Raimundo Bonfim

03 de janeiro de 2020, 23h21

Os retrocessos de 2019 e as eleições municipais de 2020

Raimundo Bonfim: "Devemos aproveitar 2020 para fortalecer as organizações dos trabalhadores (as) para enfrentar a situação política, econômica e social que o país vive atualmente, com desmonte das políticas sociais, eliminação de direitos e ataque à democracia e à soberania"

Manifestação da Central de Movimentos Populares (Divulgação)

O ano de 2019 foi marcado por grandes retrocessos para o conjunto da classe trabalhadora, especialmente para os moradores das cidades. Desde o golpe em 2016 que derrubou a presidenta Dilma e alçou Michel Temer ao governo, as políticas públicas vêm sendo enfraquecidas e várias delas desmontadas por completo. Somado ao desemprego, o desmonte das políticas públicas tem contribuído de forma decisiva para o aumento da desigualdade e da pobreza.

Em 2019, com a chegada de Bolsonaro ao poder – resultado de um golpe político e de uma fraude eleitoral -, a situação das políticas públicas só piorou. Fim do Programa Mais Médicos, deixando milhões de pessoas sem atendimento à saúde; fim do Minha Casa, Minha Vida, deixando cerca de 8 milhões de famílias sem expectativa do acesso à moradia; fim de programas voltados para a juventude, população LGBT, mulheres e ações culturais e de lazer, fundamentais para o acesso à cidadania e combate à violência. Somado a tudo isso, obras de infraestrutura nas áreas de saneamento e transporte foram totalmente paralisadas, o que contribui para diminuir a arrecadação de recursos e aumento do desemprego, além de tornar as cidades um caos do ponto de vista da mobilidade urbana.

Devemos aproveitar 2020 para fortalecer as organizações dos trabalhadores (as) para enfrentar a situação política, econômica e social que o país vive atualmente, com desmonte das políticas sociais, eliminação de direitos e ataque à democracia e à soberania. 2020 tem que ser o ano da resistência.

Para fazer o enfrentamento necessário é preciso investir na organização de base. Sem uma forte organização popular e elevação da consciência da classe trabalhadora, teremos enorme dificuldade de impedir o avanço desse projeto ultraneoliberal, neofascista e conservador em curso no país. Bolsonaro termina um ano de governo com a mais baixa popularidade dos últimos tempos. É reprovado por 38% da população. E 56% não confiam no presidente, sendo que 53% desaprovam a forma como ele governa o país. Não é para menos. Se elegeu com o discurso de renovação da política, mas como presidente faz um governo que só beneficia as elites que dominam o país e se apropriam das nossas riquezas há mais de 500 anos. Prometera resolver o problema do desemprego e não conseguiu. Ao contrário, já são 13 milhões de desempregados. Prometera combater a corrupção, porém se descobriu que o próprio presidente e sua família estão envolvidos com grupos milianos e mafiosos no Rio de Janeiro, além de roubarem dinheiro público através do esquema montado na Alerj pelo seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, tendo seu ex-assessor Fabrício Queiroz efetuado depósito na conta da primeira dama Michelle Bolsonaro. E o PSL, partido pelo qual se elegeu presidente, se explodiu com o esquema que ficou conhecido como laranjal.

Prometera moralizar o uso dos recursos públicos, mas em seu primeiro ano de governo, o presidente Bolsonaro gastou no cartão corporativo 3 vezes mais o valor gasto por Dilma, a partir de 2013. Bolsonaro fez farra com dinheiro do povo. Torrou R$ 14, 9 milhões no ano. Para se ter uma ideia, dá R$ 1, 240 milhão por mês, R$ 41 mil por dia e R$ 1.708 por hora. Lembre que o presidente elevou o salário mínimo para 2020 para apenas R$ 1.039. Ou seja, Bolsonaro gasta por dia mais que o salário mínimo, valor do salário de milhões de pessoas. Nesse primeiro ano de governo, Bolsonaro atacou a educação, a ciência, a cultura e o meio ambiente.

É preciso aproveitar o ambiente das eleições municipais deste ano para ampliarmos o diálogo com a população. Será fundamental para o campo de esquerda e para os movimentos populares ganhar o maior número de prefeituras e eleger milhares de vereadores. Será uma demonstração de resistência. Temos também a tarefa de politizar o debate político, não apenas pedir votos. Precisamos conscientizar a população para que ela compreenda a política desastrosa do governo federal. É preciso afirmar de forma categórica que grande parte dos problemas sociais enfrentados pelas cidades são decorrentes da política econômica que concentra riqueza e poder, gera desigualdade e pobreza.

Quando o eleitor nos perguntar o que faremos para melhorar sua condição de vida, nossa melhor resposta é dizer que os graves problemas sociais de saúde, edução, moradia, transporte, mobilidade urbana e meio ambiente não serão resolvidos só pelo poder público municipal. Não se resolve apenas com a elaboração de um programa de governo para a cidade. É preciso considerar o atual estágio de crise do capitalismo mundial, os avanço tecnológicos, a crise ambiental, a precarização do emprego e o aumento da desigualdade.

Por outro lado, diante dos ataques às liberdades democráticas, da destruição do Estado de bem-estar social, criminalização, repressão e assassinatos de militantes, e o surgimento de um Estado policialesco, ficar debatendo nas eleições apenas como tapar buracos ou asfaltar ruas, por mais importante que seja, estaremos sendo omissos com a escalada do autoritarismo e o projeto de cunho fascista em curso no país. Portanto, não basta escolhermos governantes comprometido com cidades inclusivas, justas e democráticas. É preciso fazer das eleições em 2020 um grande movimento político de acumulação de força em defesa das liberdades democráticas, dos direitos, contra o autoritarismo e o fascismo. Vamos à luta!


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