Raphael Silva Fagundes

24 de setembro de 2019, 23h55

A dialética entre ser e ter: a liberdade violada em nome da propriedade

A diferença entre esquerda e direita não se dá mais pelo fato de um lado ser socialista e o outro capitalista, como na Guerra Fria. Não se trata mais do conflito entre capital e trabalho

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Nos últimos anos, tem ficado cada vez mais hórrido caracterizar os dois lados do espectro político. A diferença entre esquerda e direita não se dá mais pelo fato de um lado ser socialista e o outro capitalista, como na Guerra Fria. Não se trata mais do conflito entre capital e trabalho.

Procura-se classificar como conservadores e progressistas, uma definição que, por seu turno, não abrange o modelo econômico defendido por cada lado da disputa pelo poder político. Sendo, portanto, os conservadores os que defendem princípios morais tradicionais, como família nuclear, religião cristã etc., enquanto que os progressistas seriam mais liberais nos costumes, propondo o fim das desigualdades entre os gêneros, o casamento gay, aborto etc.

Deste modo, não é incomum encontrarmos membros da burguesia fazendo parte da esquerda, como a juventude magnata do Vale do Silício e os cineastas e atores de Hollywood, e, por outro lado, o que sempre foi mais comum, trabalhadores defendendo os conservadores, como vemos no exército reacionário recrutado pelas igrejas evangélicas para apoiar Jair Bolsonaro.

Propriedade e liberdade

Contudo, proponho uma outra forma de classificar direita e esquerda extremamente útil para entender, principalmente, o que acontece no Brasil. Trata-se de uma proporção entre propriedade e liberdade. Para a direita, a propriedade estaria acima de qualquer coisa a ponto de sacrificar a liberdade em nome dela. Permite-se o uso de armas para defendê-la. Valoriza-se a família tradicional na qual o homem é o chefe, isto é, onde aparece a primeira forma de propriedade: o homem é o proprietário da mulher e dos filhos. A liberdade de expressão é vigiada. É possível detectar focos de censura. O MEC quer proibir a livre manifestação política nas escolas. Queima-se quilômetros de florestas em nome da expansão proprietária. Sufoca-se tribos indígenas e os diversos ativismos. Cogita-se transformar as leis que definem o trabalho escravo, suavizá-las para fortalecer o grande proprietário. Mas, ainda assim, constitucionalmente, a liberdade está garantida.

Por outro lado, temos a esquerda que busca um equilíbrio entre propriedade e liberdade, tendendo para esta última. Defende o livre comércio, mas se este interferir nas liberdades individuais é condenado. Haverão alguns boicotes a empresas que defendem o racismo ou a misoginia. Artistas se comoverão com a causa. A liberdade dos animais e a preservação das florestas também estão inseridas nessa lógica. Em um aspecto mais extremado dessa esquerda, existe até mesmo a defesa da violação da propriedade quando a liberdade está sendo afetada, como é o caso do MST.

Mas, no conflito vigente, os dois lados do espectro político se diferenciam apenas na forma de administrar o capital. Essa administração é feita em níveis de equilíbrio entre propriedade e liberdade. A extrema direita seria a valorização máxima da propriedade em detrimento da liberdade, já a extrema esquerda (embora não faça parte dos conflitos atuais, sendo citada aqui para fins explicativos) seria a valorização máxima da liberdade em detrimento da propriedade. São elementos proporcionais na política, pois quando se valoriza demais a propriedade, a liberdade se torna perigosa e quando a liberdade é exacerbada, a propriedade é vista como um roubo.

Mas, evidentemente, não se trata da ausência de propriedade no caso da esquerda. Tirando os anarquistas, os socialistas não são contrários à propriedade, é possível se apropriar das riquezas sociais desde que não se explore ninguém para tal.

Do mesmo modo, tirando os apoiadores da ditadura, a direita não é contrária a liberdade (até certo ponto), temos como exemplo os Estados Unidos, onde a ideia de liberdade é um valor inviolável; destaque em uma das primeiras emendas da sagrada Constituição; cultuada tanto pelos democratas quanto pelos republicanos. Contudo, nos EUA, também podemos observar esta diferença proporcional (entre democratas e republicanos) entre propriedade e liberdade claramente.

Mas quando a democracia ameaça o capitalismo, é a direita que o capital mobiliza para salvá-lo. De acordo com a cientista política Ellen Wood, não há capitalismo em que o poder popular seja privilegiado em relação a acumulação e a maximização dos lucros. Portanto, o capitalismo tolera uma democracia limitada e ataca quando os limites permitidos são ultrapassados. A democracia, sistema político no qual a liberdade é uma condição valorizada, é avessa ao capitalismo, sistema econômico em que a propriedade é o centro da questão. Logo, a direita é contra a democracia, ou no máximo, a atura. Indícios desta tese não faltam no Brasil atual.

