Raphael Silva Fagundes

10 de julho de 2020, 12h56

A crise da idiocracia

Raphael Fagundes: “Gramsci dizia que todo ser humano é um intelectual em potencial, embora nem todos ajam como tal. Contudo, é também da natureza humana ser estúpido”

Gramsci - Foto: Wikimedia Commons

É lógico que chamar alguém de idiota, imbecil, estúpido etc, é de uma brutalidade absurda. Parece soberba e superioridade. Mas quando se promove um código binário no qual a ciência e a intelectualidade são vistas como incompetentes, não há como deixar de associar os detratores do conhecimento criterioso com a burrice apresentada pela soberba da ignorância.

A guerra contra a intelectualidade sempre foi uma bandeira dos conservadores, desde quando a palavra intelectual surgiu como um adjetivo no caso Dreyfus em 1898. A partir desse momento, indivíduos dedicados às letras, artes e ciências passaram a lutar pelas causas civis.

Os conservadores norte-americanos, defensores do racismo, da submissão feminina etc, sempre viram os intelectuais como um problema. As principais marcas desse reacionarismo estão expressas nos governos do macartismo e dos anos 1980 com a administração Reagan, na qual Hollywood adorava retratar o homem branco imbecil (Rambo e Rocky) que resolvia os problemas da sociedade. (1).

No Brasil, não é necessário mencionar a caça aos intelectuais no período da ditadura civil-militar, pois é de conhecimento de todos. Seria muito mais interessante observar o investimento do governo Bolsonaro, que idolatra o regime civil-militar, nesse projeto idiocrático. Não por acaso, a pasta da Educação foi a que mais sofreu mudanças ao longo de seu um ano e meio de governo. Vamos para o quarto ministro. Apenas uma das 20 metas traçadas para a Educação foi atingida.

A pandemia de Covid-19 revelou o que todos já sabiam: o desgosto do presidente pela ciência. Bolsonaro desqualifica a opinião de médicos e de cientistas, anda por aí sem máscara e ainda insiste na cloroquina, medicamento considerado ineficaz pela maior parte da comunidade médica.

O interesse dos conservadores de destruir a educação, de atacar os intelectuais e a ciência não passa de um projeto de poder para ampliar sua base eleitoral que se forma por meio de fake news e da eloquência truculenta do presidente.

Sem o acesso à produção intelectual e o discurso científico é formado o analfabeto político. “O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política”, nos disse Bertolt Brecht.

O analfabeto político é uma presa fácil para as fake news, que os alfabetiza através da farsa. São ideias simples, muito mais simples que o pensamento científico ou intelectual. As pessoas se sentem mais confortáveis acreditando que tudo é simples. Para elas o pensamento científico é mais manipulável que uma fake news, pois não entendem o primeiro. Já o segundo conseguem sentir, manusear, o que possibilita a crença e a propagação.

O objetivo de substituir o conhecimento científico pelo proferido pelas fake news é um projeto conservador de longa data, não foi a internet que propiciou esse projeto. Ele é um clássico na atuação conservadora ao longo do século XX.

Até meados do século XX, os conservadores tinham a ciência ao seu lado, visto as teorias eugenistas. Hitler e os conservadores norte-americanos se basearam nos discursos pseudocientíficos forjados no século, que legitimavam a superioridade do homem branco.

Esse pensamento científico caiu por terra e os conservadores perderam as bases para legitimar a hierarquia social que defendem até hoje. No pós-guerra, diversos movimentos vieram à tona para mostrar que a mulher é tão independente quanto o homem e que o negro nada se difere do homem branco, intelectualmente falando.

Os conservadores tiveram que se virar, principalmente com o discurso bélico e anti-intelectual massivamente destacado nos filmes hollywoodianos. Além disso, as fake news, como comunista come criancinhas, a ameaça comunista, conspirações soviéticas, marxismo cultural, politicamente correto etc, foram forjadas para alimentar o discurso conservador.

Não há nada de novo no que o governo Bolsonaro está fazendo. Pelo contrário, é uma cópia fajuta de modelos conservadores norte-americanos de outrora. O culto à ignorância é a sina desse sistema.

Ignorantes são aqueles que não procuram a sabedoria “porque acreditam que a possuem”. O “verdadeiro filósofo, amante da sabedoria, procura aproximar-se dela perseguindo-a durante toda sua vida”, diz o professor Nuccio Ordine. A sabedoria conservadora é forjada pela fake news e os que acreditam que a possuem, acreditam porque são convencidos por uma eloquência truculenta, que insere elementos religiosos e que representam uma seguridade em uma pós-modernidade marcada pela incerteza.

Gramsci dizia que todo ser humano é um intelectual em potencial, embora nem todos ajam como tal. Contudo, é também da natureza humana ser estúpido. O personagem do romance existencialista de Martin Page (Como me tornei estúpido), Antoine, acredita que a estupidez não está na coisa em si. Achar que alguém é estúpido dessa maneira seria um mero juízo de valor, um preconceito. A estupidez está na maneira de fazer as coisas ou de considerá-las.

Com as investigações contra o “gabinete do ódio” e no esquema das fake news, qual será o suporte ideológico para alfabetizar politicamente por meio da ignorância? Como as pessoas ludibriadas pela estupidez vão fazer coisas idiotas e considerar idiotamente coisas sem essa maneira estúpida que as fake news proporcionam? Como fazer com que elas se interessem por política de uma forma distorcida e falaciosa?

(1)KELLNER, D. A cultura da mídia. Bauru, Educa, 2001, p. 88.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum