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30 de janeiro de 2019, 19h58

Os herdeiros de Pilatos: do Cristo torturado ao cristão torturador

Podemos pensar na possibilidade do cristão estar do lado do torturador e não do torturado. Muitos deles, são mais seguidores de Pilatos que de Cristo, pois preferem estar do lado daquele tortura, jamais do que sofre

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Embora seja uma questão complicada para muitos, ou até mesmo contraditória, não é tão difícil de entender porque é que um cristão seria a favor da tortura, ou mesmo da morte de outros.

Primeiro que o sacrifício, a morte cerimonial, é a base das primeiras religiões do mundo. De acordo com Barbara Ehrenreich, a morte ritualizada foi “provavelmente a forma que os seres humanos tinham de se aproximar do transcendental”.[1]

Por outro lado, a morte na cultura judaica nunca foi um problema, já que toda vez que o mundo ordenado por Yahweh entrava em caos, este não pensava duas vezes em aniquilar a humanidade (ou parte dela). E, ainda assim, os seres humanos que sobreviviam continuavam a ter fé Nele, isto porque, cabe lembrar, Yahweh foi o primeiro deus que não era abandonado em caso de derrota militar ou catástrofe. Outros povos do crisol Sírio-palestino não titubeavam em abandonar o seu deus tutelar.[2]

Em Romanos 1:32, Paulo lembra que os homossexuais são dignos de morte de acordo com o juízo de Deus. Mas essa ainda não é a questão que trago para a reflexão. O cristianismo, os mandamentos de Cristo, são abertos para inúmeras interpretações, inclusive é possível defender as minorias já que a seita de Jesus era composta por elas. Contudo, uma interpretação sobre a dor durou por muito tempo na mentalidade do mundo Ocidental.

A Idade Média banalizou a dor. O sacrifício de Cristo, todo o seu sofrimento para salvar a humanidade, fez da dor um caminho para a verdade. Para os torturadores da Inquisição, a tortura não era um ato de violência, ou uma maldade. Acreditava-se que se uma pessoa sofresse como Jesus sofreu seria impossível dela mentir. A dor de Cristo revelou a verdade. Foi sofrendo que ele morreu e três dias depois deu-se o milagre que fundamenta o cristianismo: a Ressurreição.

Torturar um infiel era uma maneira de levá-lo a redenção, de confessar que pecou e que jamais irá pecar. Torturar-se a si mesmo era uma forma de se aproximar de Cristo. O que explica o autoflagelo. Mentir sob tortura, sofrendo como Cristo seria impossível.

Sabemos a tortura foi usada durante o período militar para extrair a “verdade” que os militares queriam, inclusive torturavam crianças na frente dos pais para isso (uma espécie de dor mais sofisticada). E o mesmo fazem os soldados americanos no Oriente Médio, o que não é novidade para ninguém.

A questão é que por longos anos a Igreja interpretou a dor da seguinte forma, coloca Roselyne Rey: “aprender a suportar a dor como um dom de Deus e um sacrifício que aproxima o fiel do Cristo, como um meio de redenção”.[3]

Era uma maneira de “oferecer seu sofrimento a Deus e de lhe provar seu amor”. É muito curiosa essa ideia do “machão” que não sente dor. Na verdade a origem do não sentir dor não tem a ver com a virilidade, mas em ser um bom fiel. A história do duque de Guise, Henri le Balafré, é ilustrativa. Ele deixou que lhe retirassem uma lança que lhe atravessara o rosto de um lado ao outro, reagindo com um único “Ah!” de sofrimento.

Enfim, um cristão defender a tortura não é algo incompatível, pelo contrário, faz um enorme sentido. Por mais dessacralizado que o mundo ocidental seja hoje, essa questão é uma das heranças deixada pela fé, que ainda habita a mentalidade de muitos que se dizem temente à Deus.

Existe até mesmo uma concepção teológica que afirma que Jesus deveria sofrer, ser torturado, pois foi uma determinação de Deus. Ou seja, sua tortura foi a mando de seu pai. É como escreveu de forma radical Mikhail Bakhtin: “…um Deus de amor, após ter atormentado a existência de alguns bilhões de pobres seres humanos e tê-los condenado a um eterno inferno, sentiu piedade e para salvá-los, para reconciliar seu amor eterno e divino com sua cólera eterna e divina, sempre ávida de vítimas e de sangue, ele enviou ao mundo, como uma vítima expiatória, seu filho único, a fim de que ele fosse morto pelos homens”.

Deste modo, podemos pensar na possibilidade do cristão estar do lado do torturador e não do torturado. Muitos deles, são mais seguidores de Pilatos que de Cristo, pois preferem estar do lado daquele tortura, jamais do que sofre.

 

[1] EHRENREICH, Barbara. Ritos de sangue: um estudo sobre as origens da guerra. Rio de Janeiro: Record, 2000. p. 32

[2] COHN, N. Cosmos, caos e o mundo que virá. São Paulo: Cia das Letras, 1996. p. 191.

[3] ROSELYNE, R. A história da dor. São Paulo: Escuta, 2012. P. 72.


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