Raimundo Bonfim

07 de agosto de 2019, 06h00

É urgente deter a escalada autoritária e defender a democracia

Raimundo Bonfim: “Não podemos perder tempo. É preciso agir agora, com alianças, unidade e mobilização para eliminar os vírus que poderão matar a nossa democracia”

Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Após a primeira votação do processo que culminou com aprovação do desmonte da Previdência pública, na Câmara dos Deputados, o presidente Jair Bolsonaro tinha dado uma trégua em suas desastrosas declarações sobre diversos assuntos. Seu grupo político conseguiu enquadrá-lo, sob pena de colocar em risco a aprovação da reforma, que só beneficia os interesses do capital.

Porém, nos últimos dias Bolsonaro voltou ao trabalho e, desta vez, com palavras e gestos, como o corte de cabelo semelhante a Adolf Hitler. Sempre defendendo e aplaudindo os crimes cometidos durante o regime militar.

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Sua popularidade tem caído, após perder o protagonismo da disputa em torno da Previdência para Rodrigo Maia. Sem contar as recentes revelações de crimes cometidos pela farsa montada pelo procurador da República Dallagnol e seu ministro da Justiça, Sergio Moro, para prender Lula. A eventual indicação de Eduardo Bolsonaro para a embaixada dos EUA também causou reação negativa.

Esses episódios, claramente, têm feito com que Bolsonaro eleve ao máximo sua disposição de instalar um regime autoritário, inclusive atacando de forma grave a história e a memória das vítimas da ditadura militar, em especial de Fernando Santa Cruz, pai do atual presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, afirmando saber como Santa Cruz teria sido assassinado. Também fez piada com a dor das vítimas dos 57 mortos em rebelião no presídio do Pará, uma prova de que não nutre nenhum sentimento humano, mesmo diante de tamanha brutalidade.

Também recentemente editou a portaria 666, sendo um pretexto para deportar estrangeiros de forma sumária, violando tratados internacionais. Em meio à tentativa de desqualificar as provas do envolvimento de Moro no esquema criminoso para condenar e prender Lula, afirmou que Glenn Greenwald “talvez pegue uma cana aqui no país”.

Ainda colocou em dúvida o assassinato do índio cacique Emyra Wajãpi, da etnia Wajãpi, no Amapá, morto por um grupo armado que invadiu a reserva indígena. Lembremos ainda das declarações racistas, homofóbicas e preconceituosas, incluindo o ataque ao povo nordestino, ao taxá-lo de “paraíbas”, insinuando serem preguiçosos.

Tenta a todo custo impor ao país uma política armamentista, facilitando posse e flexibilizando porte de armas, como se fosse a solução para a insegurança que toma conta do país. Ataca a educação, o meio ambiente, os indígenas, quilombolas, mulheres, professores, LGBTs, sem teto, sem terra.

A política de criminalização e repressão de Bolsonaro é copiada por João Doria, governador de São Paulo. Há 43 dias, quatro lideranças de movimentos de sem teto estão presas, sem terem cometido crime. As prisões decorreram de um inquérito policial comandado pela Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo.

O capitão reformado toma medidas com vista a entregar nossos recursos naturais e abre caminho para privatizar nossas empresas públicas, como a venda de ações da BR Transportadoras e ativos da Caixa Econômica Federal.

O mandatário fascista debocha do sofrimento de milhões de brasileiros, quando afirma que não há gente passando fome no país, contrariando dados de instituições respeitadas e a própria realidade.

O espaço é pequeno para listar tantas desgraças cometidas por Bolsonaro nestes sete meses, mas não posso deixar de mencionar sua ligação com milícias criminosas e o assassinato da vereadora Marielle Franco e sua investida contra as universidades federais.

Estamos, portanto, diante de um governo ultraliberal e de um presidente conservador que age com autoritarismo visceral, resultado de uma eleição fraudada, conforme revelado pelo Intercept.

O governo Bolsonaro é um ameaça real à democracia e às conquistas da classe trabalhadora e do povo brasileiro. Diante da crise econômica, política e social e do avanço do Estado policialesco, é imperioso a construção de um movimento nacional com muita unidade e mobilização das forças democráticas e de esquerda para deter a escalada do autoritarismo, salvaguardar os direitos civis, a liberdade e defender a democracia, a soberania e os direitos sociais, ambientais e culturais.

Para tanto é necessário que encontremos urgente uma narrativa e novas formas de envolver a classe trabalhadora nessa batalha, em especial os milhões de desempregados, a juventude, mulheres, professores, os movimentos sociais.

Temos que conectar os temas da democracia, liberdade e soberania com as principais preocupações da ampla maioria do povo, que é o trabalho, saúde, segurança, educação, terra e teto.

Não dá para afirmar que estamos sob a égide de um regime militar, mas o conjunto de declarações e medidas do governo Bolsonaro nos permite afirmar que estamos diante de um alto e iminente risco de ser instalado em nosso país um regime autoritário.

Não podemos perder tempo. É preciso agir agora, com alianças, unidade e mobilização para eliminar os vírus que poderão matar a nossa democracia.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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