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22 de outubro de 2018, 16h02

O socialismo triunfa e o neoliberalismo tomba (apesar da “onda”)

Yuri Martins Fontes: “A queda fascista do projeto neoliberal e sua tríade fisiológica (Parlamento-Judiciário-mídia corporativa), que se abstém da roupagem racional e aposta na monstruosidade”

Foto: José Cruz/Agência Brasil

O socialismo triunfa na disputa ideológica contemporânea, apesar da recente guinada popular militaresca (não necessariamente é fascista quem vota em um). A população, em última instância, demonstra sua recusa ao neoliberalismo: ao desemprego, ao processo de crise em cima de crise do qual as estruturas rígidas do capital não nos deixam desvencilhar.

Pouco a pouco o povo se dá conta da “fake news” autonomeada “democracia liberal”. Compreende que apesar de tudo, por mais humilde que seja, um cidadão dispõe de direitos humanos fundamentais. Porém, com pouca formação política e atordoada pelo noticiário venenoso da mídia empresarial, grande parte tende a achar (momentaneamente) que a resposta está no “novo”. Farsa ora representada por Bolsonaro.

PSDB e direita “racional” faliram

A direita pretensamente racional faliu: vide a votação do PSDB e corja associada. A elite ligada ao capital-mercado sabe que Bolsonaro é incapaz de tirar o país da crise, mas não tem mais alternativa diante do fracasso de seu projeto antiprogressista (travestido de antipetismo) – que pretendia ressuscitar o neoliberalismo para “corrigir” o incorrigível do nosso Estado capitalista e militar. Mágica: como se a violência da crise econômica mundial não estivesse a assolar o mundo desde 2008.

Volta à luz como nossas instituições (e desigualdades) estão ainda subjugadas às estruturas criadas no golpe militar de 1964. A direita fundamentalista, os “crentes do mercado” – essa classe “técnica”, mas normalmente inculta, com escasso conhecimento político, histórico ou filosófico, sem projeto de nação – ainda que tenham medo do falastrão, ajoelham-se diante da “ameaça menor”. Seguem na esperança de poder domesticar o Monstro segundo seus interesses econômicos.

Mas como se domestica um semi-idiota irracional?

O poste líbero-fascista talvez não ceda a (todos) os desejos do mercado. E decerto vai ter dificuldades de reunir forças políticas para tratorar projetos tão impopulares. Não sabe dialogar, foge dos mínimos debates, desconhece economia e talvez sequer saiba interpretar um texto político adequadamente. Além de não ter o carisma dialógico vital para compor grupos (qualidade de que Lula dispunha com maestria).

Como se percebe desde que se tornou vidraça, Bolsonaro é pouco inteligente, porém é esperto. Mas sua esperteza tosca dificilmente lhe servirá para construir as alianças necessárias nos fisiológicos Parlamento e Judiciário, de modo a conseguir tocar com exequibilidade as antirreformas sociais que o capital exige. Não conseguirá, sobretudo porque se aceitar a pauta neoliberal da direita (digamos) “menos-violenta”, sua débil popularidade sustentada por boataria, moralismo barato e mensagens falsas tombará em meses ao nível de um collorido “impeachment”.

Assim como cresceu na boca do povo sustentado por castelos de papel e mentiras, é bom já ir se acostumando: em semanas, talvez meses, cai. Aliás, com os discursos ameaçadores às próprias instituições que o sustentam (o STF e a mídia, sobretudo), já começa a fraquejar.

No mesmo palco da tragédia, os direitistas neoliberais que se achavam – ou vendiam – como “racionais”, postam-se ali, bem ao lado do neonazismo baba-milico e da violência de milícias que assombram as ruas. Explicitam assim, uns aos outros e ao mundo, que a burguesia brasileira não passa de gente racista, violenta, de estúpidos cuja busca existencial é crescer seu lucro mesquinho a qualquer custo e por mais desumano ou antiético que seja o “preço”.

O subgolpe de 2016: capítulo do golpe de 1964

As estruturas ditatoriais instauradas nos anos 1960 no Brasil nunca foram sequer tocadas e subterraneamente ainda controlam com mão-forte o poder – tese que desde há muito defende o grande marxista uspiano Paulo Arantes (e em se falando de USP, que não se confunda marxologia com marxismo).

