domingo, 20 set 2020
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Em editorial raivoso, O Globo defende pauta neoliberal de Guedes e “urgência da reforma administrativa”

O jornal O Globo publicou um editorial raivoso defendendo, sem citar diretamente o ministro Paulo Guedes, o projeto que levou à aliança do sistema financeiro e dos grupos transnacionais ao governo neofascista de Jair Bolsonaro. O artigo é publicado um dia depois de Paulo Guedes anunciar “debandada” em seu super ministério da Economia dos secretários de privatização, Salim Mattar, e desburocratização, Paulo Uebel, que alegaram que, em meio à pandemia que já matou mais de 100 mil pessoas no Brasil, as propostas neoliberais do governo não estão andando como gostariam.

No texto, O Globo pinça dados do Instituto Millenium, think tank neoliberal que tem Guedes como um de seus fundadores, para defender as políticas econômicas do governo e atacar o funcionalismo público, tratado pelo jornal da família Marinho como “o caráter perverso do nosso Estado”.

“O novo coronavírus tem exposto sem piedade as mazelas dos países por onde se alastra. Ora são deficiências no sistema de saúde, ora nas condições de habitação. Ora o nacionalismo tacanho, ora a falta de espírito coletivo e cidadania. Aqui a ignorância, ali o obscurantismo. No Brasil, além de tudo isso, a pandemia desnudou o caráter perverso do nosso Estado, uma máquina de gerar desigualdades que provê serviços precários a quem mais precisa”, diz o texto, sem citar que foi justamente em razão do Sistema Único de Saúde (SUS) e da rede de proteção do próprio Estado que impede uma tragédia ainda maior no país diante do coronavírus.

Em tom que mistura desfaçatez à insensibilidade diante do rastro de mortes deixados pelo coronavírus, O Globo diz que a pandemia despertou “uma espécie de ira santa contra os mecanismos que garantem o equilíbrio fiscal”.

“Foi pelos ares a ‘regra de ouro’, dispositivo constitucional que impede o governo de contrair dívidas para pagar despesas correntes. A Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) virou letra morta, descumprida por 14 estados sob o beneplácito do Supremo, que anulou os dois dispositivos que permitiriam reduzir o dispêndio com pessoal. Uma campanha reúne políticos, economistas e oportunistas de todo tipo em favor do relaxamento do teto de gastos”, diz o jornal, enfatizando a justificativa de Paulo Guedes para ameaçar com a “zona sombria do impeachment” Jair Bolsonaro diante da debandada do bonde neoliberal do governo.

“Em três décadas, o funcionalismo brasileiro cresceu de 5,1 milhão para 11,4 milhões (18% da população ativa, segundo estudo do Instituto Millenium)”, relata o jornal, utilizando os dados já utilizados pelo Jornal Nacional para atacar o funcionalismo público.

Integrantes do seleto grupo de bilionários do país, que viu sua fortuna crescer em meio a centena de milhar de mortes ocorridas no país, os irmãos Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto Marinho culpam o funcionalismo público pela desigualdade e dizem que o “país dos concurseiros” criou “uma elite aferrada a privilégios, incapaz de resistir ao apelo corporativo”. Os Marinhos acumularam fortuna superior a R$ 40 bilhões, segundo a Forbes, no comando de uma concessão pública.

Plinio Teodoro
Plinio Teodoro
Plínio Teodoro Jornalista, editor de Política da Fórum, especialista em comunicação e relações humanas.