Raphael Silva Fagundes

22 de abril de 2020, 22h05

A culpa não é do Cabral, mas das elites que persistem no poder

Leia na coluna de Raphael Fagundes: "Será o rompimento com essas elites que libertará o país de um projeto que vem desde o seu descobrimento, inaugurando finalmente uma nova fase em nossa história"

Foto: Arquivo

Entre dois feriados no Rio de Janeiro (21 de abril, Tiradentes, e 23 de abril, São Jorge), o dia do Descobrimento do Brasil (22 de abril) quase não é lembrado, tampouco comemorado. Justo, já que se trata de um marco mais importante para os portugueses do que para os brasileiros.

Partindo da teoria de que havia habitantes por aqui, muitos acreditam que o Brasil, na verdade, não foi descoberto, tratando-se de fato de um encontro. Contudo, para os portugueses, o termo descobrir, de acordo com Vitorino Magalhães Godinho, era o seguinte: “Levanta-se ferro em busca do que se suspeita existir embora não o conhecendo, ou de realidades de cuja existência se tem a certeza, mas até então não frequentada”.

“Descobrir” estava muito longe do aventurismo que se imagina. Era uma exploração metódica com questionários a se fazer ao abordar novas populações.

Mas a questão que precisa ser lembrada são os interesses econômicos que influenciaram a chegada dos europeus nessas terras. O que impeliu os portugueses a fazer do Brasil o seu único projeto colonial de fato, estabelecendo moradia e não apenas feitorias como fizeram no continente africano?

Não podemos negar que o sentimento cruzadístico era importante, mas, segundo Jean-Frédéric Schaub, ele é impregnado de ambivalência. Em muitos locais se negociam com as elites dos lugares descobertos e não apenas massacrando os povos em nome do Deus católico.

Outro ponto importante a ressaltar é que somente quando o infante D. João (futuro D. João II) passou a ser responsável pelas navegações (1474) é que o interesse de se chegar às Índias veio à tona. Até então, o ouro da Guiné vinha em primeiro lugar. Além disso, desde 1441, os escravos tornaram-se uma das mais cobiçadas riquezas resgatadas no litoral africano.

Isto nos leva a outro ponto. No século XIX, ao se descrever a chegada de Cabral ao Brasil, deu-se grande destaque à ação da Providência. E, até hoje, os motivos que explicam a insistência de D. João II em disputar com a Espanha um alargamento para o Oeste da partilha das conquistas em 370 léguas, que resultaria no Tratado de Tordesilhas em 1494, ainda não estão muito claros.

Sugerimos aqui que o que levou os portugueses a se interessarem por essas terras foi a possibilidade de ampliar seu projeto escravista. Nosso país nasceu da escravidão, não de um projeto utópico que visava encontrar um paraíso na terra, mas do sangue e do suor dos africanos que vieram trabalhar compulsoriamente. Não é a toa que 86% das pessoas que desembarcaram no Brasil entre 1500 e 1850 eram negras. O tráfico de escravos é de importância singular para a construção do Brasil.

Já em 1482 a Coroa portuguesa comercializava escravos na costa africana para conseguir ouro em São Jorge da Mina, aponta Luís Felipe de Alencastro. O tráfico de escravos já se mostrava extremamente lucrativo para Portugal. De acordo com Manuel Nunes Dias, o empreendimento dos Avis (dinastia portuguesa à época) no Atlântico era distinto do castelhano, pois havia um interesse na região em si, não se tratando, como para os espanhóis, de um investimento que buscava chegar às Índias.

Essas questões podem nos levar a crer que os portugueses estavam interessados em “achar” as terras do lado ocidental do Atlântico para estimular ainda mais sua empresa escravista. Engordar seu tesouro sobre as costas negras. De modo que uma economia focada no Atlântico Sul já vinha sendo pensada antes mesmo da descoberta do Brasil.

É evidente que a chegada de Vasco da Gama às Índias em 1498 retardou esse investimento sul atlântico e o Brasil serviu como uma espécie de base de operações para a rota do Oriente. A expedição de Cabral tinha o nítido caráter de embaixada e de conquista. Todavia, com o declínio do comércio oriental, a coroa portuguesa foi obrigada a atender as reclamações da iniciativa privada que se desenvolvia no Brasil, pois os ataques de outras nações, interessadas no Atlântico Sul e em sua economia escravista extremamente rentável, traziam desespero aos primeiros empreendedores.

A partir de então, a Coroa se volta para o Atlântico Sul estabelecendo uma relação intensa entre Brasil e África. A escravidão servia, portanto, para ampliar a sua receita e ainda controlar politicamente as atividades exercidas na região. A metrópole concebia Brasil e África como complementares, o primeiro visto como o local de produção (açúcar) e o segundo como fornecedor da mão de obra (escravos).

Mas não podemos responsabilizar plenamente a metrópole por ter nos dado o infame comércio de escravos. As elites que se estabeleceram na colônia fizeram riqueza a partir do tráfico de almas. Primeiro as elites das plantation, em seguida os homens do grosso trato. Estas elites foram as mesmas que proclamaram a Independência e sustentaram o Império. Continuaram a agir como os antigos colonizadores. O capital traficante financiou a administração no Brasil por longos anos. Assim como hoje os que querem o fim dos direitos trabalhistas, a uberização da mão de obra etc., financiam grande parte dos políticos. Não há como haver nenhuma mudança substancial no Brasil se o país continuar sendo governado por esses sanguessugas que vivem da deterioração do trabalho alheio.

Só haverá uma mudança quando os trabalhadores, os que sempre foram explorados, antes escravizados, hoje uberizados, assumirem o poder. Quando um operário chegou à presidência pela primeira vez foi possível observar uma pequena melhora na qualidade de vida das pessoas, que só não foi maior por conta do acordo político com a velha classe dominante (o grande erro da esquerda). Será o rompimento com essas elites que libertará o país de um projeto que vem desde o seu descobrimento, inaugurando finalmente uma nova fase em nossa história.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum


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