Veja-se a mão-dura castrense por exemplo no episódio vergonhoso da absolvição do torturador B. Ustra. Ou mesmo nos meandros do golpe de 2016, que contou com a legalidade de um Parlamento e Judiciário guiados por interesses e privilégios vergonhosos. Além da sempre servil grande mídia das concessões engessadas e antidemocráticas: Globo-Estado e cia.

O liberalismo puro, ou antes a libertinagem econômica acabou-se, definitivamente, enquanto projeto eleitoral viável, a partir da experiência antineoliberal dos governos reformistas que ascendem pelo mundo nos anos 2000. Agora é organização popular em prol da real democracia do comum, ou a barbárie.

No Brasil, como sempre, caminhamos pouco, lentamente, e talvez regridamos agora meio-século. Foi grande erro do lulismo o não enfrentamento do problema da mídia, a desconsideração de sua gravidade, da potência que nossa imprensa tem de ser suja (como hoje vemos na dimensão da fraude eleitoral, com “notícias” tendenciosas que abastecem as ingovernáveis redes sociais).

E se foram inúmeros os acertos do petismo – dentre as possibilidades da “realpolitik”, como até os principistas começam a aceitar –, governando um executivo amarrado por instituições viciadas, enferrujadas (o discurso do mensalão começa em 2004), foi porém falta de visão política a criação de uma nova classe média trabalhadora urbana, sem um paralelo impulso à formação crítica (notadamente no Sul/SE do país); uma classe que em peso joga contra si: conservadora, consumista, com valores estreitos, elitistas, eurocêntricos, o que em boa medida se deve ao foco dos neodesenvolvimentistas em desenvolver o poder aquisitivo, em vez de priorizar a participação cidadã. Além disto, o investimento educacional petista foi muito permissivo com os interesses privados (apesar do simultâneo investimento em novas universidades públicas e críticas, há que se notar).

Um golpe no golpe

O TSE, como toda a falida instituição Judiciária e Parlamentar brasileira, não merece confiança. Chegou ao clímax da desonestidade ao proibir Haddad de expor na tevê o (criminoso) apoio do verme à tortura. E não deve ter mesmo coragem de fazer nada contra as expostas trapaças eleitorais gravíssimas e multiplamente qualificadas. Ainda que acovardados, os meritíssimos juízes e nobres deputados tendem a se calar, para não passarem mais vergonha, frente ao descalabro do poste neoliberal de matiz fascista que se encaminha ao poder.

Fato temerário que mostra a submissão do Judiciário aos militares foi a nomeação de um general (não do “golpe”, mas do “movimento de 1964” segundo Toffoli, o Pusilânime) ao gabinete do STF. O gesto visa supostamente evitar que espiões tenham acesso às maracutaias desta apodrecida instituição; mas como é óbvio se deve ao acovardamento do Judiciário diante de seus tutores, com quem aliás mantêm complicados rabos-presos: as Forças Armadas.

E, inclusive, estando tão esgarçada a Caixa de Pandora fascista e tão expostas as fraudes eleitorais com que ilegalmente se está erguendo um louco ao poder, o cenário aponta a possibilidade de os militares por fim darem o golpe final (chutando os demais golpistas).

Assim, tomariam somente para si o protagonismo do subgolpe de 2016 – calando os congressistas desse grande “centrão” que compõe o nosso sertão legislativo. E humilhando de passagem os frouxos honoráveis do STF e demais “instâncias” (mais preocupados com suas bolsas-moradia, bolsas-de-estudos pra filho de juiz, pensão-eterna pras filhas solteiras, bolsas-restaurante e demais privilégios obscenos que nos levam alguns bilhões de reais em impostos a cada ano).

Brasil: semi-nação desgraçada por uma elite torpe

Nossa semi-nação caiopradiana continua a mesma de há séculos. O Brasil (re)afunda no cenário geopolítico mundial e – junto a outras semiperiferias sujeitadas a golpes mundo afora – perde espaço vital de respiro. Respiro que poderia trazer alguma autonomia no sistema internacional de poder, neste interessante movimento de reorganização da ordem geopolítica mundial.

