Raphael Silva Fagundes

17 de janeiro de 2020, 22h56

A burrice da direita está nas ideias, não nos erros gramaticais

Raphael Fagundes: “A esquerda precisa pensar em formas mais acessíveis de divulgar suas ideias, principalmente no quesito religioso e no setor de segurança pública”

Abraham Weintraub - Foto: Rafael Carvalho/Divulgação Casa Civil

A esquerda não pode cair no erro de julgar a capacidade intelectual de Weintraub ou de Eduardo Bolsonaro pelos erros gramaticais cometidos pelos mesmos, mas pelas ideias que defendem.

O filósofo Montaigne nos ajuda a pensar: “Acredito, e Sócrates o diz formalmente, que quem tem no Espírito uma ideia clara e precisa sempre a pode exprimir, quer de um modo quer de outro, por mímica até, se for mudo […] Pode ignorar ablativos, conjuntivos, substantivos e gramáticas, quem é dono de sua ideia” (1).

A esquerda não pode se apropriar da arte do bem falar (retórica), já que esta consiste em uma prática social, como mostrou Roland Barthes, “uma técnica privilegiada (pois que é preciso pagar para adquiri-la) que permite às classes dirigentes garantir para si a propriedade da palavra”. É um fato que as elites possuem acesso ao léxico produzido historicamente pela língua, por isso, a linguagem é poder.

Enquanto a esquerda discute os erros de português, as ideias da direita se alastram pela sociedade. Nesta situação, setores da elite jornalística, defensora do mercado financeiro, criticam a direita no mesmo tom. “Libertários” e reacionários conversam sobre o mesmo assunto sentados lado a lado na mesa do jantar. Enquanto isso, o projeto conservador ultraliberal cativa o proletariado.

A direita não se importa com a estrutura da fala, porque sabe que a massa do cidadão está mais interessada em discutir polêmicas nos bares e nos salões de beleza. E isso seus agentes sabem fazer muito bem. Aliás, as ideias tolas se propagam assim, através da polêmica, seja em uma suposta revolta contra o modelo comportamental dominante (refiro-me aqui ao politicamente correto) ou por uma suposta revolta às normas cultas. Tais ideias são tolas porque nada mudam, servem, covardemente, para manipular a insatisfação popular.

A esquerda precisa pensar em formas mais acessíveis de divulgar suas ideias, principalmente no quesito religioso e no setor de segurança pública, já que o espírito é o consolo da massa que teme em ter os bens que conseguiu com tanto suor roubados.

De que adianta conjugar verbos, ser exímio em concordâncias nominais etc, mas ter as ideias cultivadas apenas por um número restrito de pessoas?

O racismo, o machismo, a exploração sobre a classe trabalhadora vêm sendo defendidos e praticados cada vez mais pelas vítimas que estão sendo vedadas pelas ideias que a direita sabe divulgar muito bem – não, evidentemente, sem o auxílio da própria esquerda.

As ideias de que os patrões precisam ter incentivos e não os trabalhadores; de que as empresas estatais são incapazes de fornecer um bom serviço e, por isso, devem ser privatizadas; de que a educação deve ser objetiva para se reproduzir a realidade e manter a dependência e não um instrumento de reflexão útil para se buscar a autonomia e a emancipação, são ideias que visam imbecilizar os trabalhadores para que estes se reconheçam como inferiores e não como a força que conduz o destino do país.

A esquerda precisa se popularizar, tocar o ouvinte, ou, nas palavras de Cícero, torná-lo benevolente. As ideias se propagam despertando valores, ideias que estão contidas em algum lugar no inconsciente coletivo, não pela estrutura gramatical que a transmite. Não estamos mais no século XIX.

(1)MONTAIGNE, Michel. “Ensaios”. In: Os pensadores. Trad: Sérgio Milliet. São Paulo: Abril, 1972. Livro Primeiro. Cap. XXVI.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum