Raphael Silva Fagundes

03 de março de 2020, 22h48

A sinceridade tóxica

"É entendido como sinceridade a arrogância, a forma bruta de dizer carregada de agressão e conflitiva. Falar de forma mansa, usar elementos brandos na eloquência, passou a ser encarado como uma “fala mole” que pretende enganar o ouvinte. É o império da aspereza"

Reprodução

“Manipular consiste em construir uma imagem do real que tenha a aparência de ser o real”. Phellipe Breton

Existe um elemento da pós modernidade que precisa ser observado: o valor que as pessoas dão à sinceridade. 

Em um mundo infestado de signos, representações, apropriações, fake news etc., as pessoas são atraídas cada vez mais pela sinceridade encarada por elas como um elixir libertador.

Mas, na verdade, estas pessoas estão sendo hipnotizadas pelo o que entendem como sinceridade. E foram adestradas a enxergar como sincero tudo aquilo que os veículos que consideram produtores de um discurso falso, manipulador, como a mídia, os políticos, pastores etc., não diziam.

Contudo, o conteúdo (visões antes negadas, lançadas no submundo) é legitimado mais pela maneira de expressá-lo que por sua autenticidade. 

É entendido como sinceridade a arrogância, a forma bruta de dizer carregada de agressão e conflitiva. Falar de forma mansa, usar elementos brandos na eloquência, passou a ser encarado como uma “fala mole” que pretende enganar o ouvinte. É o império da aspereza.

O verdadeiro passou a ser o bruto, o violento, o troglodita. Se antes o discurso baseado na ciência, nas pesquisas guiadas por métodos científicos, era considerado verdadeiro, hoje, o discurso daquele que fala sem pensar, sem filtro, forjando firmeza na própria postura, tornou-se incontestável, pois é sincero. Voltamos às técnicas “pré-modernas” da retórica. A verdade está mais próxima do etos sincero que do fato.

Deste modo, a sinceridade não se encontra no assunto abordado, no tema debatido, mas na maneira pela qual ele é dito. A sinceridade não está no enunciado, mas na enunciação.

Hoje um político que diz que o povo é burro e que não sabe votar ganharia mais votos que aquele que diz que o povo é inteligente. Dizer que o povo é preguiçoso é mais sincero que dizer que ele é trabalhador, ou vítima da exploração de classe. É mais verdadeiro dizer que a razão das enchentes e alagamentos é fruto dos maus modos ou do desleixo da população que da falta de um projeto de urbanização do Estado.

Essa é a sinceridade tóxica. Uma espécie de estratégia retórica usada por lideranças políticas, youtubers, pastores, formadores de opinião em geral, que se aproveitam de uma condição pós moderna que agoniza em meio ao excesso de realidades.

A extrema direita vem se apropriando deste tipo de retórica, e por meio dessa sinceridade libera o racismo, o elitismo, o machismo preso na garganta desse grupo político reacionário. E deste modo contamina toda a sociedade que já não confia mais nas formas habituais de circulação do discurso.

A sinceridade se tornou sagrada no meio de um mundo que investe na falsidade, na manipulação, como sempre fizeram as corporações midiáticas, os políticos manipulados pelos capitalistas etc.. E essa ânsia das pessoas por ouvir a sinceridade, ou seja, um discurso negado pelos veículos tradicionais, os mesmos que hoje execram, fez com que algumas pessoas pretendentes à liderança adotassem as formas eloquentes da sinceridade para mentir, para excluir e para manipular os outros da mesma forma que a antiga eloquência fazia.

Deste modo, repetindo as palavras de Phellipe Breton, “se constrói de modo artificial uma mensagem em função unicamente de sua capacidade de obter a todo custo a adesão das pessoas”. No nosso mundo, que não sei mais se é realmente o melhor dentre os outros, a sinceridade tóxica é o tal modo artificial lembrado pelo autor.

Se o grande mal da pós modernidade se encontra no conflito entre ansiedade e segurança ontológica, como demonstra Zygmunt Bauman, a sinceridade tóxica se apresenta como uma resposta. Torna-se a escolha certa no meio de tanta coisa para se escolher. Tornar-se um lugar de segurança, pois aquele que é sincero ofereceria, em tese, a escolha certa, sem dúvida, sem enganação.

É de extrema importância que a esquerda denuncie essa sinceridade tóxica, desvende-a, e resgate uma retórica política que foque na esperança, na solidariedade e combata toda a farsa que esconde a luta de classes existente no cerne do capitalismo.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum