Plínio Teodoro

12 de dezembro de 2019, 15h19

Depois do petróleo, a água

O Brasil, além do pré-sal abundante, que desencadeou o processo que resultou no golpe parlamentar para que a Petrobras pudesse ser privatizada - como tem ocorrido -, possui cerca de 12% da água doce disponível no planeta

Protesto contra a privatização das águas (Rede Brasil Atual)

Em 2001, quando era correspondente do jornal O Estado de Minas no sul das alterosas investiguei um caso de exploração ilegal de águas minerais em São Lourenço, principal cidade do Circuito das Águas.

Ali, a Nestlé, após aquisição da Perrier – que por sua vez havia comprado ainda nos anos 80 a indústria municipal de águas, que fazia a gestão das fontes e do parque das águas, onde se concentram mais de 12 tipos de águas minerais -, mandava e desmandava.

Após a primeira reportagem, denunciando o esquema ilegal de extração e a transformação da riquíssima água mineral na marca “pure life”, que pode ser feita a partir de esgoto, recebi uma série de ameaças – uma delas feita diretamente ao departamento de publicidade do jornal, pedindo a minha cabeça.

A série de reportagens que se seguiu ganhou repercussão internacional. Fui, então, contatado por membros da Ong francesa Attac (Associação pela Taxação das Transações Financeiras para a Ajuda aos Cidadãos), que fizeram chegar até mim um documento oficial da Nestlé, divulgado entre “investidores”, de que o plano da transnacional seria dominar 96% do “mercado” das águas até o ano de 2020.

Passados 18 anos da primeira reportagem, o que vi nesta quarta-feira (11) no Congresso Nacional mostra que os planos da Nestlé seguem em marcha. E se depender do governo Jair Bolsonaro e do lobby que as transnacionais sustentam no parlamento brasileiro tende a ser cumprido na meta – ou quase.

A aprovação do Projeto de Lei 4162/2019, proposto pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, praticamente obriga o repasse da gestão das águas para a iniciativa privada e tem entre seus maiores apoiadores o senador tucano Tasso Jereissati (PSDB-CE) – o “senador Coca-Cola”, cuja família comanda a Calila Participações, única acionista brasileira da Solar, uma das 20 maiores fabricantes de Coca-Cola do mundo.

Em 2001, quando iniciei as investigações sobre a investida das transnacionais sobre o setor, ouvi de diversos especialistas que, depois do petróleo, a água seria o próximo bem a ser usado como álibi para o desencadeamento dos conflitos no planeta.

O Brasil, além do pré-sal abundante, que desencadeou o processo que resultou no golpe parlamentar para que a Petrobras pudesse ser privatizada – como tem ocorrido -, possui cerca de 12% da água doce disponível no planeta.

As ameaças que sofri em 2001, pelo visto, foram prenúncio dos tempos que hoje chegam. E pelo que temos visto, as transnacionais criaram uma nova maneira de travar essa guerra ao casar o fascismo com o ultraliberalismo travestido de um falso ambiente democrático.

As armas da mentira, como as usadas pelos lobistas para aprovar o PL da privatização das águas, ressoam nos meios de comunicação oficiais do neoliberalismo e acertam em cheio os direitos dos seres humanos, que viram alvos dos cães do sistema diante de qualquer reação.

Uma reação que ainda precisa de balas para assassinar aqueles que se revoltam contra a mercantilização do planeta. E que podem ser mortos de sede em poucos anos caso não tenham dinheiro para pagar pela água que está sendo controlada.

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