quarta-feira, 30 set 2020
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A esquerda não deve ter ódio do pobre de direita, mas consternação

Leia na coluna de Raphael Fagundes: "Da consternação, do profundo pesar decorrente da ignorância programada que induz os pobres a pensarem de forma equivocada agravando ainda mais sua pobreza, nasce o sentimento de camaradagem e de solidariedade. Estes são os afetos que devem prevalecer nesta comunidade emocional"

De acordo com o neurocientista António Damásio, “sentimentos dolorosos e sentimentos prazerosos, dos vários graus de bem-estar aos de mal-estar e doenças, foram catalisadores dos processos de questionar, entender e solucionar problemas”.[1] Isto serve tanto para a vida das bactérias quanto para a vida cultural dos seres humanos.

Partindo da noção de “comunidade emocional”, trabalhado pela historiadora Bárbara H. Rosenwein, procuraremos (em relação à esquerda) “desvendar os sistemas de sentimento, estabelecer o que essas comunidades (e os indivíduos em seu interior) definem e julgam como valoroso ou prejudicial para si (…); as emoções que eles valorizam, desvalorizam ou ignoram; a natureza dos laços afetivos entre pessoas que eles reconhecem; e os modos de expressão emocional que eles pressupõem, encorajam, toleram e deploram”.[2]

Desde meados da década de 1940, as elites brasileiras se dedicam a denegrir a imagem do Estado. Tendo como principal representante a UDN, o discurso liberal (praticamente uma formação discursiva) investiu na ideia de que o Estado é o principal vetor da corrupção.[3] O político é corrupto.

Deste modo, o político “menos corrupto” seria aquele que trabalha para diminuir a interferência do Estado na economia, difundindo a ideologia liberal de que ao se libertar a relação capital/trabalho da intervenção do Estado, a corrupção diminuirá e até mesmo se extinguir.

Embora não haja, em nenhum lugar do mundo, comprovação documentada de que essa ideia realmente funcionou na prática, ela conduz o discurso da direita até os dias atuais.

Este discurso é elitista. A política de Vargas, marcada por grande intervenção estatal na relação capital/trabalho, teve como o principal beneficiado os trabalhadores. Embora, é preciso dizer, que uma burguesia nacional também se fortaleceu no processo.

Com a intervenção estatal, os trabalhadores adquiriram uma proteção legal com o Ministério do Trabalho e com a Consolidação das Leis Trabalhistas. Após a queda de Vargas, manteve-se uma economia moral entre as classes trabalhadoras que buscava defender a realização e cumprimento dos direitos resguardados em lei. O próprio PCB apoiou Vargas nas eleições de 1950, pois sabia que seria impossível ser contrário a essa economia moral que tinha como seu principal representante o “pai dos pobres”.

Contudo, o discurso de direita, elitista, no conflito básico que marca as sociedades capitalistas modernas, isto é, entre capital e trabalho, precisava defender o capital de qualquer forma. Deste modo, criou a ideologia de que o Estado é o único corrupto e o mercado é Santo, singular na capacidade de tornar transparente, neutro, os interesses de classe.

Os primeiros convencidos por este discurso foram as classes médias, muito mais vulneráveis aos valores (por ter suas necessidades básicas, de certa forma, resolvidas) que os trabalhadores pobres, isto é, o proletariado. A suposta luta contra a corrupção, que também se relaciona à degeneração dos valores morais (o discurso anticorrupção sempre resgata o discurso antidesmoralização), seduziu os diversos setores da classe média que sempre almejou se identificar mais com a burguesia desprezando, soberbamente, os oprimidos.

Assim, esse discurso anticorrupção, que se fundiu com a ideia de Estado mínimo, ocultando, por sua vez, ser antioperário, atraiu muitos, principalmente, quando conseguiu misturar o moralismo da classe média com a religiosidade, seja católica ou protestante.

O golpe civil-militar de 1964 ocorreu porque esse discurso não conseguiu cooptar, de forma satisfatória, a classe trabalhadora. Movimentos operários se fortaleceram, as Ligas camponesas também. Além disso, políticos provenientes da classe operária e portadores de uma consciência de classe estavam conquistando cargos no Legislativo e até mesmo no Executivo.

