sexta-feira, 25 set 2020
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Comunistas liberais e liberais comunistas: como a direita reinterpretou a luta de classes

Os bolsominions acham que Bolsonaro pode fazer qualquer coisa já que foi “provado” pela Lava Jato que Lula é criminoso. Não importa Queiroz, ser vizinho de traficante de armas, ter drogas no avião etc. Nada disso é chocante, já que o ladrão é Lula.

As revelações da Vaza Jato pouco importam, já que não há como comprovar a alteração dos diálogos. Mas a esquerda (erradamente) se fecha a essa questão. Desperdiça sua esperança. Torce para que a Justiça, os mesmos que agiram injustamente, façam a coisa certa.

As massas não se importam com a injustiça. Ou melhor, elas só se preocupam quando o seu dinheiro é roubado. A direita conseguiu apropriar-se desse lugar acusatório. De modo que a esquerda pode lançar o argumento que quiser; jamais irá superar a ideia do roubo, da corrupção etc.

A maior imoralidade no sistema capitalista é o roubo. Há  muitos anos atrás, o pior crime era aquele cometido contra a vida. Mas as coisas mudaram. O capitalismo tornou a propriedade algo mais sagrado que a vida.

A maneira mais fácil de persuadir o povo – enquanto massa – a seguir um certo caminho, é apontar o ladrão, o chefe da quadrilha. Lógico que os dedos jamais apontariam para o verdadeiro, pois o sistema iria a ruínas. As classes dominantes, fazendo uso dos principais aparelhos ideológicos (Judiciário, mídia, Igrejas etc.), produziram um vilão, o demônio que roubou do povo.

Embora tudo tenha se baseado em fatos frágeis, já que possuir um apartamento no Guarujá não é nem um grão de areia do quanto os financistas roubam do povo, os argumentos, o espetáculo, foram imprescindíveis para convencer grande parte da população que os verdadeiros ladrões são Lula e o PT.

As pessoas só se movem (principalmente em grupo) quando percebem que estão sendo roubadas. Foi o mesmo que aconteceu com Collor e o escândalo das poupanças. Contudo, elas sabem que estão sendo roubadas o tempo todo, mas precisam de um empurrãozinho para se mover. A vilania tem que ter nome e estar na capa do jornal, precisa estar na moda, espetacularizada pela mídia, pelos jornalistas, e os artistas e pastores das igrejas precisam compartilhar dessa interpretação.

Até mesmo o ódio liberado pelos adeptos da direita atual é fruto das lutas de classe. A direita disse que o político que roubou, ou seja, que impediu o avanço das forças produtivas, compactua com as lutas identitárias. Embora já houvesse o preconceito dentro de muitos, foi uma questão de classe, o conflito entre ricos e pobres (reinterpretado pela direita), e até mesmo de quem trabalha e quem não, que trouxe a público todo o ódio moral.

Portanto, é uma questão de classe. Embora ainda não em um estágio consciente. A mídia e a burguesia sempre escondem os antagonismos de classe, mas quando quer mobilizar as massas, não pensam duas vezes antes de usá-los. Deste modo a Lava Jato ganhou prestígio popular quando o trabalhador viu políticos e empresários sendo presos.

Os vazamentos não convenceram muita gente porque se Lula não for o grande criminoso, quem seria? O povo precisa doe um vilão. Não é necessário nem mesmo devolver a ele o dinheiro roubado, apenas ter alguém preso, acusado de todo o mal que assola a nação. Enfim, se Lula não existisse ele teria que ser inventado.

Enquanto isso as esquerdas se recusam a investir nesses antagonismos, criticando o presidente em termos morais. Para se popularizar a esquerda adota a questão moral e de identidade, enquanto a direita adota a luta de classes. Que ironia: comunistas sendo liberais e liberais comunistas. O ataque a Moro não tem nem o odor de uma questão de classe, e isso já é um motivo para que esses vazamentos não desemboquem em uma alteração do caminho que o país vem traçando desde 2016.

A esquerda precisa deixar claro o roubo, apontar os verdadeiros ladrões. Toda vez que se trabalha, o operário está sendo roubado; é a parte do tempo que trabalhamos gratuitamente. Todos os objetos do escritório, da linha de montagem, da escola, da delegacia, do hospital… foram pagos integralmente. Mas o trabalho não. O operário (professor, policial, enfermeira etc..) trabalha parte de seu dia para pagar o seu salário e, outra parte, para pagar o patrão. Mas para se trabalhar nesse tempo adicional (tempo roubado) é preciso mais ferramentas, matéria-prima etc. Estas coisas (capital fixo) são pagas integralmente pelo tempo adicional, mas a mão de obra não. Nisto consiste todo o roubo. É a mais-valia.

As elites roubaram antes de Lula, durante o governo Lula e agora com Lula na cadeia. Elas sempre roubarão, pois sem o roubo não haveria lucro. Mas esse tipo de roubo jamais será convincente para o trabalhador, já que a Justiça, a mídia e o pastor da igreja não o condenam. Os aparelhos ideológicos criam um paradigma: podemos ser roubados pelos patrões, mas não pelos políticos.

Essa ideia só é possível ser aceita porque é inquestionável a lógica de dependência do trabalhador em relação aos patrões. Somos escravos do salário. Mas a verdade é que os patrões dependem dos trabalhadores para viver. Simplesmente pelo fato de que é o trabalhador que vende a crédito sua força de trabalho. “A matéria real do capital investido em salário é o próprio trabalho; a força de trabalho posta em ação, criadora de valor, o trabalho vivo, que o capitalista troca por trabalho materializado e incorpora a seu capital, e sem o qual o valor que ele tem em mãos não  se converteria num valor que se valoriza”, explica Marx no Livro II do O Capital.

O operário produz valor. Onde não há trabalhadores não há lucro, pois nenhum objeto terá si valorizado naturalmente. É a ação humana que valoriza o objeto, como a argila nas mãos do escultor.

Mas os aparelhos ideológicos escondem essa relação e a invertem, evidenciando que os trabalhadores dependem dos patrões. A ideologia do consumo, do ser bem sucedido, do pai provedor etc., têm uma função alienadora: a de perpetuar a dependência do trabalho em relação ao capital. Mas é o trabalho que gera capital, e não este trabalho.

Além disso, o trabalho pode gerar inúmeras coisas que não seja capital, mas a ideologia prende a criatividade humana nas grades do lucro. Libertar o trabalho do capital deve ser a principal meta da esquerda. É desta maneira que o capitalismo será destruído, pois é ele que depende estritamente do trabalhador, e não o contrário. Quando as roupas caírem, perceberemos que, na verdade, os donos eram servos de seus escravos.

Raphael Silva Fagundes
Raphael Silva Fagundes
Doutor em História Política na UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.