Raphael Silva Fagundes

14 de março de 2020, 12h46

Como o capitalismo promoveu o coronavírus

O capitalismo voraz que destrói a natureza para obter cada vez mais lucro é o grande causador moderno das epidemias

Cientista chinês com experimento de vacina contra o coronavírus (foto: agência Xinhua)

O sistema capitalista pode ser o grande vilão que propiciou o nascimento do novo coronavírus. E o governo Bolsonaro, grande entusiasta deste modelo econômico, está contribuindo para fomentar pandemias da espécie que agora enfrentamos. Isto porque ele defende a forma mais radical do capitalismo, a que aumenta a exploração não apenas da força humana, mas da natureza.

A jornalista Sonia Shah mostra que “os esforços da administração Trump para livrar as indústrias extrativas e o conjunto das atividades industriais de toda regulamentação só poderão agravar a perda de habitats, favorecendo a transferência microbiana de animais para seres humanos”.[1] De acordo com a especialista, a destruição das florestas forçam os animais selvagens a conviverem mais próximos dos seres humanos. Por exemplo, os morcegos que viviam nas árvores das florestas vão morar nas árvores das ruas, dos bairros e dos quintais das casas.

Como mostrou Jared Diamond, a convivência dos seres humanos com animais após o processo de domesticação, presenteou-nos com uma variedade de germes. “Os principais assassinos da humanidade ao longo de nossa história recente, varíola, gripe, tuberculose, malária, peste bubônica, sarampo e cólera, são doenças infecciosas que se desenvolveram de doenças de animais”.[2]

De acordo com o fisiologista, pelo fato de os europeus terem domesticado uma maior quantidade de animais, ganharam anticorpos, o que ajudou na dominação de outros povos que não domesticavam ou que tinham uma menor variação de tais criaturas. Isso explica, ao lado das armas e do aço, a colonização europeia pelo mundo.

Mas antes de adquirir tais anticorpos, ou de a medicina moderna desenvolver vacinas, diversas epidemias varreram a Europa. Vivemos hoje uma pandemia que, segundo Shah, pode ter sido provocada pelo contato com os micróbios de animais decorrente da “destruição acelerada dos habitas”, que forçou a migração destas espécies para próximo de nós. Não houve uma nova domesticação, mas um convívio forçado. Não se trata de uma inovação tecnológica, mas de uma devastação imprópria da flora.

A China, os EUA e agora, com maior vigor, o Brasil, são países que adotam um modelo econômico extremamente predatório. No Brasil, por exemplo, houve um enfraquecimento na fiscalização ambiental, uma redução de áreas de preservação e um aumento virtuoso de queimadas, além de outras medidas antiambientalistas. Estas políticas levianas, que também foram adotados pelos países citados, promovem a degradação e destruição dos habitats de diversas espécies animais forçando-as a se locomover. E com esta locomoção, movem-se também os germes levando uma grande carga microbiana para próximo dos seres humanos.

O capitalismo voraz que destrói a natureza para obter cada vez mais lucro é o grande causador moderno das epidemias. A natureza não é capaz de se recompor na proporção exploratória exigida pelo capital. Deste modo, a alteração do meio ambiente pode trazer diversos problemas para os seres humanos.

Aqueles que estavam preocupados apenas com as alterações climáticas, precisam agora pensar na consequência biológica proveniente da exploração capitalista que ocorrem antes mesmo de uma mudança brusca do clima. A pandemia do Covid-19 deve servir para refletir se a manutenção do sistema capitalista ainda vale a pena.


[1] SHAH, S. Contra a pandemia, ecologia. Le monde diplomatique Brasil, ano 13, n. 152, mar, 2020, p. 33.

[2] DIAMOND, J. Armas, germes e aço. Rio de Janeiro: Record, 1997, p. 196.


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