será que o projeto político-pessoal e de fama de Moro se valeu de seus aprendizados, quando participou de curso do Departamento de Estado dos EUA sobre “lavagem de dinheiro” e suas formas de “provar” este crime mediante retóricas subjetivas tais como “convicção” ou “domínio do fato” (no vulgo: “opiniões sem provas”)? Ou será que ele aprendeu sobre isso também na “Harvard Law School”, onde fez diversas interessantes amizades, as quais vai agora reencontrar?

Questão curiosa 3: A lavagem de dinheiro praticada pelo doleiro Alberto Roussef e comparsas, desviando verba de 2 bilhões do Banestado durante o governo FHC, foi absolvida por Moro por quê? Seria porque ele é próximo à cúpula do PSDB, tendo sido visto em diversos eventos comemorativos, ao lado de criminosos tucanos não processados?

Questões de ordem de grandeza e celeridade

A magnitude de processos que envolve a cúpula tucana (Serra, Aécio, Alckmin) é da ordem de centenas de milhões de dólares — e chega a 7 bilhões de dólares no caso de Aécio. Ou seja, trata-se de algo cerca de 100 a 1000 vezes mais de que o valor do suposto tríplex de Lula, e com várias provas muito mais “concretas” que meras “convicções” (contas já rastreadas na Suíça, além de aeroporto feito com dinheiro público em terras da família de Aécio, a 6 km das terras do próprio Aécio etc).

Pergunta-se: por que tais casos, bem anteriores e com grandeza incomparavelmente maior que o caso de Lula, jamais foram julgados pelo STF de Gilmar Mendes e Barroso?

[*leia sobre a corrupção tucana jamais julgada em: www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/14-escandalos-de-corrupcao-envolvendo-Aecio-o-PSDB-e-aliados/4/32017]

Questão de mercado: Por que um líder sagaz como Lula aceitaria um suborno tão pequenino (que é um apartamento no Guarujá, frente ao que o PSDB conseguiu com empresas bem menores que a Petrobras), e com o agravante imenso da perigosa visibilidade praiana (!) – como pagamento em um caso de corrupção bilionária, talvez trilionária, envolvendo a maior empresa petroleira do mundo?

Os exageros anticonstitucionais do golpe

O juiz tucano Gilmar Mendes é um dos maiores promotores da face “judiciária” do golpe, sujeito que como se sabe é um membro histórico do PSDB – não filiado (pois seria ilegal), mas abertamente presente às mais importantes cerimônias e reuniões dos líderes desse partido, fato com abundantes registros discursivos, escritos e fotográficos.

Questão das mais curiosas: Ora, por que esse crápula, intimamente ligado a empresas transnacionais, se fez de juiz “constitucionalista” na recente votação do “habeas corpus” de Lula?

Uma resposta no quase-golpe-militar: Ao que parece, a maioria mínima de 6 juízes-superstars, conservadores, passivos e privilegiados, como é típico da classe, acovardados por ameaças de militares e também pela “opinião pública” de seu meio de classe média-alta, ultrapassaram qualquer limite do bom-senso ao transgredir explicitamente o Estado de direito, a ponto de tornar ridícula, no meio jurídico internacional, a decisão estabanada de prender Lula em tempo recorde.

Note-se aqui que até mesmo o ultrarreacionário colunista ex-Veja, Reinaldo Azevedo, denunciou a farsa deste processo contra Lula, chamando a direita brasileira de “elite xucra” que está a “assaltar a institucionalidade” em uma “delinquência disfarçada de liberalismo”.

A geopolítica do golpe de Estado

Questão econômica estrutural: por que a Odebrecht, uma das maiores empresas de engenharia nacional, e a Petrobras, vêm sendo destruídas pela “justiça”, e desmoralizadas pela imprensa golpista (PIG), ao invés de serem presos apenas os comprovadamente envolvidos em corrupção? Seria porque se tratam de empresas que (como poucas no mundo) detêm – ou detinham – tecnologias avançadas, como a de extração de poços de petróleo profundos (agora sendo “repassados” rapidamente pelo esposo de Marcela Temer às petroleiras dos EUA)?

Questão de vira-latas: Quanto de racismo há na prisão acelerada e sem direito à ampla defesa constitucional de um presidente nordestino e oriundo da classe trabalhadora – processo condenado pelos maiores juristas do país, os quais, mesmo podendo ser contestados, tinham ao menos que ser ouvidos antes de se obstruir todo um projeto de nação, antes de se afundar o país em um arcaico regime neoliberal que há mais de 10 anos foi abandonado pela própria União Europeia por sua inoperância econômica e desestabilização social?

Crise econômica e superexploração

Assim, ao lado do racista assumido, do especulador criminoso, ou do cafetão alegre, o semianalfabeto das classes-médias semicultas, com sua torpe habilidade intelectual para digerir fatos óbvios, sustenta com rojões incautos o processo criminoso pelo qual o golpe está passando para as mãos de transnacionais estrangeiras nossas maiores riquezas: especialmente o Pré-Sal (das mais importantes jazidas do mundo), em tempos de início de crise energética.

Por outro lado, o semianalfabeto dá de ombros ao ver o Brasil recolocado no mapa da fome da ONU (tragédia que o reformismo lulista havia superado). Contudo, este despeito só dura até o próximo “Jornal Nacional” mostrar a explosão dos níveis de criminalidade no país — e aí o semi-idiota blasfema pela “pena de morte!”, enquanto põe cacos de vidros no muro (dado os altos preços da empresa do sistema de vigilância).

Este pragmatismo de visão curta é o máximo que o semianalfabeto consegue compreender da política, modelo que serve para que a elite do 1% não perca um centavo de seus lucros, mesmo em meio a uma crise econômica mundial (como mostram inúmeras pesquisas científicas e econômicas mundo afora, mas o semianalfabeto só lê “best-sellers” de narrativas leves).

Com isso, ele facilita a superexploração dos que trabalham – dentre outras barbaridades cometidas pelo “golpe atualizado”, que passando por cima do Estado de Direito e da Constituição, abre espaço para discursos fascistas em nível nacional.

Esta é a tática de terra arrasada com que a impopular direita quer se livrar da oposição política — cujo projeto de nação, embora sem necessários rompimentos com o sistema, é contrário ao anterior entreguismo de propina fácil. Uma tática anti-humana que certamente, em pouco tempo, vai mostrar seus revezes econômicos e sociais.

 *Obs: este artigo foi escrito na conjuntura de acirramento do golpe; na coluna seguinte retoma-se o caso da questão Israel-Palestina]


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