Raphael Silva Fagundes

27 de abril de 2020, 21h14

A crise e Bolsonaro: ele precisa dela e ela, dele

“A cada espetáculo que Bolsonaro promove, um caso envolvendo seus filhos é abafado. A demissão de Moro foi o caso mais evidente”, diz Raphael Fagundes

Foto: Reprodução/TV Globo

A mais longa crise política do período republicano aconteceu na Primeira República (1889-1930). A crise se iniciou nas disputas em torno da sucessão presidencial de 1922, entre os candidatos Nilo Peçanha e Arthur Bernardes, como mostram as historiadoras Marieta de Moraes Ferreira e Sumara Conde Sá Pinto (1).

O movimento Reação Republicana, liderado por Peçanha, visava romper com o modelo oligárquico em vigor, trazendo para o poder setores de segunda grandeza das chamadas oligarquias. Não aceitando a derrota nas eleições, Peçanha mobilizou militares e outros setores para desestruturar a política tradicional. Foi uma crise que durou oito anos, perpassada pelo tenentismo e por agitações trabalhistas.

Para além desta, diversas crises assolaram a República, a que levou ao fim da República da Espada, a de 1945, 1955, 1961 e 1964. O impchemant de Collor foi a principal crise política, após a redemocratização. Todas estas crises políticas foram curtas, algumas nem alteraram a lógica do poder no período que se seguiu.

As crises de 1955, 1961 e 1964 fazem parte de um mesmo processo, mas um período de relativa estabilidade floresceu com a eleição de Juscelino Kubitscheck. Foram cinco anos em que uma aparência de normalidade vingou e, até mesmo, uma prosperidade reinou no país. O Brasil era campeão da Copa do Mundo de 1958, a Bossa Nova surgia no Rio de Janeiro e Brasília nasceria em 1960, por meio de um projeto arquitetônico totalmente moderno.

A crise política que vivemos há sete anos não teve nenhuma pausa desde seu início. São sete anos de instabilidade política e financeira. Além disso, ela tem tudo para se estender ainda mais se o governo Bolsonaro durar até 2022.

A instabilidade política iniciou-se com as Jornadas de Junho de 2013. Como disse o sociólogo Andrey Cordeiro Ferreira, “as JJ13 abriram o ciclo histórico de crise política da sociedade brasileira” (2). A partir de então, seguiu-se a Lava Jato e a ascensão da extrema direita, que manipularam a insatisfação popular levando à vitória de Jair Bolsonaro em 2018.

Tudo indica que essa crise durará nove anos, no mínimo, superando a duração da crise que desencadeou na Revolução de 30, na qual Getúlio Vargas chegou ao poder. O período pós-crise teve que atender às exigências da crise provenientes das lutas operárias por direitos trabalhistas. Foi quando Vargas criou o salário mínimo, carteira de trabalho, aposentadoria etc.

Bolsonaro jamais será capaz de colocar fim à crise que se agiganta, já que não foi eleito para tal. Ele é produto da crise e se alimenta dela. Adota um discurso proveniente da crise, revivendo-a constantemente. Definiu a própria crise política como método de sustentação do seu governo e, assim, investe nela para se manter no poder e proteger sua família. Portanto, mantém a configuração política e social que o agrada, que combina, inclusive, com a sua fatídica retórica de guerra.

Discute com a mídia, despede praticamente um ministro por semana, marca presença em movimentos que defende a ditadura militar etc. Todas essas manifestações são para produzir e reproduzir a crise, uma fórmula para se manter no poder, já que foi a própria crise que o elegeu. Ele é o presidente perfeito para a crise. Ela precisa dele e ele, dela.

A cada espetáculo que Bolsonaro promove, um caso envolvendo seus filhos é abafado. A demissão de Moro foi o caso mais evidente, já que ficou claro que o objetivo era justamente usar o poder para proteger o clã bolsonarista. É a apoderação do cargo da presidência para interesse próprio, mesmo que a consequência seja entregar o país ao caos.

Uma das formas de pôr fim ao reinado da família Bolsonaro (e talvez a que se realizará) seja a atuação do Exército e do mercado financeiro, já que o movimento das ruas está impossibilitado por conta da pandemia da Covid-19.

Quando esses poderes, que, por natureza, são conservadores, mas não são tão simpáticos a períodos longos de crise política, começarem a observar que Bolsonaro não irá resolver crise alguma, mas que, muito pelo contrário, sustenta-se dela, talvez possamos vislumbrar um possível fim dessa crise que já se estendeu demais, tornando-se estado natural, não uma situação efêmera, como é da natureza das crises.

A questão é: Vargas respondeu à crise da década de 1920 com a promoção dos direitos trabalhistas. Desta vez, qual será a resposta do futuro governo do período pós-crise?

(1)FERREIRA, M. M. e PINTO, Sumara C. Sá. A crise dos anos 1920 e a Revolução de 1930. In: FERREIRA, J. e DELGADO, Lucília. O Brasil republicano: o tempo da nova República. V. 1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.

(2)https://diplomatique.org.br/ecos-de-junho-insurgencias-e-crise-politica-no-brasil-2013-2018/

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum


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