Bolsonaro pauta o gado: “crise de abastecimento” é a nova “fraude eleitoral”

Ignorante confesso em economia, Bolsonaro, que distrai a ala mais radical de apoiadores desde as eleições com o "kit gay" e a "mamadeira de piroca", atira no que vê e vai acertar o que não vê: a política neoliberal de Guedes levará o Brasil à miséria

Ignorante confesso em economia, Jair Bolsonaro (Sem partido) pode estar dando um tiro no pé ao impor a nova pauta aos apoiadores nas redes sociais e colocar a fracassada pauta econômica do governo no centro das discussões políticas.

Constrangido no cercadinho do Palácio da Alvorada ao ser deparado com o antigo discurso de fraude eleitoral, que gerou uma série de ataques a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Bolsonaro buscou na fatídica pasta comandada por Paulo Guedes um novo tema para distrair o gado, enquanto tenta passar mais alguns bois da boiada neoliberal no Congresso para manter sustentação mínima do sistema financeiro a seu mandato.

O bolsonarismo é assim. Precisa entreter com pautas ideológicas ou surreais a ala mais radical, enquanto distribui benesses àqueles que permitiram que a tartaruga subisse no poste – e agora têm duvida se a tiram ou não de lá.

Nesta quinta-feira (7), Bolsonaro resgatou uma antiga tática que ganhou notoriedade no termômetro do terro de Bush Junior nos Estados Unidos e apelou a uma inevitável “cirse de abastecimento” para provocar novo pânico na ala radical do eleitorado – enquanto 2 milhões de famílias brasileiras realmente passam fome ao serem jogadas de volta na extrema pobrema.

“Eu vou avisar um ano antes, fertilizantes: por questão de crise energética, a China começa a produzir menos fertilizantes. Já aumentou de preço, vai aumentar mais e vai faltar. A cada cinco pratos de comida no mundo, um sai do Brasil. Vamos ter problemas de abastecimento ano que vem”, declarou Bolsonaro, durante cerimônia no Palácio do Planalto, ligando a luz amarela do terrorismo da fome em um país que tem registrado latente do tema.

Com a inflação batendo os dois dígitos nos últimos doze meses no Brasil, Bolsonaro disse ainda que encomendou ao Itamaraty um “comparativo” de que a fome daqui é menor do que o que acontece lá fora.

“Pedi agora [para] uma pessoa nossa que trabalha nos Estados Unidos, Itamaraty, né, ir nos mercados –bem como alguns embaixadores da Europa também– mostrar o que está acontecendo. Lá não é apenas inflação, está havendo desabastecimento”.

Nos grupos de zap do presidente, a proliferação de discursos enfadonhos – como o de Eduardo Bolsonaro ao defender Guedes na tribuna da Câmara – proliferam como fogo morro acima e água morro abaixo. Mesmo sem o mínimo de sustentação e senso lógico.

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No entanto, Bolsonaro, que distrai a ala mais radical de apoiadores desde as eleições com o “kit gay” e a “mamadeira de piroca”, atira no que vê e vai acertar o que não vê.

Enquanto acumula fortuna em paraísos fiscais – em claro sinal a investidores para que não aportem o dinheiro em terras tupiniquins -, Guedes conscientemente uma política econômica neoliberal que vai aprofundar ainda mais o subemprego, a fome e a demolição do que resta da política de bem estar social.

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E quando há fome e a geladeira está vazia não há fake news e discurso de ódio que viralize.

Enquanto isso, aqueles que dependem de um governo solidário e humano buscam guarida onde sabem que podem comprovadamente encontrar. E para isso, basta o campo progressista fazer um exercício social de memória, lembrando um Brasil de poucos anos atrás.

Bolsonaro aposta na sua confinada ala da classe média – que, por enquanto, sente apenas sorrateiramente os efeitos da crise econômica – para manter o mínimo de votos necessários para ir ao segundo turno. Mas, diferentemente das propaladas fake news sobre “fraude eleitoral” e mamadeira de piroca, a fome, o desemprego e a crise que expõe milhões de brasileiros à miséria é real.

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Plinio Teodoro

Jornalista, editor de Política da Fórum, especialista em comunicação e relações humanas.

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