quarta-feira, 28 out 2020
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A popularidade de Bolsonaro: precisamos voltar ao materialismo histórico

Leia na coluna de Raphael Fagundes: Se é verdade que a popularidade de Bolsonaro aumentou, nos últimos meses, por conta do auxílio emergencial, somos inclinados a acreditar que as necessidades econômicas são um fator chave para dar condição a uma determinada escolha política

Não foi apenas Karl Marx que acreditava que “o modo de produção da vida material  condiciona o desenvolvimento da vida  social,  política e intelectual  em  geral”. Sigmund Freud também pensava da mesma maneira e dizia que “o móvel da sociedade humana é, em última análise, econômico”.[1]

Se é verdade que a popularidade de Bolsonaro aumentou, nos últimos meses, por conta do auxílio emergencial, somos inclinados a acreditar que as necessidades econômicas são um fator chave para dar condição a uma determinada escolha política.

A esquerda vem se dedicando aos elementos morais, identitários, etc.. Lutas justas, evidentemente, mas descartam o elemento econômico como base do processo histórico. As discussões sobre gênero, liberdade de expressão, racismo etc., promovidas pela esquerda e transmitidas pelas corporações Globo, precisam ser levadas em conta, devem ser trazidas para o debate público, contudo, elas não são capazes de abalar a estrutura do governo Bolsonaro.

Para tirar o PT do poder foi feito toda uma manobra jurídica, prendendo Lula e, moralista, com a ascensão da extrema direita, mas o fundamental foi a crise econômica. A crise na Petrobras, fruto de elementos internacionais e da destruição de empresas em vez de punir a Pessoa Física dos infratores, gerou uma grande quantidade de desempregados.

A partir das condições econômicas todo um projeto superestrutural foi forjado oportunamente para destruir a esquerda. Para afundar o país nas trevas de um moralismo que lembra o mundo medieval foi preciso aumentar a pobreza e colocar o Brasil novamente no mapa da miséria.

A classe média pode até ser mais vulnerável ao moralismo pequeno-burguês, tanto para esquerda quanto para a direita. Contudo, o proletariado, ou melhor, a ralé, como se refere Jessé Souza, está muito mais preocupada em conseguir ter o seu pão garantido.

A mídia investiu intensamente na ideia de que quem promoveu a crise econômica foi o PT. Encantou a Lava Jato e seus métodos espúrios enquanto a verdadeira razão da falência de diversas empresas, que geravam empregos, foi omitida.

Indignados pela condição econômica que o sistema propositalmente os lançara, diversos trabalhadores foram cooptados pelo discurso reacionário que assegurava que combateria a corrupção, razão, segundo este mesmo discurso, da crise econômica, da penúria dos lares.

Não importa se Bolsonaro odeia jornalistas, se incentiva o desmatamento, se é troglodita etc., o povo quer ter suas necessidades básicas resolvidas. Primeiro é preciso existir para somente depois pensar. Ou como dizia Marx, “não é a consciência  dos homens que determina o seu  ser;  é o seu ser social que,  inversamente,  determina  a  sua consciência”.

A maneira pela qual a Globo critica o governo não surte efeito algum entre os populares, autônomos, desempregados e pequenos empreendedores, que passam por uma grande dificuldade por conta da pandemia. Se falam que Bolsonaro mente, esconde a realidade, a grande mídia, por sua vez, quando não menospreza, esconde o mundo real, as necessidades econômicas das pessoas desprivilegiadas. Uns não veem as imagens de satélites, outros a labuta diária do povo pobre.

Critica-se o governo por negligenciar os recursos da União, afirmando que não há dinheiro no caixa. Ou seja, a imprensa contesta a permanência do auxílio emergencial, ou de uma renda mínima, usando números orçamentários que atendem os interesses do mercado sem mostrar qualquer solução para as camadas populares.

Enquanto isso, o povo fica com o que lhe resta, no caso, a renda que o governo Bolsonaro lhes proporciona. As palavras da Globo não fazem frente aos 600 ou 300 reais depositados na conta de quem está sofrendo. É muita ingenuidade acreditar (e me parece que boa parte da esquerda pensa desta maneira) que meros discursos possam alterar o pensamento das pessoas. A mente é alterada a partir das condições reais de existência. Este é o básico do materialismo histórico.

Tanto Marx (principalmente nos diálogos com Engels[2]) quanto Freud tentam amenizar suas afirmações categóricas em relação à economia, talvez para não parecerem deterministas demais. Foram muitos os debates acadêmicos sem relação ao “materialismo vulgar”. Muitos professores e pesquisadores atacaram o marxismo por esta questão. Contudo, principalmente no modo de produção capitalista, não há como negar o protagonismo econômico na formação ideológica das pessoas.


[1] HILARIO, Leomir C. A  sombra marxiana em Freud, ou o descompasso constitutivo de um encontro. Psicologia & Sociedade; 26(3),  540-551, 2014.

[2] Ver: ANDERSON, P. Linhagens do Estado absolutista. São Paulo: Brasiliense, 2004, p. 238.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

Raphael Silva Fagundes
Raphael Silva Fagundes
Doutor em História Política na UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.