domingo, 20 set 2020
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Assassino!

O termo “assassino” tem uma relação direta com o fanatismo. Foi Marco Polo, que, de acordo com Georges Minois, escreveu sobre a “astúcia do ‘Velho da Montanha’, chefe da seita islâmica dos ‘Assassinos’: para formar combatentes fanáticos, ele os droga e faz acreditarem que estão no paraíso. De volta ‘à terra’, estão prontos a sacrificar a vida para reencontrar o mais rápido possível aquelas delícias”. De acordo com o historiador, esta história, “que não é de todo lendária, destina-se aqui a escandalizar os cristãos”.[1] Marcas de um povo que vive uma vida de austeridade para se obter a hipotética felicidade eterna.

Em 1809, Silvestre de Sacy escreve um polêmico artigo intitulado “Sobre a dinastia dos Assassinos e a origem de seu nome”. De acordo com Jean Marcel Carvalho França, o termo Assassins foi inventado por Sacy, a partir dessa história de Março Polo “e de uma derivação de haschischin (comedor de haxixe)”. Essa visão contribuiu para associar o consumo de Cannabis a “comportamentos antissociais”.[2]

De todo modo, o assassino estaria relacionado a alguma alienação, à alucinação fanática provocada pela religião ou pelo vício às drogas. A mente, nestas condições, jamais se encontra sóbria.

O governo Bolsonaro conseguiu promover um fanatismo que a sociedade brasileira jamais viu. E esse fanatismo, que cega muita gente, permitiu que as autoridades lidassem com a pandemia do Covid-19 de forma desleixada (propositalmente desleixada, diga-se de passagem) o que torna óbvia e lógica a atitude assassina dos nossos governantes.

“Fanático é um termo cunhado no século XVIII para denominar pessoas que seriam partidárias extremistas, exaltadas e acríticas de uma causa”, nos mostra a obra organizada pelos historiadores Jaime Pinsky e Carla Bassanezi Pinsky.[3] Essas causas podem ser políticas e religiosas, uma mistura que o governo atual condimentou com dosagens instigantes de ódio.

A Igreja (católica e protestante) matou milhões ao longo da história. Os fanatismos do século XX, decorrente do nazismo, também contribuíram para o extermínio em massa. Deste modo, podemos constatar, por meio da história, que todo fanatismo leva ao assassinato. Nem todo assassino é um fanático, mas todo fanático é um assassino em potencial.

Não digo o fanatismo individual, o fanático por futebol, por samba etc., mas o fanatismo político, o fanatismo institucional. O fanatismo promove, legitima e reproduz o assassinato. Não é por acaso que o governo atual defende o acesso facilitado às armas, tal projeto combina-se perfeitamente com o espírito fanático.

Sempre se cultivou a morte. Desde a campanha idolatra-se torturadores. Como alguém imaginou que Bolsonaro lidaria com a morte de mais de 100 mil pessoas? Será que houve alguém tão ingênuo a ponto de pensar que de um fanático um dia poderia emanar empatia? Uma vez disse que era necessário que morresse 30 mil para que os problemas do Brasil fossem resolvidos….

Voltaire dizia que “aquele que alimenta a sua loucura com a morte é um fanático”.[4] E o governo alimenta a loucura de que a economia deve vir primeiro que a saúde das pessoas, a loucura de que o conhecimento científico é falso, de que toda fala que não seja proveniente de bolsonaristas é mentirosa, entre outras loucuras, com a morte de milhares de brasileiros.

O assassinato de mais de 100 mil serviu apenas para alimentar a loucura deste governo que faz muito pouco para lidar com o problema, e segue afirmando que é necessário “tocar a vida”. Para além das diversas dificuldades pelas quais passa o povo brasileiro, ainda tem que viver sob uma autoridade que põe sua vida em risco.


[1] MINOIS, G. A idade de ouro: história da busca da felicidade. São Paulo: UNESP, 2011, p. 117.

[2] FRANÇA, J. M. História da maconha no Brasil. São Paulo: Três estrelas, 2015, p. 31.

[3] PINSKY, J. e PINSKY, C. (Orgs.). Faces do fanatismo. São Paulo: Contexto, 2013.

[4] VOLTAIRE. Dicionário Filosófico. São Paulo: Martin Claret, 2006, p. 218.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

Raphael Silva Fagundes
Raphael Silva Fagundes
Doutor em História Política na UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.