Raphael Silva Fagundes

02 de junho de 2020, 22h42

Como a queda de Bolsonaro nos tornaria seres humanos melhores

Leia na coluna de Raphael Fagundes: Bolsonaro se tornou não apenas um problema social ou político, mas de saúde pública e científico, um óbice para a evolução humana. Seu culto ao caos promove o estacionamento das espécies

Foto: Reprodução

Alguns acreditam que ser contrário ao governo Bolsonaro é uma questão de ideologia. Mas existem motivações biológicas para nos posicionarmos contrários ao tirano que está no poder.

De acordo com o neurocientista António Damásio, o imperativo homeostático atua no processo de seleção natural promovendo a regulação da vida. Desde as células primitivas, este mecanismo busca manter o equilíbrio interno do organismo capturando os nutrientes do ambiente para sobreviver.

A homeostase faz com que seres sem cérebro, sem raciocínio, agrupem-se para enfrentar as diversidades da vida e, não apenas sobreviver, mas progredir. Não é o confronto que leva a evolução da espécie, mas a cooperação. Lembra o que o anarquista Piotr Kropotkin destacou sobre o ideal anarquista e evolucionário que chamou de “ajuda mútua”.

As bactérias procuram “familiares”, mas quando uma delas resolve não cooperar, é imediatamente eliminada do grupo para dar prosseguimento à luta pela vida. “Em outras palavras, bactérias traidoras são rejeitadas”[1], explica o neurocientista.

Stephen Hawking lembra que a Segunda Lei da Termodinâmica “afirma que, em qualquer sistema fechado, a desordem ou entropia sempre aumenta com o tempo”. Existem mais estados desordenados que ordenados provando que se o sistema evolui de acordo com as leis da ciência, seu estado mudará, sendo “mais provável que o sistema esteja em estado desordenado do que ordenado, porque há mais estados desordenados”.[2]

A homeostase e a história das religiões

A Segunda Lei da Termodinâmica nos remete às religiões que surgiram a milhares de anos. De acordo com as sociedades que as criaram, elas se situam “firmemente no centro do mundo ordenado”.[3]

Nestas religiões, o processo começa do caos para a ordem. Norman Cohn explica que “as partes relevantes da Bíblia foram coligidas e editadas num período bem tardio, entre 600 a. C. e 100 a. C. – e editadas, além do mais, para que se adequassem às crenças e experiências dos redatores”. Contudo, “a monarquia instalada em Jerusalém devia muito às antigas sociedades do Oriente”.[4]

Yahweh era um Deus entre os outros que atendiam as preces dos povos do crisol Sírio-palestino. Cada povo tinha um Deus tutelar. Yahweh, um dos filhos de El, era o cultuado pelos israelitas. Do mesmo modo como Marduk que era entronizado durante o aiktu, Yahweh também recebeu uma celebração “após a vitória contra as forças do caos”, antes do Genesis. De acordo com Cohn, “existem salmos que mostram Yahweh subjugando ao mesmo tempo as águas e os dragões, Leviatã e Raab”.[5]

Desta forma, os primeiros versículos do Genesis, onde há uma ordem estabelecida por Deus, vieram depois de uma batalha travada entre Yahweh e o caos. Ele instalou o mundo ordenado, o cosmos. Nestas religiões, a ordem se seguiu ao caos. São os deuses que garantem a estabilidade, impedem que a desordem retorne. Como entre os astecas que sacrificavam todos os dias um desgraçado, oferecendo o sangue humano para que o Sol nascesse novamente.

De acordo com Damásio, a homeostase é responsável por conter o desornamento inevitável, promovendo a regulação do organismo. Trata-se de um trabalho de cooperação adotado até mesmo por insetos, como é o caso das formigas.

Portanto, não são os deuses, Marduk, El ou Yahweh, mas o próprio imperativo homeostático que busca o equilíbrio. O caos é a Segunda Lei da Termodinâmica, a ordem, a homeostase.

A homeostase é os sentimentos

O ser humano, dotado de um sistema nervoso sofisticado, foi capaz de construir imagens das experiências vividas pelo seu organismo e pelo mundo em seu entorno, memorizá-las e ordená-las em uma narrativa que pode ser tanto verbal quanto não verbal, de qualquer maneira, criou uma linguagem para expressá-las. De acordo com Damásio, essa expressão é, em grande parte, realizada através dos sentimentos.

Os seres humanos se agruparam ao longo da história forjando sentimentos. A religião, a família, o ideal de nação etc.. O sociólogo Zygmunt Bauman diz que, na sociedade pós-moderna, a incerteza é gerada para os poderosos manter o controle, destruindo as antigas instituições que visavam limitar o grau de incerteza. Todos em uma “ação coletiva juntam-se ao coro neoliberal para louvar como ‘estado natural da humanidade’ as ‘forças livres do mercado'”.[6] O fato é que o ser humano cria ilusões linguísticas, sentimentais, para atender uma necessidade natural, a regulação do organismo em relação a sua destruição ou a sua sobrevivência.

Vivemos em um governo que preserva o caos. Por ter sido eleito em uma situação de caos, Bolsonaro prefere manter as circunstâncias que o levaram ao poder. Sente-se seguro. Cria inimigos o tempo todo, desunião, divisão entre seus seguidores e seus opositores, impedindo a cooperação de todos os lados. Discursos de direita contra Bolsonaro, discursos de esquerda contra Lula. É possível identificar esquerdistas, como o PSTU, seguir uma linha de raciocínio similar a de Bolsonaro. É um caos generalizado.

A própria atuação do governo no combate à pandemia do Covid-19 revela a sua posição contrária a evolução e o progresso do organismo. O ser humano, devido ao princípio homeostático, procura conter a Segunda Lei da Termodinâmica vencendo as adversidades do ambiente agrupando-se. Mas o governo busca a desarmonia, a desagregação. Não investe em pesquisas para combater a doença, adota medidas contrárias às propostas das organizações de saúde para diminuir a circulação do vírus etc.. Age de forma contrária ao equilíbrio homeostático, a regulação do organismo.

Promovendo a manutenção do caos, Bolsonaro cria mais sentimentos desagregadores que cooperativos, agindo para a promoção de uma homeostase negativa. Sentimentos negativos, de ódio, tristeza etc., cultuados por este sistema, “levam a estados perturbados da regulação da vida”. A homeostase positiva, que regula a vida com o objetivo de “fazer de nós seres humanos melhores, mais responsáveis pelo nosso futuro e pelos outros”[7], está sendo contida por uma necropolítica adotada pelo governo atual, reconhecida mundialmente.

Bolsonaro se tornou não apenas um problema social ou político, mas de saúde pública e científico, um óbice para a evolução humana (muitos bolsonaristas são criacionistas, diga-se de passagem). Seu culto ao caos promove o estacionamento das espécies, ou até mesmo, a sua aniquilação. Sua saída imediata do poder, e de todos os seus aliados, é uma necessidade fisiológica.


[1] DAMÁSIO, A. A estranha ordem das coisas: as origens biológicas dos sentimentos é da cultura. São Paulo: Cia das Letras, 2018, p. 29.

[2] HAWKING, S. Uma breve história do tempo. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015, p. 182.

[3] COHN, N. Cosmos, caos e o mundo que virá. São Paulo: Cia das Letras, 1996, p. 16.

[4] Id. P. 174

[5] Id. P. 177.

[6] BAUMAN, Z. Em busca da política. Rio de Janeiro: Zahar, 2000, p. 35.

[7] DAMÁSIO, A. Op. Cit. P. 163.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum


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