Raphael Silva Fagundes

27 de novembro de 2019, 23h10

Bipolaridade política: a cortina ideológica que encobre o projeto liberal

Raphael Fagundes destaca: “Nos últimos trinta anos, a democracia nunca correu tanto perigo”

Bolsonaro com Paulo Guedes e Onyx Lorenzoni - Foto: Carolina Antunes/PR

“A ideologia é um dos meios usados pelos dominantes para exercer a dominação, fazendo com que esta não seja percebida como tal pelos dominados” (1). Este procedimento vem sendo muito bem utilizado pelos governantes atuais, ao colocar entre o cidadão e o ultraliberalismo econômico, a polarização política.

O conflito entre esquerda e direita, que passou a habitar o espírito político dos homens e mulheres do país, não “representa” o “mundo real”, mas a relação entre nós, brasileiros, e este “mundo real”. Ou seja, tal ideologia está sendo alimentada e manipulada (como é habitual de toda ideologia) pelas classes dominantes para servir de ferramenta explicativa supostamente capaz de decifrar as contradições que abarcam as condições reais de existência dos cidadãos brasileiros.

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O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse, em uma entrevista à BBC, que a implementação da agenda “ultraliberal” seria a principal razão para crises e mobilizações sociais no Brasil e não a polarização política da sociedade.

Essa avaliação do tucano foi precisa, embora não tenha se aprofundado na dimensão retórica do conflito entre esquerda e direita no discurso do governo.

A polarização política, no governo atual, é usada como um dispositivo retórico acionado para explicar a insatisfação popular em relação às políticas “ultraliberais” da agenda de Paulo Guedes. Toda vez que a população vai à rua contra medidas que isam cortar gastos públicos, privatizações etc., logo a retórica de que é a esquerda a mandante de tais movimentos é acionada.

Esse mecanismo manipulador convence os que estão dominados pela ideia antiesquerdista, impedindo-os de ver a realidade por meio de outro ponto de vista, debilitando-os de fazer uma crítica ao ultraliberalismo.

O que aconteceu na Argentina, no Equador e no Chile, que levou milhões de pessoas às ruas contra as medidas neoliberais, será interpretado pelo governo brasileiro como movimentos manipulados pela esquerda. Deste modo, a ideia de que as medidas ultraliberais são antipopulares é obliterada a cada vez que se alimenta tal farsa discursiva.

É a retórica sendo usada pelo poder para fazer guerra, culpando liberdades de pensamento e de expressão para implantar um modelo político reacionário por meio da alienação.

A possibilidade de revolta no Brasil é maior que em qualquer outra parte da América do Sul, pelo simples fato da nossa Constituição, edificada por ampla participação social, ser claramente contrária ao ultraliberalismo. É uma Constituição que prioriza direitos sociais, liberdades individuais, elementos que o governo atual quer passar por cima para impor suas reformas. Não é à toa que vemos discursos contrários à Constituição e em defesa do AI-5.

O modelo neoliberal que vem sendo implementado desde os anos 1990, encontrou diversos óbices por causa da Constituição assinada em 1988. Contudo, por meio de mecanismos escusos, foi possível flexibilizar a mão de obra através de terceirizações e subcontratações. Nem o governo PT conseguiu conter este processo. Porém, devido à vitalidade econômica dos anos 2000, foi possível conciliar elementos neoliberais, com políticas sociais, um nível relativamente satisfatório de distribuição de renda e ampliação do acesso à educação (2). Mas com a crise de 2015, fortalecida pela Lava Jato, a aplicação da política neoliberal perdeu o suporte que aliviava seu caráter draconiano. Era necessário, portanto, uma nova roupagem.

O discurso radical contra a esquerda foi o método encontrado para continuar o neoliberalismo e, ainda, radicalizá-lo. O bolsonarismo e os empresários que apoiam o governo, apostaram no discurso radical de direita para implantar o ultraliberalismo. Por enquanto, esta retórica polarizante ainda tem um certo apoio popular, a questão é saber o quanto ela irá durar.

Será que as Forças Armadas estão de prontidão para o caso de haver uma distensão argumentativa? Caso a eloquência política do governo e de alguns parlamentares, baseada no ódio e na polaridade, perder o poder de persuasão, mecanismos ditatoriais serão acionados para a implantação do ultraliberalismo à força?

Pelos pronunciamentos dos principais componentes do governo isso é bem possível. A questão é saber se o governo pensa em recorrer às Forças Armadas enquanto o seu discurso manipulador ainda tem certa adesão popular, pois os tanques nas ruas teriam apoio da população, ou se vai esperar até o último momento, quando as ruas estiverem entupidas pela insatisfação popular.

Uma coisa é certa: nos últimos trinta anos, a democracia nunca correu tanto perigo.

(1)CHAUÍ, M. “O que é ideologia”. São Paulo Brasiliense, 1981, P. 36.

(2)RAMALHO, J. Ricardo. Reestruturação produtiva, neoliberalismo e o mundo do trabalho no Brasil: anos 1990 e 2000. In: FERREIRA, J. e DELGADO, L. (Orgs.). O Brasil republicano. Vol. 5. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018. p. 212.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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