Raphael Silva Fagundes

19 de maio de 2020, 17h55

As origens capitalistas do trabalho fora de casa

"Antes, o servo tinha acesso direto aos meios de produção. Cultivava sua horta, seu pasto, fazia sua própria roupa etc. Existia mais-valia somente quando o camponês era obrigado a trabalhar gratuitamente para o senhor feudal"

Foto: Jorge Araújo/ Fotos Públicas

Em meio à pandemia do coronavírus, muitos empresários adotaram o trabalho remoto, permitindo que a atividade laboriosa de seus funcionários pudesse ser ministrada de casa.

Mas, até o século XVIII, a maior parte do mundo ocidental trabalhava em casa. Embora houvesse as feiras, artistas de rua etc., a maior parte da sociedade era feudal. E, no feudalismo, as pessoas possuíam um pedaço de terra cedido pelo senhor feudal, no qual trabalhavam para produzir o seu sustento, vestimenta, etc..

Além desses camponeses havia o artesão que trabalhava por encomenda, fabricando produtos em sua oficina caseira.

Deste modo, o trabalho misturava-se a vida cotidiana, situação que será alterada a partir da Revolução Industrial. O historiador Edward Thompson destaca que as “sociedades industriais maduras de todos os tipos são marcadas pela administração do tempo e por uma clara demarcação entre o ‘trabalho’ e a ‘vida’”.[1]

Nas últimas páginas do segundo volume do primeiro livro de O capital, Karl Marx explica que, para existir capitalismo, foi necessário que um grande número de pessoas fosse privado dos meios de produção (terras, ferramentas, máquinas etc.) e obrigado a se vender a um pequeno grupo, que, por sua vez, passou a ter a posse dos instrumentos de produção.

Antes, o servo tinha acesso direto aos meios de produção. Cultivava sua horta, seu pasto, fazia sua própria roupa etc. Existia mais-valia somente quando o camponês era obrigado a trabalhar gratuitamente para o senhor feudal periodicamente. Um modelo que lembra os dias atuais marcados pela crise do Covid-19, em que alguns funcionários vão de tempos em tempos às empresas que trabalham para evitar aglomerações.

Foi nesse momento, meados do século XVIII, que ocorreu o pecado original da economia. “A lenda teológica conta-nos que o homem foi condenado a comer o pão com o suor de seu rosto.” Marx nos mostra como “a lenda econômica explica-nos o motivo por que existem pessoas que escapam a esse mandamento divino”.

Os pequenos produtores tiveram suas terras roubadas, expropriadas violentamente, pelo grande proprietário que os expulsou de seus lares. Foi deste modo que os trabalhadores ficaram sem os meios de produção, isto é, as terras e as ferramentas necessárias para produzir seus alimentos, vestimentas etc.

“A expropriação e a expulsão de uma parte da população rural liberam trabalhadores, seus meios de subsistência e seus meios de trabalho, em benefício do capitalista industrial; além disso, criam mercado interno.”[2] Privados dos meios de produção, os trabalhadores são incapacitados de produzir sua subsistência, sendo forçados a se transformar em consumidores. O mercado é criado dessa forma forçada, em que uma parcela da população é obrigada a vender sua força de trabalho para a outra.

“Antes, a família camponesa produzia e elaborava os meios de subsistência e as matérias-primas que eram, em sua maior parte, consumidos por ela mesma. Esses meios de subsistência e matérias-primas transformaram-se agora em mercadorias”, observa Marx.

Foram forçados a morar longe do lugar onde trabalham para conseguir dinheiro suficiente e comprar o que antes plantavam e costuravam, além de ter que pagar pela habitação que vivem com suas famílias. A partir de então os trabalhadores passaram a separar “trabalho” de “vida”, a não se importar com o que fabricam para pensar estritamente no salário que receberão no fim do mês e, enfim, a trabalhar fora de casa.

Como o capitalismo se comportará a partir do momento em que foi obrigado a reverter uma condição que ele mesmo criou? Qual será a consequência de trabalhar de casa remotamente sem ser dono dos meios de produção? Será que esta é uma condição que levará o capitalismo à ruina impulsionando os expropriados de outrora a exigirem de volta os meios de produção? Qual será o impacto de confundir novamente “trabalho” e “vida” em condições restritivas de lazer, já que estamos confinados em quarentena? Será que o retorno ao trabalho defendido pelos capitalistas que pressionam os governos também está relacionado aos impactos negativos para o capital que podem proceder do processo descrito aqui?


[1] THOMPSON, E. P. Costumes em comum. São Paulo: Cia das Letras, p. 300.

[2] Karl Marx, O capital: crítica da economia política: livro 1, v. 2, tradução de Reginaldo Sant’Ana, 30.ed., Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2012, p.860.


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