Raimundo Bonfim

03 de dezembro de 2019, 16h32

Genocídio em Paraisópolis

Raimundo Bonfim: “Se o Estado não dota esses territórios de serviço públicos e nega à juventude emprego e educação, que ao menos deixe essa população se divertir em paz. Sem violência”

Jovens assassinados no massacre de Paraisópolis - Foto: Montagem

A Polícia Militar do governador João Doria invadiu um baile funk na madrugada do último domingo (1), na favela Paraisópolis, e assassinou nove jovens; sete ficaram feridos.

A ação ocorreu no Morumbi, um dos bairros mais nobres de São Paulo. Porém, o exato local escolhido foi a favela Paraisópolis, cravada no meio da fina flor da elite paulistana. Policiais dispararam gás lacrimogêneo, balas de borracha, além de garrafas de vidros, coronhadas, tapas, socos e pontapés. O que ocorreu não foi confronto. Foi genocídio mesmo.

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O governador do estado de São Paulo, João Doria, deve ser responsabilizado pela morte de Paulo Oliveira dos Santos (16 anos), Bruno Gabriel dos Santos (22 anos), Eduardo Silva (21 anos), Denys Henrique Quirino da Silva (16 anos), Mateus dos Santos Costa (23 anos), Gustavo Cruz Xavier (14 anos), Gabriel Rogério de Moraes (20 anos), Dennys Guilherme dos Santos Franco (16 anos), Laura Victória de Oliveira (18 anos). As vítimas são todas jovens e na maioria negras, o que demonstra ser uma ação que tem base no racismo estrutural e institucional.

Essa ação criminosa é resultado da política de estímulo à violência policial. Por exemplo, lembremos que Moro, com o projeto de excludente de ilicitude, quer dar licença para matar. Se o projeto já tivesse sido aprovado, os policiais poderiam alegar que se encontravam com medo, foram pegos de surpresa ou estavam sob violenta emoção e, assim, invocar a excludente de ilicitude para não sofrer qualquer punição.

Bolsonaro quer armar a população como se fosse a solução para combater a violência. Só faltam argumentar que se as 5 mil pessoas presentes no baile funk estivessem armadas teriam evitado a tragédia.

O governador do estado de São Paulo João Doria já disse que “é para atirar e matar” e que “primeiro atira, depois pergunta quem é”. A matança desses jovens indefesos é mais um ato de uma deliberada política de extermínio da população pobre, jovem, negra e periférica, infelizmente, com respaldo de uma boa parcela da classe média branca. As cenas da ação dos agentes do estado gravadas e divulgadas pelos moradores provam os requintes de crueldade contra pessoas sem oferecer nenhum perigo ou resistência.

Os argumentos da polícia de que adentraram ao baile à procura de criminosos e fora recebida a tiros não sustenta. Os relatos e as cenas desmentem essa versão falaciosa. Os jovens apenas exercitavam o direito do acesso à cultura e ao lazer. Foram vítimas de uma emboscada, infelizmente, que ocorre em todos os fins de semana nas periferias do país. Basta morar em bairros periféricos e nas favelas e participar de baile funk para ser considerando “bandido” e ser alvejado com balas pelo Estado.

É triste, revoltante e inaceitável escutar os gritos de dor e pedidos de socorro da multidão de jovens sendo encurralados como se fossem boi levados para o matadouro. Já passou da hora de enfrentarmos essa política de extermínio contra o povo pobre e a juventude.

Ações de repressão e assassinatos de jovens em favelas e periferias têm sido constantes no estado de São Paulo. Estamos diante do desmonte do estado voltado para o bem-estar social. Em contrapartida, crescem as ações de repressão e matança em massa.

É preciso, urgentemente, pensarmos em políticas urbanas e sociais voltadas para as favelas e periferias das cidades. O caminho passa, principalmente para a juventude, por políticas de mobilidade urbana, cultura, lazer, educação, emprego e inclusão social.

Não se pode ignorar que o funk é expressão artística de milhares de jovens nas favelas e periferias – local onde o Estado só chega para matar, como fez na favela Paraisópolis. Estima-se que mais de 2 milhões de pessoas sobrevivem em favelas na região metropolitana de São Paulo. Se o Estado não dota esses territórios de serviço públicos e nega à juventude emprego e educação, que ao menos deixe essa população se divertir em paz. Sem violência. Basta de genocídio! Nós que moramos ou atuamos como ativista nas periferias e favelas precisamos reagir e denunciar. Não à barbárie!

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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