Raphael Silva Fagundes

25 de maio de 2020, 22h45

Convencidos por uma máquina: os robôs e a opinião reacionária

Leia na coluna de Raphael Fagundes: é a repetição o principal ingrediente retórico agenciado automaticamente pelos robôs que se aproveitam da ignorância política para forjar uma opinião pública perigosa

Reprodução

Vivemos hoje em um cenário digno de uma ficção científica. Com a propagação de robôs nas redes sociais, é a primeira vez na história que os seres humanos são levados a pensar, a defender princípios ideológicos e a agir a partir de uma máquina.

Já no século XIX, o matemático inglês Babbage, inventou uma máquina à vapor do tamanho de uma locomotiva capaz de “realizar cálculos e os imprimir automaticamente”.[1] Mas foi somente durante a Segunda Guerra Mundial que o lendário matemático Alan Turing conseguiu criar uma máquina que “transformava a informação em números codificados na linguagem binária de 0 e 1”, o que influenciou diretamente no resultado da guerra.[2]

A palavra “robô” foi mencionada pela primeira vez em 1921 pelo escritor tcheco Karel Capek que a empregou na peça R.U.R.. Segundo Isaac Asimov, um dos maiores escritores de ficção científica do século XX, “ela deriva de robota, que em tcheco significa trabalho ou serviço compulsório”.[3]

Qualquer máquina “que recebe programação computacional para realizar tarefas específicas” pode ser considerada um robô. De acordo com a reportagem de Camilo Rocha, em uma matéria sobre um estudo realizado por pesquisadores da FGV, “na internet, robôs virtuais são utilizados em centenas de funções, como por exemplo enviar spam ou sugerir produtos no Facebook com base em suas buscas pelo Google”. “Por meio de um programa simples, geralmente contendo algumas linhas de código, pode-se gerar um robô desse tipo. Esta programação pode conter termos e nomes específicos, ao qual o robô responderá sempre que passar por eles. Comandos podem instruir a conta falsa a sempre retuitar posts de um perfil específico”[4], destaca Rocha.

Vemos isto ser feito com grande frequência pelo clã de Bolsonaro, inclusive, seu filho, Carlos Bolsonaro, é acusado de promover esta prática com enorme frequência.

É lógico que a mensagem, isto é, o meme, é criado por um ser humano, contudo as pessoas só podem defender uma ideia e agir em nome dela a partir de um processo de persuasão. E, neste caso, a estratégia retórica que está em jogo é a repetição. Os robôs sociais reproduzem incessantemente o mesmo meme porque são programados a atualizar a mesma mensagem milhares de vezes, fazendo com que se propague nas redes sociais.

A repetição pode ser considerada uma figura de retórica que busca intensificar o sentido das questões apresentadas pelo orador “com um consequente aumento do enunciado”, explica o professor José Luiz Fiorin. A técnica foi tão considerada ao longo da história que muitos atribuem ao lendário nazista Gobbels a frase: “uma mentira dita mil vezes se torna verdade”.

Semelhanças à parte, os correligionários do presidente usam tal tática retórica apoiando-se na tecnologia atual. Embora seja um humano o promotor original da mensagem, as pessoas acabam sendo convencidas pelos robôs que reproduzem os memes efetuando uma estratégia retórica reconhecida desde Aristóteles.

Indivíduos sendo convencidos por máquinas é um fenômeno futurista que se realizou. Antes, apenas as palavras, as imagens e os gestos humanos tinham esta capacidade. Com a invenção da imprensa, ainda era necessário um ser humano para reproduzir cada imagem, para pregar os panfletos nas paredes e postes, não se tratava, portanto, de uma reprodução automática, realizada exclusivamente por robôs, de alcance imensurável. Logo, a ficção científica tornou-se real. E, como nestas obras, os seres humanos estão caminhando para um futuro turvo, controlado por governos que flertam com o autoritarismo.

Cabe lembrar que o pensamento reacionário já foi bem erudito. O que falar dos letrados brasileiros do século XIX que defendiam a monarquia? Se eles pudessem se levantar do túmulo e assistir aos seus herdeiros sendo convencidos por robôs, provavelmente surtariam.

Possuidores de uma cultura política rudimentar, a qual depreda o pensamento científico e filosófico, muitos são facilmente persuadidos pelas imagens cômicas e fantásticas que os memes políticos costumam ter. Embora carreguem outros elementos persuasivos (como as emoções, a comicidade etc..), é a repetição o principal ingrediente retórico agenciado automaticamente pelos robôs que se aproveitam da ignorância política para forjar uma opinião pública perigosa.


[1] ZENHA, C. Mídia e informação no cotidiano contemporâneo. In: FILHO, D., FERREIRA, J. e ZENHA, C. O século XX: o tempo das dúvidas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005, p. 239.

[2] JOHNSON, S. Como chegamos até aqui: a história das inovações que fizeram a vida moderna possível. Rio de Janeiro: Zahar, 2014, p. 91.

[3] ASIMOV, I. Prefácio: os robôs, os computadores e o medo. In: __________, WARRICK, P. e GREENBERG, M. Máquinas que pensam. Porto Alegre: L&PM, 1985, p. 17.

[4] https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/08/29/Como-funcionam-os-rob%C3%B4s-que-discutem-pol%C3%ADtica-nas-redes-sociais

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum


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