Raphael Silva Fagundes

30 de setembro de 2019, 23h49

A política de destruição em massa

O objetivo desta política é apenas um: destruir as instituições para gerar um vazio de poder que deve ser preenchido pelos militares

Bolsonaro durante desfile dos Artilheiros da Reserva, da Ativa e de Alunos da Escola Militar em Santa Maria (RS) (Foto: Alan Santos/PR)

O governo atual adotou uma estratégia de demolição. Não produz nenhum argumento que legitime tecnicamente as atitudes que toma, as medidas que aprova, apenas tem o objetivo de destruir a esquerda e, consequentemente, o seu legado.

As políticas adotadas nos anos anteriores são desvalorizadas. Não importa as vantagens que elas trouxeram, apenas que foram uma realização da esquerda, o que as torna impróprias. Se a havia uma política ambiental, de atendimento aos pobres, de fortalecimento da iniciativa privada, enriquecimento dos bancos etc., nada importa. Tudo se transforma em discurso para ser utilizado em algum momento contra a esquerda.

Mas não apenas a esquerda deve ser desmoralizada. Tudo precisa ser demolido. A imprensa é execrada pelos “novos” governantes. O STF é depreciado a cada dia que passa. O Congresso é visto como um óbice para as mudanças desejadas pelo governo. Enfim, a própria democracia é posta em xeque.

O objetivo desta política é apenas um: destruir as instituições para gerar um vazio de poder que deve ser preenchido pelos militares. Sendo uma das instituições mais confiáveis em meio à população, criou-se desde o golpe de 2016 uma valorização descomunal das Forças Armadas. Primeiro com a intervenção no Rio de Janeiro, mostrando que tal segmento traria segurança à população (e trouxe?). Mesmo com a saída das tropas, deu-se seguimento à política militarista de guerra pelo governador Wilson Witzel.

Em seguida, os militares entraram na política com o discurso de que são incorruptíveis. Já o golpe final será dado com o aparelhamento da educação, visto que o projeto do  Ministério da Educação é a militarização das escolas.

Promove-se assim uma política de destruição em massa. Nela, diversos indivíduos saem prejudicados. Dos povos indígenas, passando pelos estudantes universitários até os moradores das favelas que dormem e acordam em meio aos tiroteios.

É uma política que se interessa pela morte. O discurso de ódio que exalta a violência e a humilhação é a manifestação linguística dos próprios agentes do governo. E é uma retórica militar, uma retórica que precisa demonizar o inimigo para que o soldado esteja mais encorajado à luta, a dar sua vida pela causa.

A retórica da guerra não inclui elementos construtivos, tudo está relacionado à destruição. Hitler hipnotizava multidões afirmando ser necessário exterminar comunistas e submeter as outras nações. Os EUA, quando decretaram guerra contra os nazistas, promoveram um discurso violento e destruidor. Até um herói superpoderes destrutivos foi criado, encenando socos e chutes no chanceler alemão.

Essa retórica de guerra precisa ser acompanhada de elementos salvacionistas. Por isso, Bolsonaro se alinhou aos grupos religiosos que mais crescem no Brasil: o pentecostalismo. Aqui também não há princípios construtivos, mas apenas a destruição dos aspectos morais que supostamente estão contaminando a sociedade. Salvar alguma coisa implica em retornar a uma condição sem ameaça, logo forja-se um discurso conservador.

Portanto, a política de destruição em massa adotada pelo governo se apoia na retórica de guerra, produzida, melhor do que ninguém, pelos militares que assumiram protagonismo no país; e na retórica salvacionista produzida e sustentada pelos pastores das igrejas pentecostais e neopentecostais.

Quando iremos entender que um projeto de país envolve construção e não destruição? Quando será escrito um artigo que tenha como título: “a política de construção em massa”? Talvez, somente quando o projeto econômico que essa política de destruição em massa esconde for evidenciado e criticado com mais clareza, destacando o seu caráter perverso e devastador.


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