Qual é a melhor tática na eleição para presidente da Câmara de deputados?

Valerio Arcary: “Se o PT hesitar por muito mais tempo em apoiar Marcelo Freixo estará jogando a favor de Ciro Gomes e contra a formação da Frente Única da esquerda”

As virtudes dos homens são semelhantes ao voo dos pássaros.

A ave que se habitua com a paisagem rasteira perde o gosto pela altura.

(Sabedoria popular indiana)

Marcelo Freixo é o melhor candidato que a esquerda poderia apresentar para a presidência da Câmara dos deputados. Por três razões. Primeiro, porque na eleição para este cargo não se trata da eleição do representante de uma bancada. O tamanho da bancada do PSol não é a questão. Trata-se de lançar um deputado que tenha, por sua trajetória, a autoridade política para se projetar, para dentro e fora da Câmara, como um freio, um contrapeso aos abusos de poder do governo Bolsonaro, e ao bloco que pretende lhe oferecer sustentação incondicional.

Freixo está ameaçado de morte há anos, antes e depois do assassinato de Marielle Franco. Ninguém na atual Câmara tem um estatuto sequer, remotamente, comparável ao de Freixo na luta pelas liberdades democráticas e civis que estão, gravemente, ameaçadas. Ele é um gigante moral diante do anão sinistro Rodrigo Maia.

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Segundo, porque é impossível formar um campo de oposição de esquerda com o PDT de Ciro Gomes. Ciro Gomes já deixou claro que não está disposto a lutar aliado ao PT, e sinalizou que irá manter uma posição construtiva, propositiva, circunstancial diante do governo Bolsonaro. Não se trata de uma avaliação de quais serão as bandeiras de esquerda que Ciro Gomes está disposto a defender. O problema é se Ciro Gomes e seu bloco estão ou não comprometidos a ser oposição consequente a Bolsonaro. E quem não for oposição ao governo Bolsonaro não tem futuro.

Terceiro, porque o apoio do PT a Freixo do PSol deixará o PCdoB, por enquanto, aliado ao PDT de Ciro Gomes e à articulação por ele liderada, diante de um dilema político incontornável.

O caminho sugerido por alguns petistas de apoiar uma candidatura do PCdoB contra Freixo é, além de precipitado, muito perigoso. Porque levará o PT a se curvar diante da articulação promovida por Ciro Gomes. Quando o que se trata, taticamente, é de pressionar o PCdoB a se separar de PDT e PSB.

Autoengano é a mais infantil forma de ilusão. É também a pior, porque é autoimposta. A esquerda parlamentar não tem chance alguma de ganhar a eleição para presidente da Câmara de Deputados. Simplesmente, não é possível. A atual composição da Câmara é a mais direitista desde o fim da ditadura. Mesmo considerando o número de desmiolados que existe no bloco de apoio a Bolsonaro, não é razoável pensar que irão se arriscar a perder esta posição estratégica de poder. Sendo assim, a tática deve estar orientada para a projeção de um campo de oposição de esquerda intransigente, irreconciliável com o governo Bolsonaro, sério e articulado.

Se o PT hesitar por muito mais tempo em apoiar Marcelo Freixo estará jogando a favor de Ciro Gomes e contra a formação da Frente Única da esquerda, que é necessária e possível. Portanto, contra si mesmo. Tiro no pé.

O PSol inicia este mandato com um movimento tático brilhante.

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Valerio Arcary

É professor titular do IFSP. Doutor em história pela USP, estudou na Universidade de Paris e Lisboa entre 1974/78, participou da revolução portuguesa, voltou ao Brasil e se uniu à Convergência Socialista, esteve presente na reconstrução da UNE em Salvador em 1979, na fundação do PT em 1980 e da CUT em 1983, sendo secretário-geral da CUT/São Paulo entre 1985/86. Atuou na Apeoesp entre 1983/90, foi membro da Executiva Nacional do PT entre 1989/92, e foi presidente nacional do PSTU entre 1993/98 e, desde 2016 é membro da Coordenação Nacional do MAIS/PSOL. É autor de O martelo da história, entre outros livros.

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