Raphael Silva Fagundes

03 de setembro de 2019, 22h15

Como deixar um idiota falando sozinho

Raphael Fagundes: “A esquerda precisa, portanto, subir o nível da discussão, retomando a dianteira da produção discursiva antissistêmica ao atingir o cerne da questão: a exploração capitalista”

Karl Marx - Foto: Wikimedia Commons

O maior erro da esquerda, ao abandonar o marxismo, foi virar as costas para uma questão central levantada pelo filósofo alemão e essencial na sociedade capitalista: a base econômica.

Embora não tenha sido Marx quem exaltou a economia como o centro do mundo moderno, foi ele que escreveu que era necessário rebelar-se contra as determinações do econômico. E foi, portanto, estudando o processo de dominação econômica que Marx desenvolveu seu pensamento libertário.

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Contudo, a esquerda abandonou o campo da economia e preferiu lutar contra as determinações culturais. Um jovem de esquerda hoje sabe discutir com grande loquacidade aspectos sobre a dominação machista e racista, mas quando indagado sobre a lógica do capital moderno no processo de dominação social, emudece.

A alcunha dada a essa esquerda, “marxismo cultural”, está errada, justamente porque ela abandonou a base econômica como fator fundamental da exploração capitalista. Desta feita, essa esquerda é de fato antimarxista.

A ascensão da extrema direita tem um pouco a ver com esse abandono. Trump e os líderes protofascistas que estão ganhando espaço político aproveitaram-se da crise econômica para culpar as minorias, principalmente os imigrantes. Muitos compraram esse discurso porque nele estava contido uma suposta solução para os problemas econômicos que assolam as classes desfavorecidas. A esquerda, por seu turno, não criou um argumento consistente para combater tal tese.

No Brasil, a ascensão de Bolsonaro está ligada diretamente à crise da Petrobras e à corrupção. Questões econômicas que a esquerda não soube abordar de formar acessível aos trabalhadores. A direita, portanto, aproveitou o vácuo deixado pela esquerda no setor econômico para ascender ao poder.

O antimarxismo da esquerda veio das universidades e se espalhou pelo mundo cultural. Os intelectuais, pesquisadores, artistas e ativistas continuaram sendo de esquerda, mas não mais, anticapitalistas.

A predominância da economia no jogo político

Trump pode vencer as eleições do ano que vem, caso a economia e a geração de emprego se mantiverem interessantes para as classes trabalhadoras. Na Argentina, Kirchner pode voltar ao governo, mas não pelo discurso de esquerda que adota, mas porque a economia vai de mal a pior. É a economia que decide tudo.

Lula se reelegeu porque a economia durante o seu primeiro mandato se encontrava em ascensão. Só não permitiram que ele concorresse nas eleições do ano passado por causa desta memória. Dificilmente Bolsonaro venceria. Não foi o discurso moralista de Bolsonaro que o levou ao poder, mas a falta de uma proposta econômica do lado da esquerda. De práticas econômicas que podem dar certo.

Por isso acredito que o melhor candidato à presidência da esquerda seria Flávio Dino, governador do Maranhão. Sua política econômica está indo de vento em popa, motivo de sua reeleição. Se a justiça for feita e Lula estiver fora do cárcere, julgo ser adequado que o ex-presidente venha como vice de Dino na chapa, como Kirchner está fazendo na Argentina.

A esquerda vem criticando o governo Bolsonaro de forma desvirtuada. Mira, em algumas situações, as mesmas questões polêmicas que deram a ele palanque. Falar da sua política ambiental, da sua relação com a religião, de suas falas machistas e imbecilizantes não muda em nada o quadro da situação. Muito menos dos erros de português do ministro da Educação! Tempo desperdiçado.

Bolsonaro não odeia o marxismo da esquerda, até porque ele não possui conhecimento suficiente para saber o que isso significa. O que enche a sua bola no debate político é essa esquerda extra-econômica. E com esta, ele mantém uma relação de amor e ódio. Ele mesmo diz que não entende de economia, mas vive discutindo com a esquerda e esta, por sua vez, o responde à altura. Por que será? Justamente porque esta esquerda também não entende mais de economia e se posiciona apenas do lado oposto da moral do presidente. Ela lhe permite falar. Dá-lhe o direito à fala. Por isso, são dois lados da mesma moeda. Neste ínterim, Macron torna-se de esquerda…

Se a esquerda voltar a se dedicar à crítica da economia política, deixaria Bolsonaro e os apoiadores dessa “nova direita” falando sozinhos. A esquerda precisa, portanto, subir o nível da discussão, retomando a dianteira da produção discursiva antissistêmica ao atingir o cerne da questão: a exploração capitalista.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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