Raphael Silva Fagundes

15 de julho de 2019, 06h00

A mídia convencerá o povo a apoiar as privatizações, como fez com a reforma da Previdência?

A retórica será a mesma: tapar rombos, aumentar recursos, diminuir gastos etc.. Mostrarão números, alguns reais, outros inventados, mas a solução será apenas uma: privatizar

O próximo projeto manipulador da mídia será convencer a população a defender as privatizações. Com a cara de pau de afirmar que os deputados que votaram a favor da reforma da Previdência pensaram no futuro do país, os analistas econômicos e os jornalistas da grande imprensa ocultam o fato de o governo ter liberado 1,13 bilhão em emendas para comprar os parlamentares.

Vejamos outro ponto: na mesma semana da votação da reforma, a mídia publica a eficiência de sua máquina manipuladora:  “47% apoiam a reforma e 44% são contrários”, de acordo com pesquisa realizada pelo Datafolha. Até abril 51% eram contrários à reforma.

Para consolidar seu plano manipulador, a imprensa construiu a ideia de que aqueles que são contrários à reforma só o são porque odeiam Bolsonaro e não por uma questão lógica e econômica. Contudo, busca-se esconder o fato de que os economistas contrários à reforma propõem outras formas de arrecadação, ligada ao aumento dos impostos das grandes empresas, redução de juros, agir com mais afinco à sonegação de impostos, corte dos privilégios do alto escalão do judiciário e outros caminhos que não prejudiquem a classe trabalhadora.

Mas a mídia diz que tudo não passa de uma birra com o governo Bolsonaro, ideologia partidária. O voto da deputada patrocinada por empresários de peso, Tabata Amaral e, por conseguinte, sua declaração, alimentaram ainda mais esse discurso midiático. Ciro Gomes, com uma formação em economia muito mais avançada que a parlamentar, foi visto como menos coerente que a jovem de 24 anos que jura não ter sido comprada.

E agora, quais serão os mecanismos para defender as privatizações? Como a imprensa vai fazer o povo acreditar que somente as privatizações resolverão os nossos problemas? Até o início do ano, 60% da população rejeitava a política de privatização das estatais, de acordo com pesquisa da mesma Datafolha. Mas, se a mídia conseguiu convencer que seria melhor para o cidadão perder seus direitos, o que fará em relação a elementos coletivos, nacionais?

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A retórica será a mesma: tapar rombos, aumentar recursos, diminuir gastos etc.. Mostrarão números, alguns reais, outros inventados, mas a solução será apenas uma: privatizar. Os veículos que apresentam soluções menos prejudiciais ao patrimônio nacional não terão voz. Professores e especialistas que trabalham há anos com o tema, não terão força contra as afirmações de Miriam Leitão, Carlos Sardenberg e Merval Pereira, marionetes do mercado financeiro.

Os economistas que falam nos grandes canais de TV e rádio pensam na estabilidade do mercado financeiro a qualquer custo. Sacrificam a vida humana para isso (ou fingem defender a ovelha deixando a porta aberta para o lobo poder entrar). Aliás, não dão margem para se pensar que a estabilidade financeira, em diversas situações, nada tem que ver com o bem-estar social.

Fomos treinados a pensar que a crise social é sempre uma consequência da crise econômica. No entanto, a economia capitalista tem seu próprio ciclo. A rotação do capital está relacionada ao tempo de trabalho e ao tempo de circulação da mercadoria; ao processo de transformação do produto em capital monetário que retorna às mãos do capitalista. Provoca-se fome, crises, miséria para manter essa circulação de maneira que o capitalista possa tirar do mercado sempre mais do que aquilo que colocou. Além disso, há sempre o interesse empresarial em ganhos de produtividade, ou seja, produzir cada vez mais com cada vez menos trabalho. Portanto, a economia, em muitos casos, gera fome para se expandir e ampliar o seu lucro. O Brasil já foi uma das maiores economias do mundo ao mesmo tempo em que possuía a maior concentração de renda, índices de violência altíssimos e uma enorme multidão de miseráveis.

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Entretanto, a mídia, único caminho pelo qual as pessoas tem acesso a uma fagulha da macroeconomia, manipula facilmente a população a ter um pensamento econômico como o dela. Quanto ao pensamento político, há uma margem maior de liberdade, embora as grandes corporações midiáticas tenham se esforçado bastante para reduzir a política a uma única palavra: corrupção.

Ela não traz à tona o fato de que o fim dos nossos direitos é uma maneira de colocar na conta da população o prejuízo que a corrupção que vários políticos, mancomunados com empresários, praticaram. Nós pagamos o preço. A reforma Trabalhista, a da Previdência e a as privatizações têm também um pouco disso, embora a questão central seja a necessidade de ampliar os lucros dos investidores no processo de circulação do capital.

A opinião pública possui um problema sério. Rousseau a vinculava aos “costumes”, à herança do passado ou às criações espontâneas, nunca, certamente, como o resultado de uma discussão política. Por seu turno, Hegel a entendia como um conjunto acidental de modos de ver subjetivos que possuem uma generalidade meramente formal, incapaz de atingir o rigor da ciência. O cientista político Nicola Matteucci acredita que há dois fatores que prejudicam a formação de uma opinião pública autêntica: “de um lado, o eclipse da razão que, para demonstrar sua legitimidade, tem que demonstrar ser útil praticamente e tecnicamente avaliável para o bem-estar…; de outro, à ‘indústria cultural’ que transforma as criações intelectuais em simples mercadoria destinada ao sucesso e ao consumo, sendo o desejo da glória suplantado pelo dinheiro”. Soma-se a isso o fato de que pensar a política (e a economia), refletir a partir de seus teóricos etc., acaba não se tornando algo viável em uma sociedade de consumo imediatista, o acesso a teoria fica para aqueles que “tem tempo”. Ou seja, ela é negada a maior parte da população presa às necessidades da vida cotidiana.

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Portanto, o povo não irá compreender sozinho que as classes dominantes não querem o seu bem (como uma reforma proposta pelos privilegiados irá beneficiar os trabalhadores?), não entenderá que o seu inimigo (economicamente falando) é o opressor e não oprimido. A manipulação serve de bloqueio para a compreensão de toda essa realidade. Não que o povo não saiba o que faz. Não que o povo seja as pessoas incultas como acreditava Herder na distinção que fazia entre Kultur der Gelehrten e Kultur des Volkes. O fato é que a manipulação da informação não ajuda na formação de uma interpretação popular autêntica.

Phillipe Breton pergunta: “O público tem consciência, hoje, de ser objeto de múltiplas tentativas de manipulação?” E atenta para as técnicas usadas por políticos demagogos e empresas, que aumentaram nos últimos anos, mas são “amplamente subestimadas”. “Manipular, escreve Breton, consiste em construir uma imagem do real que tenha a aparência de ser o real”.

A ideia ingênua de que em uma democracia não há manipulação, fez com que suas técnicas aumentassem exponencialmente. É preciso “reconhecer que muitos empreendimentos que visam convencer são efetivamente marcados pelo selo da manipulação” e que “toda comunicação é influência e manipulação”. Estamos no reino da dissimulação. Portanto, as classes trabalhadoras precisam de instrumentos capazes de fornecê-las uma visão para além da ilusão proveniente da manipulação da opinião pública. Algo autêntico, que defenda seus interesses, que venha de seu interior.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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