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17 de outubro de 2018, 16h24

O voto em Bolsonaro é contra o PT, mas é, também, em favor de Temer

Todos acreditam que estão votando em Bolsonaro para se vingar do PT e dos petistas sem pensar nas consequências econômicas ou políticas. O importante é vencer quem foram ensinados a odiar

Reprodução

Sabe o que é curioso em tudo isso? Lula foi preso sem que pudesse provar nada contra ele para que, assim, não pudesse disputar o pleito à presidência da República. A direita é denunciada por racismo, homofobia, induz os seus eleitores a praticarem um crime eleitoral (filmar as urnas) e nada acontece. Mas é a direita que acusa o processo eleitoral de fraude. Não era para ser a esquerda que deveria denunciar essas eleições como uma grande farsa? Por que a esquerda acredita mais que a direita no processo democrático que se mostra claramente contra ela?

Na verdade o que acontece é que a direita adotou um método que pertenceu à esquerda por anos: o discurso revoltado. As esquerdas que, por muitos anos tinham a posse desse tipo de estética, decidiram, em algum momento da história recente, abandoná-la. Talvez por causa do politicamente correto…

Outro fator são as fake news. Contudo, é um absurdo alguém querer punir as pessoas por mentirem. Não é proibido mentir. Se um jornal promover a mentira, aí sim deveria ser punido, mas um indivíduo não. Sem dúvida, caso atinja moralmente uma pessoa, sua privacidade, existem procedimentos legais para isso. Mas, enfim, mentir também faz parte da política. “Poder-se-ia mesmo dizer”, como lembra o semiolinguista Patrick Charaudeau, “com algum cinismo que o político não tem que dizer a verdade, mas parecer dizer a verdade, como pregava tanto Maquiavel – para quem o Príncipe deve ser um grande ‘simulador e dissimulador’”.1

Outra questão curiosa é a esquerda continuar usando a mídia que a detonou para legitimar os seus argumentos, enquanto que a direita, que teve grande ajuda da mídia na destruição da imagem de Lula e em resumir política a corrupção, hoje rejeita a imprensa convencional e se alimenta das versões da realidade que inventa. Na maioria das vezes, os eleitores do candidato do PSL acreditam que tudo que vem de fora desse círculo não passa de enganação. A esquerda tem suas mídias, mas os que se dizem votar no Haddad compartilham em sua maioria notícias do Globo, Folha de São Paulo, UOL etc.. Já os que dizem votar em Bolsonaro replicam vídeos e memes produzidos pelo seu próprio círculo.

Outro fenômeno que deve ser pensado é que seria muito mais fácil ter uma ditadura se o PT (sendo esquerda de fato) ganhasse as eleições que se Bolsonaro chegasse ao cargo de presidente. Este, ganhando democraticamente, daria seguimento ao projeto de Temer que agrada imensamente ao mercado. Inclusive, foi por isso que Marun, braço direito de Temer, declarou voto em Bolsonaro, por “vários aspectos de sinergia conosco, com relação ao que é pleiteado pelo governo [Temer]”, disse o político vendido para o mercado. A vitória do PT não agrada a ninguém que controla o país e, por isso, fariam de tudo para tirá-lo, inclusive, convocar militares.

Aliás, com uma imensa maioria o elegendo, sem propor nada que traga alguma benesse social, muito pelo contrário, já que é bem claro em suas propostas conservadoras, por que seria viável uma ditadura? Políticos fascistas ganharam em vários países europeus e não implantaram nenhuma ditadura. E as duas ditaduras que existiram por aqui foram provenientes de golpes e não das urnas. Além disso, a esquerda não está no poder e não existe nenhuma “ameaça” internacional que possa dar força a essa ideologia.

O objetivo é tocar o projeto de Temer e o PT não é capaz de fazer isso. As elites – a imprensa, os empresários, os militares – não querem um Estado de bem-estar social. Caso contrário, não haveria a necessidade do golpe em 2016. O acordo nacional, “com o supremo e tudo”, precisa continuar e Bolsonaro é o único candidato que se dispõe a isso e, repito, sem levar ninguém enganado.

Então o eleitor de Bolsonaro vota nele porque gosta do governo Temer? É claro que não. O sistema (o Judiciário, o Congresso e as corporações midiáticas) preservou a imagem de Temer como um indivíduo a ser odiado e relacionado ao PT. Todos acreditam que estão votando em Bolsonaro para se vingar do PT e dos petistas sem pensar nas consequências econômicas ou políticas. O importante é vencer quem foram ensinados a odiar. Entretanto, não sabem que estão votando no projeto econômico aprovado e defendido por Temer desde 2014, o qual tirou Dilma do poder e afundou o Brasil em sua mais grave crise econômica. Estão cegos pelo ódio, mas será tarde demais para perceberem isto?

1 CHARAUDEAU, Patrick. Discurso político. Trad: Fabiana Komesu e Dilson Ferreira da Cruz. São Paulo: Contexto, 2006. p. 106.


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