O Sul do Brasil como “enclave” na poesia de Marcelo Labes

Em novo texto, Tomaz Amorim escreve: “A caravana de Lula pelo Sul foi alvo de atentados violentos. Poucas semanas antes, um livro de poesia retratava a difícil relação do Sul com o resto do país e as possibilidades de deslocamento histórico e simbólico entre eles”.

Fotos: Divulgação

O poeta Marcelo Labes nasceu em Blumenau em 1984, publicou diversos livros de poesia (“Falações”, “Porque sim não é resposta”, “O filho da empregada” e “Trapaça”) e mais recentemente o “Enclave” pela Editora Patuá. Na última página dos poemas, uma definição de dicionário do termo que dá título ao livro e que é a metáfora principal sobre a região geográfica e simbólica ao redor do qual foram compostos os poemas, o Sul do Brasil:

enclave sub. masc. Que se localiza dentro dos limites do outro território; região, território, terreno, reduto localizado completamente dentro das limitações de outro território; zona de conforto & nostalgia; território à sombra de um país fantasma, há muito inexistente”.

Se a poesia de Labes tem relevância por conta própria na cena contemporânea brasileira, o tema deste livro – a princípio ligado à nostalgia típica de sua poesia, especialmente no último livro, “Trapaça” – ganha uma relevância política mais ampla dado o contexto político do país. Sul do Brasil em que a caravana do ex-presidente Lula foi hostilizada até o ponto de sofrer um atentado com armas de fogo e tentativa de homicídio. Se é verdade que a popularidade dos políticos varia, como é natural, de região para região, em nenhuma outra se atentou contra a vida de um ex-presidente ou de um candidato à presidência da república. Este acontecimento entra na longa série de acontecimentos e sentimentos que apontam um certo descompasso da região, e sua eterna ameaça de separação, com o resto do país. Descompasso esse que os trinta e cinco poemas do livro de Labes tentam identificar a partir da origem e de seus efeitos no presente. Como entrar e sair do enclave? No vigésimo sexto poema, o passado mais sombrio alemão é ligado num curto circuito aos limites da democracia no presente brasileiro, tudo visto a partir do Sul:

“atlântida desafundada

pasárgada para os desavisados

europa transcontinental

zona schengen prolongada

deleite de ruralistas

tratantes canibalistas

comprovação empírica

dos terraplanistas

o |enclave| é um paraíso

a céu aberto ou um esgoto

não é possível decidir

sem remeter

ao reich e/ou à

república de curitiba”

De uma perspectiva lírica, misturando relatos históricos com lembranças pessoais, a poesia de Marcelo Labes está na ordem do dia para compreender não apenas a construção da auto-imagem de certas partes do Brasil. Com ironia crítica e alguma melancolia, o eu-lírico vai procurando outros modos de pertencimento que não sejam os do bairrismo, do nacionalismo e da xenofobia – “é preciso lutar contra o ostracismo”. O livro faz o movimento duplo e desigual de, primeiro, revelar um cenário paralisado pelo passado e seu peso de “nomes como sombras que assombram como assombros ancestrais”; depois, num misto de esperança e descrença, de propor uma saída que não precisa ser literal, a imigração, mas de perspectiva. Não se trata de um retorno ao nacionalismo, abrir mão da própria história para se tornar “finalmente” brasileiro como os outros. Mesmo porque essa nacionalização sempre se deu no Brasil através da violência física e simbólica mais brutal, da proibição e do apagamento de línguas, trajetórias, culturas em prol de uma geleia geral que não existia e que ainda se sustenta muito mal – às vezes na grandeza da música popular, às vezes na falsidade da camisa da seleção. A poesia de Labes não propõe abandonar a Alemanha e a Itália que já não existem para os que saíram delas, mas propõe um exercício de deslocamento, um acordo de paz com o fato de ser estrangeiro na própria terra – situação específica dos colonos europeus, mas também mais geral de brasileiros e de país pós-coloniais em geral.

A história do Brasil é a história dos apagamentos das origens, de ameríndios, de africanos, de árabes, de asiáticos, mas também, como o livro revela, de europeus com “origens famintas / de terras desconhecidas”. Um Oktoberfest é muito pouco para se chamar de cultura viva, de berço cultural, de referência de cosmovisão. “Enclave” reconhece isso e sua revelação vem com uma dor profunda pela miragem despedaçada, não tem nenhuma relação com um prazer sádico de quem trai o próprio povo. Há um amor pelas possibilidades de ser que o apego ao passado apodrecido e os limites visuais dos morros da região não permitem: “quanto mais profundo / o vale, maior a vontade / de partir”. O décimo nono poema é central e o retrato mais bem acabado das contradições da região:

“este |enclave| dentro do território brasileiro

é exclave de outro país estrangeiro

existe apenas em retrato antigo

pré-século XX pré-armistício

daguerreótipo de rosto morto

farda manchada pelo próprio sangue

e pelas tripas do inimigo

bendito, bendito seja o país primeiro

(a pátria, a heimat)

que chafurdou o pé na merda

vivenciou as grandes guerras

e não se deu por vencido”

A relação com o país é tensa porque a relação consigo própria é precária. Avançar do passado, mas para onde, em um país como o Brasil? Daí a posição contraditória de não sentir-se parte mas, como os poemas de Labes lembram, desejar influenciar profundamente: “o |enclave| apoia e sustenta o golpe / na república federativa ali ao lado”.

