Raphael Silva Fagundes

05 de maio de 2020, 22h49

Bolsonaro se prepara para dizer/fazer a próxima merda

Leia na coluna de Raphael Fagundes: “A crise econômica, a polaridade política, o discurso de ódio etc, são condições sine qua non para que Bolsonaro permaneça no poder”

Foto: Reprodução

Desde o filósofo inglês, John Austin, entende-se que o ato de “dizer” não é apenas o de transmitir certas informações sobre os objetos de que se fala, mas é também “fazer”, isto é, tentar agir sobre o interlocutor e mesmo sobre o mundo circundante.

Enquanto escrevo estas palavras, a equipe de assessoria de Bolsonaro está elaborando o próximo ato de fala do presidente, para que, através da repetição, mantenha seu ethos político perante os eleitores.

Tudo que Bolsonaro diz e faz é proposital para reproduzir as condições políticas e sociais que o elegeram, provocando um eterno looping temporal.

As asneiras que fala é para chamar seus eleitores a defendê-lo, ativando-os com frequência para que não deixem de pensar no mestre. O excesso é justamente para que seus seguidores não tenham tempo para refletir, pois, antes de pararem para pensar, são chamados novamente para defendê-lo nas redes sociais.

A repetição é a estratégia retórica mais simples para ampliar a presença do enunciado na cena de comunicação que envolve os ouvintes e o falante. Portanto, a repetição é considerada pelos estudiosos como uma figura que busca intensificar o sentido das questões apresentadas pelo orador com um consequente aumento do enunciado. É como ensinar uma criança…

O ethos político de Bolsonaro foi formado pela crise política que assola o Brasil desde 2013. Ele se apresentou como uma “nova” figura que iria colocar um ponto final aos distúrbios sociais e políticos. O seu principal argumento foi o de ser um indivíduo isento de corrupção, uma contrapartida à crise, já que todos os aparelhos de mídia concordavam que a razão da crise era a corrupção.

Também se colocava como um antipetista nato, outra contrapartida da crise, já que os aparelhos midiáticos convenceram grande parte da população de que a razão da crise era a administração malsucedida do Partido dos Trabalhadores.

Outro aspecto é a confiabilidade que a população tem para com o Exército. Essa é uma consequência do acordo que os militares fizeram no período da Anistia; libertaram os presos políticos em troca de não serem punidos pelos crimes hediondos que cometeram.

Desde a implementação da política neoliberal de privatizações, a carreira militar vem se consolidando como um sinônimo de emprego estável, de modo que grande parte dos jovens de classe média baixa, sonha em passar em um concurso e seguir o militarismo. Portanto, há uma relação muito mais de veneração que de oposição aos militares.

Esses elementos, ao lado de aspectos moralistas e religiosos, são repetidos intensamente pela retórica de Bolsonaro. Estes últimos elementos dão força à ideologia do politicamente incorreto, que faz seus seguidores se oporem a tudo que vêm do outro polo político.

Por exemplo, se os que são enquadrados como politicamente corretos defenderem o isolamento para conter o avanço do coronavírus, os assessores de Bolsonaro (olavistas por excelência) vão sugerir que ele se posicione contrário.

A partir dessas polêmicas que cria intencionalmente, alimenta a polaridade política e reproduz as condições que o elegeram. A crise econômica, a polaridade política, o discurso de ódio etc, são condições sine qua non para que Bolsonaro permaneça no poder.

Desse modo, ele precisa dizer as asneiras que diz, convocar seus seguidores a defendê-lo – o que é o mesmo que jogá-los contra algo -, enfim, reproduzir o mais do mesmo. É como se Bolsonaro tivesse implantado um chip nas pessoas, de maneira que, toda vez que o presidente fala, mensagens são enviadas para o córtex cerebral que as obriga a se manifestar.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum