Raimundo Bonfim

20 de maio de 2020, 22h50

Coronavírus expõe extrema desigualdade social no Brasil

Raimundo Bonfim, em novo artigo: “A pandemia mostra que a maior transmissão e morte pela Covid-19 está ligada à questão social e racial”

Foto: José Cruz/Agência Brasil

Desde que o primeiro caso de coronavírus foi notificado oficialmente no Brasil, no dia 26 de fevereiro, temos assistido indignados à desumanidade e à crueldade de um governo a serviço dos poderosos, no enfrentamento dos desafios de combate às crises sanitária, econômica e social que foram agravadas com a chegada da pandemia no nosso país.

Para as finanças nacionais, que já caminhavam em marcha à ré, acompanhadas da vergonhosa marca de quase 13 milhões de desempregados, o coronavírus expôsuma politica econômica neoliberal que tem aumentado a cruel desigualdade social no Brasil.

Enquanto a pandemia do coronavírus assolava a China, no final do ano passado e início deste ano, passando pela Europa e Estados Unidos e, enquanto exemplos, principalmente vindos da China, já nos alertavam para o que teríamos que enfrentar, o presidente Bolsonaro tratava o problema como “gripezinha”.

Nem o erro de alguns países em terem resistido a orientar, logo no início, suas populações para a necessidade fundamental da quarentena – o que contribuiu para milhares de mortes – foi suficiente para o governo brasileiro se adiantar ao caos que vivemos hoje.

Nada disso foi capaz de despertar em Bolsonaro a necessidade da adoção de medidas urgentes voltadas, principalmente, para a população em situação de vulnerabilidade. Ao contrário do que orientaram as mais conceituadas autoridades científicas mundiais e brasileiras e a própria Organização Mundial da Saúde (OMS), como o isolamento social e até lockdown (isolamento ou confinamento total em determinada cidade ou região), dependendo do cenário do avanço da contaminação, o chefe de Estado brasileiro fez chacota com a situação dramática que o mundo estava vivendo.

Se já pagávamos um preço altíssimo por termos na presidência da República alguém que representa os interesses dos poderosos empresários, banqueiros, industriais e todo o bando de sugadores da Nação, agora, o sofrimento do povo brasileiro se multiplicou: até a última terça-feira (19) foram registradas 17.509 mortes provocadas pela Covid-19 e 262.545 casos confirmados da doença em todo o país.

Com esses números, o Brasil se torna o terceiro país no mundo com o maior número de casos confirmados da doença, atrás dos Estados Unidos e da Rússia. Essa tragédia anunciada – e que poderia ter sido mitigada -, escancara a extrema desigualdade social do Brasil: são 38,5 milhões de trabalhadores informais, 13,5 milhões na linha da extrema pobreza.

Na contramão da extrema pobreza, temos seis pessoas detendo a mesma riqueza que 100 milhões de pessoas, o que corresponde quase à metade da população do país, e os banqueiros insaciáveis cobrando juros escorchantes e seguindo à risca o lema “dinheiro acima de tudo e de todos”.

Só em 2019, o banco Santander lucrou 11,181 bilhões de reais, o Bradesco, 22,6 bilhões, e o Itaú, 26, 583 bilhões, só para citar os três maiores. Juntos faturaram 63 bilhões de reais, em um Brasil que ostenta a triste marca de 13 milhões de pessoas passando fome. Esse é o retrato fiel do capitalismo voraz e canibal adotado no nosso país.

Antes da chegada da pandemia no Brasil, os movimentos populares já alertavam as autoridades sobre o cenário desastroso que o coronavírus causaria quando adentrasse as favelas, os cortiços, as ocupações e as periferias do país, com perdas de milhares de vidas.

A Central de Movimentos Populares já chamava a atenção dos governos e cobrava a adoção de medidas urgentes de proteção à população em situação de vulnerabilidade, mas nenhuma medida eficaz foi adotada. Não foi preciso muito tempo para a comprovação do que diziam os movimentos populares.

Estudo recente feito pela prefeitura de São Paulo expõe, em número de mortes, a desigualdade social no Brasil: os 20 distritos da cidade de São Paulo que tiveram entre 50 e 150 mortes por Covid-19, entre confirmadas ou suspeitas, têm grande concentração de habitações precárias. Os bairros com maior número de mortes por coronavírus em São Paulo são os que concentram mais favelas, cortiços e conjuntos e núcleos habitacionais.

A transmissão do coronavírus acontece entre todas as classes sociais, mas entre a população que vive em moradias precárias e periferias o número de mortes é infinitamente maior do que os que moram em mansões luxuosas. E, quando adoecem e se faz necessário a realização de testes e leitos, mais uma vez a injustiça predomina. Aos mais pobres, na maioria das vezes, testes e leitos de UTI são negados.

A pandemia mostra que a maior transmissão e morte pela Covid-19 está ligada à questão social e racial: 62% dos negros tem mais chances de morrer do que os brancos em São Paulo. A pandemia é também uma questão social, pois os pobres moradores de favelas, cortiços e periferias são mais atingidos que os moradores de bairros nobres.

A pandemia tem endereço certo. Quem mora nas favelas. Dados do IBGE revelaram que, em 2010, 11,5 milhões de pessoas viviam em 6.329 favelas no Brasil, mas, se tivéssemos esses números atualizados, com certeza, seriam muito maiores.

Pesquisa mais recente da Fundação Getúlio Vargas, de 2019, apontou um déficit de 7,7 milhões de moradias no Brasil. E os dados negativos não param por aí. Em 2019, segundo o IBGE, metade da população (105 milhões de pessoas) sobrevivia com 438 reais por mês, 15 reais por dia.