A dialética entre “ter” e “ser”

A vocação a esses dois polos políticos se encontra na classe média. Temos um grupo que quer preservar a riqueza que adquiriu trabalhando e, para tal, sacrifica a própria liberdade. Para este grupo, liberdade é ter. O discurso anticorrupção se confunde ao lema “bandido bom é bandido morto”. Já um outro setor quer desfrutar das liberdades constitucionais, e sabe que suas posses não estão relacionada a perda de liberdades. Para este grupo, liberdade é ser. O conflito entre patrões e empregados ficou em segundo plano, cedeu lugar à dialética entre ter e ser.

Trata-se de uma lógica liberal defeituosa (em relação ao que o liberalismo propõe em tese). Na sociedade capitalista liberal, ser e ter tende a se fundir (teoricamente). Quem tem a posse dos meios de produção é visto como alguém bem sucedido. O racismo, o sexismo etc., são elementos predecessores que ainda permanecem nessa sociedade, mas que, em tese, tenderão a desaparecer por ser o dinheiro o fator predominante. A segunda modernidade pretende combater essas mazelas que ainda vigoram na sociedade ocidental (sem alterar a estrutura econômica capitalista), além de criticar os impactos da industrialização, como a poluição do meio ambiente.

A Terceira Via estaria relacionada a este projeto, sendo apropriada pela esquerda inglesa que se inspirou nas palavras dos sociólogos Anthony Giddens (Terceira Via) e Ulrich Beck (Sociedade de risco). É contra essa renovação da sociedade liberal capitalista, encabeçada pela segunda modernidade, que a extrema direita é contra, não ao comunismo. A direita de hoje chama essa renovação de comunismo ou de “marxismo cultural” porque se chamasse de liberalismo não seria convincente. O nome do partido que assumiu o governo no Brasil, Partido Social Liberal (PSL), é exatamente o oposto do que propõe a sigla. É o liberalismo social sustentado pela Terceira Via que o governo brasileiro tanto condena.

A liberdade contra o capitalismo

O contexto é muito adverso do da Guerra Fria. O inimigo não é mais o comunismo, mas a ampliação da liberdade dentro dos horizontes permitidos pela sociedade liberal capitalista. E como essa ampliação ameaça o próprio capital (e, por isso, a Terceira Via é uma “utopia” maior que o próprio comunismo), a extrema direita entra em campo com os seus cães de guarda.

Enfim, o governo brasileiro está sendo atacado e criticado por diversos setores da sociedade (principalmente da classe média) não porque seja contra a esquerda radical (ou o comunismo como preferir), mas porque é contrário a essa pós-modernização da sociedade liberal capitalista. É isso que transforma alguns setores da classe média num grupo (jamais classe) antagônico ao governo.

A burguesia foi seduzida por esse discurso da direita porque acredita na radicalização do capital para salvar suas fortunas. Para impedir a redução de seus lucros precisa do sequestro da propriedade dos mais fracos, das liberdades, submetendo as outras classes à necessidade de se venderem para ter um acesso ínfimo à riqueza social produzida. A valorização excessiva da propriedade amplia a grande propriedade e devora a pequena, alcançando níveis subatômicos da sociedade, apropriando-se, draconianamente, das liberdades individuais e privando, até mesmo, o livre tráfego dos corpos, como vimos no assassinato da menina Ághata Félix no Rio de Janeiro. Além disso, casas humildes são invadidas nas comunidades em meio aos tiroteios, o que nos faz pensar em que tipo de propriedade é valorizada.

Ser o que se quer é um entrave para a sociedade capitalista, já que para o seu desenvolvimento, ela precisa obrigar os indivíduos sem capital a vender sua força de trabalho para poderem sobreviver. As classes dominantes precisam ser proprietárias da força de trabalho alheia. Logo, se as pessoas se transformam, obrigatoriamente, em propriedade alugada (mediante o salário), a liberdade está condenada, limitada, já que, como vimos, liberdade e propriedade pertencem a extremos opostos na sociedade capitalista.

Os setores da classe média que apoiam essa tragédia que se transfigurou em farsa não sabem que estão pondo em risco a si próprios (não como classes médias, mas como seres relativamente autônomos). A classe média, seduzida pela condição de classe média, escolhe perder a dignidade para se manter em uma condição superior a dos pobres. Mas não sabe que a única forma de sair dessa lógica viciosa é pela liberdade. Portanto, a liberdade pode colocar em xeque a classe alta que, por sua vez, transforma tudo em propriedade, menos a si mesma, para desfrutar livremente da riqueza que expropria dos outros.


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