Como não havia a disposição mecanismos tão sofisticados de alienação, como temos hoje, a força bruta foi necessária para impor este projeto de poder das elites. O objetivo era de fato enfraquecer a economia moral que defendia a ação de um Estado que intermedeia a relação capital e trabalho para erguer a ideologia do crescimento econômico.

Mas a ditadura acabou e entregou um país destruído aos civis e, ainda por cima, não extirpou, de uma vez por todas, a velha economia moral. As lutas sociais desencadearam na Constituição de 1988. Um marco para a visão progressista em vários setores da sociedade brasileira. A partir de então, o neoliberalismo travou uma luta com o documento que assegura vários direitos.

Hoje, com os diversos dispositivos de comunicação, redes sociais, compartilhamento de vídeos etc.., com o aumento da classe C, o aumento do consumo devido à facilidade do crédito, acesso aos serviços informatizados, etc., uma ditadura tornou-se dispensável. Nunca foi tão fácil formatar a opinião pública.

As formas de cooptação dos que possuem o controle das mídias é muito maior que de outrora. O investimento no discurso anticorrupção/moralismo ganhou um terreno fértil. A Globo lançou o discurso udenista e a extrema direita complementou com o moralismo.

O arrefecimento das lutas operárias em prol das lutas identitárias ajudou no fortalecimento do discurso moralista. O discurso de demonização da esquerda, afirmando que nela estaria a origem de toda a corrupção, facilitou o ataque moralista contra os progressistas, já que o discurso anticorrupção sempre esteve próximo ao moralismo pequeno-burguês. Ou seja, se a esquerda é corrupta (diz a grande mídia), logo seus valores são degenerados (diz as mídias alternativas manipuladas pela extrema direita). A nefasta união que aliena, na atualidade, a sociedade brasileira.

O pobre de direita não sabe que ao compartilhar da ideia de que todo político é corrupto, compartilha também da ideia de que o Estado é corrupto. É parte do pacote. Menos ainda que tal raciocínio tem como objetivo prejudicar o trabalhador, já que com o enfraquecimento do Estado, os direitos trabalhistas ficam em risco. Além disso, a mídia não explica sequer as consequências deste processo. Ela está ao lado do Capital e, consequentemente, em oposição ao trabalho.

Não é uma questão de superioridade, mas o sentimento de consternação que brota na esquerda é semelhante ao de Cristo em relação aos romanos: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. O trabalhador não sabe que está sendo contra a si mesmo quando apoia a luta contra o Estado.

Até nos países desenvolvidos que dizem ser guardiões do livre mercado, o Estado interfere na economia. As nações marcadas com menores desigualdades sociais têm uma grande participação do Estado, inclusive com uma imensa quantidade de servidores públicos.

Saber é poder. Deste modo, as classes dominantes fazem de tudo para ocultar o conhecimento que prejudicaria seu projeto de poder. Controla o acesso. Querem até taxar livros!!! E, assim, coloca os membros da mesma classe social uns contra os outros, forjando polaridades no interior da classe trabalhadora, incentivando a opinião manipulada como se fosse liberdade de opinião.

Portanto, o sentimento que deve guiar a esquerda não é o ódio contra o oprimido, neste caso, o pobre de direita, mas o de consternação. O ódio que move a esquerda não é contra pessoas, mas contra o capital, contra um sistema econômico que tira da maioria para enriquecer uma minoria. É o sistema capitalista que deve ser aniquilado.

Da consternação, do profundo pesar decorrente da ignorância programada que induz os pobres a pensarem de forma equivocada agravando ainda mais sua pobreza, nasce o sentimento de camaradagem e de solidariedade. Estes são os afetos que devem prevalecer nesta comunidade emocional. Se for necessário dar a outra face, porque não? Mas é sempre necessário trazer para o debate os gestores dos sentimentos dominantes, das ideias dominantes, isto é, as classes dominantes que forjam emoções e afetos para promover seus interesses.


[1] DAMÁSIO, A. A estranha ordem das coisas. São Paulo: Cia das Letras, 2018, p. 21.

[2] ROSENWEIN, B. História das emoções. São Paulo: Letra e voz, 2011, p. 22.

[3] ÂNGELO, Vitor de. Corrupção, uma velha senhora. In: DEL PRIORE, M. e MÜLLER, A. História dos crimes e da violência no Brasil. São Paulo: Edunesp, 2017.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

Raphael Silva Fagundes
Raphael Silva Fagundes
Doutor em História Política na UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.