Diante de tanta desigualdade, perdas humanas e do aumento de pessoas ingressando em situação de extrema pobreza, o descaso do governo Bolsonaro com a saúde só tem aumentado.  Não é preciso ir muito longe para demonstrar o quanto ele “dá de ombros” para o triste cenário em que vive a população.

A queda de dois ministros da Saúde em menos de um mês revela o quanto este governo é genocida e não tem a menor condição de continuar governando o país. Não porque não tenha alternativas, mas porque o foco não é e nunca foi o povo brasileiro, mas os poderosos que custearam sua eleição.

As constantes investidas de Bolsonaro em orientar as pessoas para o relaxamento da quarentena, a irresponsabilidade em incentivar e até participar de manifestações em seu favor e pelo fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal explicitam e demonstram o seu autoritarismo e fascismo.

Quem o apoiou com cifras bilionárias nas eleições presidenciais agora cobra a fatura, mesmo que essa cobrança envolva milhares de vidas. Como resposta às milhares de famílias que perderam seus entes queridos, Bolsonaro responde com desprezo e descaso.

De um governo retrógrado, subserviente aos interesses dos Estados Unidos, que retrocedeu em todas as conquistas sociais que obtivermos nos governos Lula e Dilma, não poderíamos esperar outra coisa que não fosse o total abandono do povo à sua própria sorte.

Descaso com a Ciência, com a Educação, com a Saúde, com a Habitação, perdas de direitos trabalhistas conquistados em anos de luta pela classe trabalhadora: em todas as áreas houve retrocesso!

Desde sempre Bolsonaro concentrou toda sua preocupação em armar a população, ao invés de garantir uma renda básica para quem precisa, especialmente neste momento. Sua atenção sempre esteve voltada também para esconder os crimes e defender os seus interesses, de seus filhos e amigos milicianos.

Nesse cenário de destruição, temos que ter a compreensão de que a retomada de investimento em todos os setores e o desenvolvimento do país não virão com este governo, porque as opções de Bolsonaro envolvem o benefício tão somente da grande burguesia.

Cada vez mais o presidente Bolsonaro nos consolida na vexatória posição de 9º país mais desigual do mundo e o primeiro da América Latina. Para reverter essa triste situação, só com fora Bolsonoro e Mourão!

Precisamos fazer a reforma tributária urgentemente para garantir recursos para subsidiar políticas públicas importantes para o país no enfrentamento à pandemia.

Não é pouco o que conseguiríamos em recursos. Só com a taxação de altas rendas, lucros e dividendos em 15% da alíquota, teríamos 71 bilhões de reais; com taxação de grandes fortunas mais 35 bilhões; com taxação de grandes heranças – passando de 8% para 20% -, mais 11 bilhões de reais; com aumento da tabela do IR para grandes salários, teríamos 20,5 bilhões; com aumento da alíquota de 15% para 30% no sistema financeiro, 15 bilhões; e a cobrança de IPVA de aeronave e iates, mais 5 bilhões.

Só com estas mudanças somaríamos um total de 157, 5 bilhões de reais para investir em políticas públicas. Mas para implementar tais medidas é preciso um governo compromissado com o povo brasileiro e, definitivamente, não é o que temos! Por isso estamos na campanha Fora Bolsonaro.

Contra a corrente de todo retrocesso que o governo Bolsonaro representa, os movimentos sociais e populares estão unidos pela solidariedade em defesa da população que mais precisa. Desde o início do acirramento da crise, em abril, até agora, campanhas como “Movimentos Populares Contra a Covid-19”, que integra a rede de solidariedade “Vamos Precisar de Todo Mundo”, das frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, já abriram 92 pontos de arrecadação e distribuição de alimentos e produtos de limpeza e higiene em todo o país. Foram distribuídas 64.129 cestas básicas, o que correspondem a quase 1.300 toneladas de alimentos.

As ações dos movimentos populares estão fazendo a diferença na vida da população em situação de vulnerabilidade, mas isso é insuficiente. O governo precisa assumir a responsabilidade que lhe cabe e garantir o bem-estar dessas pessoas.

De imediato, defendemos o pagamento do auxilio emergencial para todas as famílias em situação de alta vulnerabilidade, enquanto durar o estado de calamidade pública, para as 80 milhões de pessoas cadastradas que têm direito a recebê-lo, além de teste de Covid-19 para todas as pessoas que apresentarem sintomas, bem como fila única para terem acesso aos leitos. Saúde é direito e não mercadoria só para os ricos terem acesso. 

Em paralelo à promoção de campanhas de solidariedade, os movimentos sociais estão realizando ações pela conscientização da população em relação aos seus direitos e exigindo ações urgentes dos governos voltadas para a população que mais precisa.

É imoral e inaceitável que um país tão rico em recursos naturais, com uma minoria de bilionários, aceite de forma passiva conviver com tamanha desigualdade social. É urgente distribuir renda e riqueza de forma radical para que todos sobrevivam com dignidade humana.

PS: As revelações de que Flávio, filho de Jair Bolsonaro, recebeu informação privilegiada de ação da Polícia Federal que investigava eventuais crimes cometidos pelo motorista da família, Fabrício Queiroz, e que a operação foi adiada para favorecer Bolsonaro nas eleições de 2018, configuram os crimes de obstrução à justiça e fraude eleitoral. Com base nesses crimes e tantos outros, a CMP irá nos próximos dias subscrever um pedido de impeachment contra o presidente da República.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum


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