Todo o livro tem um tom de “o rei está nu”, de buscar revelar uma obviedade histórica – “Minas não há mais”, como disse Drummond – na qual a ideologia local ainda acredita. Já o primeiro poema lembra, por exemplo, que os rios Weser, Ems e Elba desaguam no Mar do Norte alemão, enquanto o Itajaí-Açú, de nome tupi em território xokleng, passa por aqui mesmo, ainda que não seja notado. O Pessoa já lembrava que “O Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”. No terceiro poema, músicas populares brasileiras e europeias são antepostas ironicamente, com vantagem para as primeiras. Mas não se trata de vantagem formal, a bossa e o samba não são formas musicais superiores em si, mas são superiores no contexto do “enclave” e das pessoas que dançam por lá. A polka não é ruim porque é polka ou porque é polonesa ou porque não é brasileira: é ruim porque não é dançada hoje, porque não se relaciona com o presente, porque é dançada em um passado que já sofre “de artrose”. O poema não critica a conservação da tradição, mas a ausência de sua atualização no tempo e espaço presentes, fatal para qualquer tradição.

Nem tradicional, porque estancado, mas também não completamente moderno. A impressão que se dá a partir da retração dos poemas sobre a modernidade industrial tipicamente alemã instaurada no Sul é de uma modernidade mofada. As fábricas reluzem produzindo os volkswagens, mas buscam construir uma sociedade voltada para o passado e para fora. Os trabalhadores das fábricas têm que ser “imigrantes”, tanto porque são baratos, mas também porque não são brasileiros (e os brasileiros do “enclave” tanto se admiram com eles, como os invejam). O lado sombrio do moderno fica evidente na fábrica alegórica de Labes sobre a qual estão suspensos o “Trabalhar liberta” nazista, mas também o “Deixai toda esperança, ó vós que entrais” do Inferno de Dante. Os dois infernos, alemão e italiano, reproduzidos na modernidade ítalo-alemã do Sul do Brasil.

Do ponto de vista formal, o labutar poético de Labes, sua lábia, ironicamente é influenciado pela tradição protestante mais alemã. Sua poesia tem uma economia e justeza de palavras, um comedimento, um respeito ao ritmo e rimas discretas, mas bem marcadas, como nos versos do décimo terceiro poema:

“sarney tivesse controlado a inflação

não teria parado a indústria nacional

veja-se a vergonha vejam-se os filhos

desta terra tradicional de braços cruzados

acabaram-se os cruzados acabaram-se

parados todos parados inflamaram-se

e o |enclave| desabou à multidão”.

Formalmente, o “Enclave” já performa sua proposta política. O tom luterano virado contra si mesmo e propondo uma abertura, uma descoberta não colonial do Brasil pelos colonos, uma autodescoberta como Brasil, possível apenas em um deslocar-se de si. A poesia de Marcelo Labes é sulista e brasileira, fala de lá para fora, mas traz também este fora para dentro do enclave. Tudo se desloca e nisso se relocaliza, se revive. Um poema fala sobre as gerações anteriores que foram plantadas nesta terra e que ainda não “chegaram a brotar”. O eu-lírico mantém a esperança de que “nesta terra se plantando tudo dá”, mas qualquer agricultor sabe que a terra cansada precisa ser remexida, arejada. A tarefa é se estranhar, revelar os enclaves dentro dos enclaves, fugir para fora, mas também para dentro, estabelecer a quinta coluna dentro da língua e da política. Em outras palavras, para permanecer é preciso sair e deixar as caravanas estrangeiras entrarem. Assim propõe o belo poema em prosa a Luiza Melo, mas também ao leitor:

“Devemos ir pra longe porque quanto mais longe menos aparente fica a nossa origem menos frias as relações menos conturbada a memória quanto mais longe menos difícil relacionar-se menos insone fica a noite menos triste fica a chuva”.

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Tomaz Amorim Izabel

Graduado e mestre em Estudos Literários pela Unicamp e é doutorando na mesma área na USP. É militante da UNEAfro Brasil. Além de crítica cultural, também escreve poesia [tomazizabel.blogspot.com] e coedita o blog Ponto Virgulina de traduções literárias. Publicou traduções para o português de Franz Kafka e Walt Whitman.