Raimundo Bonfim

06 de novembro de 2019, 17h19

As lutas da América do Sul precisam chegar ao Brasil: basta de Bolsonaro

Raimundo Bonfim: “Que a luta contra o neoliberalismo na América Latina nos inspire a sair às ruas para defender um outro projeto de país: soberano, justo, democrático e popular”

Protestos nas ruas do Chile - Foto: Nicolás Romero Moreno

É necessário e urgente que se organize em todo o continente uma ofensiva simultânea contra o neoliberalismo, o imperialismo e o conservadorismo.

A unidade e a articulação entre os partidos de esquerda, movimentos sociais, sindicais e populares e forças democráticas da América Latina são urgentes para construir a oposição ao neoliberalismo.

Os protestos que têm levado às ruas e às praças uma multidão no Chile e Equador, somados às vitórias de Alberto Fernández (Argentina) e Evo Morales (Bolívia), são a maior resistência e vitória do campo democrático e popular diante da ofensiva neoliberal dos últimos anos.

Esses levantes questionam as mazelas econômicas e sociais resultante do neoliberalismo e indicam que o povo está percebendo que a redução do papel do Estado, com as privatizações, é a causa do aumento da miséria, porque gera desemprego e absurdas tarifas de serviços essenciais, como transporte, água e energia.

Esse modelo tem contribuído para o aumento do custo de vida, desigualdade e pobreza e acaba com a ilusão criada a partir de suas promessas de crescimento econômico com geração de emprego, melhorando as condições de vida através da inclusão social.

Neste cenário, o povo começa a perceber que este caminho é inviável e, por isso, tem feito o combate nas ruas e nas urnas. Deram o recado: a riqueza dos recursos naturais tem que ser destinada ao povo.

No Brasil, desde 2016, as mesmas forças neoliberais estão no poder. Chegaram através de golpe, em total desrespeito às regras da democracia burguesa.

Estão aplicando um desmonte total do Estado, privatizando setores estratégicos para o desenvolvimento econômico e social, a exemplo do petróleo, minério, energia e água; reduzindo o orçamento social, retirando direitos e acabando com a rede de proteção social das camadas mais pobres da população.

Além dessas políticas, o que por si só já é uma tragédia, pois joga milhões de pessoas na miséria absoluta, desde primeiro de janeiro deste ano, estamos sob a batuta de um governo extremamente autoritário, conservador, fundamentalista e com forte viés fascista.

Enquanto a dupla Paulo Guedes e Rodrigo Maia cuida da agenda de reformas, aprovando tudo que o mercado propõe, vendendo o país como se fosse uma mercadoria, Bolsonaro e seus filhos diariamente atacam as liberdades democráticas e destroem a reputação de adversários e até mesmo de aliados. É o governo que estimula a destruição da Amazônia e não toma medidas para evitar a catástrofe ambiental no litoral nordestino.

Não bastasse o fechamento de conselhos de políticas públicas, desmantelamento de órgãos de formulação, o governo ataca diretamente os movimentos, ONGs, partidos de esquerda, além de estimular veladamente a violência e o assassinato de lideranças indígenas, quilombolas e de comunidades originárias.

Na semana passada, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, defendeu publicamente o retorno do Ato Institucional número 5 (AI-5), afirmando que caso a esquerda radicalize a oposição ao governo de seu pai, esse crime poderia ser reeditado. O AI-5 foi criado pelo regime militar em 1968 para fechar o Congresso e suspender garantias constitucionais, como o habeas corpus.

Em ato típico de governo autoritário, o presidente Jair Bolsonaro ordenou que o ministro da Justiça Sérgio Moro solicitasse que a Procuradoria-Geral da República investigasse as circunstâncias do depoimento dado à polícia pelo porteiro do Condomínio Vivendas da Barra, local em que mora o presidente e o principal suspeito de matar a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes, transformando Moro em advogado do presidente. Inaceitável.

E pasme! Ele mesmo afirmou ter confiscado provas que seriam   fundamentais para elucidar quem mandou matar Marielle. Subtrair provas é crime de obstrução à justiça, além de evidente reconhecimento do crime e demonstração de interesse pessoal no caso. Não resta dúvida quanto ao envolvimento da família Bolsonaro no assassinato de Marielle Franco.

O presidente faz declarações com palavrões de baixo nível, de forma destemperada e inadequada ao cargo, sem falar no acúmulo de situações de descontrole. Bolsonaro não reúne condições políticas, intelectuais e morais para exercer o cargo que ocupa.

Ele, sua família e seu partido estão atolados até a medula em casos de corrupção, envolvendo dinheiro do fundo partidário com candidaturas laranjas e disparo em massa de fake news durante a campanha eleitoral. Há também denúncia de enriquecimento ilícito de sua família e relação com grupos milicianos.

Neste cenário, a questão fundamental para o conjunto da esquerda brasileira é se vamos ficar apenas parabenizando e torcendo para o êxito desses movimentos de ruas e as vitórias eleitorais no continente, ou se aqui também seremos capazes de surfar nessa onda progressista e imprimir um vigoroso movimento de massas, com força para estancar o projeto neoliberal e derrubar este governo de extrema direita e autoritário, resultante de – repito – um golpe e fraude eleitoral.

É chegada a hora de esquerda e os movimentos sociais brasileiros radicalizarem a oposição. É preciso o mais rápido possível retomar o papel importante que tem as frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo. As frentes devem criar, junto com os partidos de oposição (em especial os de esquerda que têm caráter estratégico), um comando único, que terá a tarefa de organizar e mobilizar o povo para sacudir o país com grandes mobilizações de ruas.

Essa é a única condição para contermos o avanço da direita, do neoliberalismo, dos ataques as liberdades democráticas. Para tanto, não podemos alimentar a ilusão que o melhor momento para acumular força é durante o processo eleitoral, por mais importante que seja construir alianças do campo para disputar as eleições municipais de 2020. Só isso não basta. Precisamos alterar a correlação de forças, com forte organização, um amplo processo de formação e mobilização de massa.

Acredito que apenas a palavra de ordem “Fora Bolsonaro” não seja suficiente. É preciso envolver a classe trabalhadora que está preocupada com os problemas reais. A solução passa pela derrubada do governo atual.

Alguns pontos para essa nova etapa de luta política me parecem indispensáveis. Por exemplo, a anulação da sentença que condenou Lula, por não ter cometido crime e ser julgado por Sérgio Mouro, um juiz parcial e a serviço das forças golpistas; defender a perda do mandado de Eduardo Bolsonaro por ter cometido crime de atentado à Constituição Federal, ao defender a edição de um novo AI-5; conclusão da investigação do assassinato de Marielle Franco e punição para os executores e mandante do crime. Também devemos levantar a bandeira da revogação da PEC- 95, das reformas trabalhista e da previdência, num recado direto para o povo que estamos com ele na defesa do emprego, da aposentadoria, educação, saúde, moradia e terra.

Se o povo de Chile, Equador, Bolívia e Argentina têm motivos para se levantarem contra as mazelas econômicas e sociais provocadas pelo neoliberalismo, nós brasileiros temos muito mais, pois aqui, além das políticas neoliberais, estamos sendo governado por gente ligada ao crime organizado.

Defendo que as forças progressistas e de esquerda, as frentes e todos os movimentos sociais debatam a proposta de inserirmos no centro da luta o impeachment de Bolsonaro e eleições gerais já.

Que a luta contra o neoliberalismo na América Latina nos inspire a sair às ruas para defender um outro projeto de país: soberano, justo, democrático e popular. Basta de Bolsonaro. O momento é agora. Deixar para depois pode ser tarde demais.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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