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19 de janeiro de 2019, 15h01

“Paz sem voz não é paz. É medo” (Marcelo Yuka)

Em novo artigo, Monica Benicio diz: “O silenciamento nos oprime, nos angustia. É uma forma de morte. A dor é uma possibilidade de romper o silêncio. Não é algo fácil e não sei se estamos falando de coragem”

Foto: Arquivo Pessoal

A gente leva muito tempo para compreender quem somos e qual o nosso lugar no mundo. Antes de Cristo, a humanidade já refletia sobre a existência, quem é o “humano”, qual a nossa natureza, de onde viemos e para onde vamos.

A evolução da nossa espécie trouxe inovações tecnológicas que nos permitem ir além do imaginável, hoje não conseguimos pensar sobre o limite do conhecimento. Talvez seja infinito, nem a morte é finita. A morte finaliza a carne, a matéria. Entretanto, a memória, a contribuição em vida, essas, permanecem e são lidas de acordo com quem conta a história.

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A morte pressupõe o extermínio do corpo. O autor Achille Mbembe, filósofo camaronês, em seu livro “Necropolítica” argumenta que a expressão máxima de soberania está no poder e na capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer. Assim, matar ou viver são os limites da soberania e a soberania define a vida como manifestação de poder exercer o controle sobre a mortalidade.

Mbembe provavelmente não imaginava quão procedente é sua teoria aplicada ao contexto brasileiro. Nosso país valoriza pouco a vida em vida. Nossa busca constante por heróis e heroínas nos faz reconhecer os atributos feitos por aquela pessoa pós-morte. Da mesma maneira, a história contada sobre o Brasil é um folclore que pouco se conta sobre as vidas, as mortes, as dores, as lutas e as verdadeiras pessoas que constroem nosso país. Não digo dos nomes reconhecidos publicamente, digo daqueles que não estão escritos nos livros. A gente demora muito para olhar para o outro e o que é de nós sem o outro. O outro nos dá medo e, do medo, a vontade de exterminá-lo.

Hoje, podemos aceitar o que a soberania de Mbembe quer: nos silenciar, nos amedrontar. Diante disso, a soberania deles permanece decidindo quem morre e quem vive. Não há vida em silêncio. O silenciamento nos oprime, nos angustia. É uma forma de morte. A dor é uma possibilidade de romper o silêncio. Não é algo fácil e não sei se estamos falando de coragem. Muitas vezes a roda girou e a gente está dentro dela e nem nos deu tempo de fazer escolhas. Mas pare uns minutos. Feche os olhos. Sinta seu coração. Recorde a melhor lembrança. Sinta-a. É possível se multiplicar diante do contexto em que vivemos hoje? Não estou falando de sentir igual. Estou falando em multiplicar. Repassar. É possível com a mesma facilidade que você recordou a sua lembrança?

Se não é, precisamos abrir os olhos. Pois, “paz sem voz não é paz, é medo” (Marcelo Yuka) e o medo nos paralisa e pode ser uma forma de morte. “Então, com os olhos abertos, olhe ao seu lado e reconheça o outro e quem está com você. Não se trata de quem você escolheu para estar ao seu lado. E, sim, de quem está. Você não precisa estar sozinha e nem exercer soberania. Lado a lado podemos romper as barreiras do silêncio e construir novas pontes, não aceitando mais as coisas que não podemos mudar e, sim, mudando as coisas que não podemos aceitar (Angela Davis)”.

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