Tal processo, antes capitaneado pelos BRICS, está agora reduzido ao eixo sino-russo, já que Brasil, Índia e África do Sul (curiosa e simultaneamente!) sofreram golpes pró-neoliberais. Todos eles devidamente incitados a partir de acusações da dita “mídia livre” por suposta corrupção (como aqui, jamais foi comprovada) por parte dos governos populares-reformistas.

Unidade socialista e hegemonia (ao menos) no campo das ideias

Mas há algo positivo a se comemorar: a crescente mobilização popular civilizatória e unida, o diálogo interno entre as forças progressistas que voltam firmes às ruas, como se vê nas manifestações, panfletagens voluntárias e diversas atividades organizadas vivamente por ativistas de vários naipes antineoliberais. Gente por vezes há tempos desmobilizada, que “acordou” e se junta aos (sempre) mobilizados movimentos sociais, contra a iminência da guerra civil que começa a ser desatada, como anunciam os espancamentos de militantes sociais, o assassinato de travesti a gritos de Bolsonazo, e mesmo o simbolismo das suásticas pichadas à porta de estudantes estrangeiros do CRUSP – outrora centro de resistência antifascista que agora parece ter-se deixado infiltrar.

Neoliberalismo derrotado: ainda que não admita

O neoliberalismo (e o próprio capitalismo em médio prazo) foi derrotado, embora talvez tarde muito tempo para que o vejamos tombar, e ainda que essa queda nos possa ser muito desgastante.

Mas enfim, como sabia Antonio Candido: o socialismo triunfou. Triunfou nas ideias, na conquista se não de todos os direitos humanos fundamentais, ao menos na conquista da hegemonia de um discurso democrático social mínimo que paulatinamente se perfaz em políticas sociais, em subversões ao sistema podre.

Triunfou na efetiva conscientização da população de que “existem” direitos sociais, sim, e que são direitos “sempre”: independente de governos. Ainda que a confusão patrocinada pelos conservadores mantenha grande parte da população sem saber quais grupos políticos representam seus anseios.

O pensamento social, o planejamento democrático, o ideário utópico do comum triunfou, apesar de não termos ainda encontrado o modo de vencer definitivamente o discurso eleitoreiro da grande mídia, que amplia na voz de canalhas “projetos sociais” tão sedutores como falsos (vide o “novo bolsa família” bolsonazista, ou suas propostas para “resolver” a segurança pública armando uma guerra interna, ou sua delicada educação “à distância” até para crianças pequenas).

Mesmo com tudo isso, notamos que o discurso dos reacionários, hoje em dia, “tem” que ser social. Já não se fazem discursos como antigamente, aristocráticos ou elitistas “puros”; e até mesmo o discurso racista, machista e homofóbico procura se esconder: se não monstros não se elegem mais.

Há valores mínimos já arraigados em nossa cultura como um todo. Cada cidadão, por mais humilde que seja, por mais que não tenha tido a oportunidade de desfrutar de uma educação formal e que afinal tenha sido abduzido por uma igreja-universal da vida, tem hoje uma noção de seus mínimos direitos enquanto ser humano. E, aliás, tem normalmente uma noção mais profunda de “direitos” de que as propostas de um STF, uma OTAN, ou mesmo uma ONU.

Conquistas do ideário e sangue socialista

Esta consciência popular, ao lado da jurisprudência internacional favorável a tais direitos fundamentais, foram conquistas arrancadas a fórceps dos bolsos do capital pelos lutadores do campo socialista.

O socialismo, no debate de ideias e na sua práxis emancipatória efetiva (movimentos sociais extraparlamentares como o MST, o MTST, a Via Campesina) faz hoje com que o liberalismo pareça uma crença tão arcaica, tão obviamente simplória quanto a crendice em ídolos de pedra, ou em deuses punitivos, moralistas, violentos e anticarnais: como a de certo cristianismo decaído que perambula por alguns lares brasileiros, perigosamente manchado com o ódio nazista.


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