Raphael Silva Fagundes

08 de outubro de 2019, 16h08

Críticas (in)úteis: como a mídia sustenta o governo Bolsonaro forjando conflitos

Raphael Fagundes, em nova coluna, diz: “A mídia enche o nosso cotidiano de notícias contra a corrupção e, além disso, para dramatizar ainda mais seu projeto, forja diversos heróis. Joaquim Barbosa e agora Sérgio Moro”

Foto: Reprodução/Globo

Parece que existe um complô elaborado pelo grupo Globo e o governo Bolsonaro para desviar o foco de nossas atenções. Um complô que só foi possível devido ao que a esquerda se transformou: a guardiã de valores progressistas.

O governo Bolsonaro representa exatamente o que o grupo Globo defende e pretendia impor, por meio dos seus tentáculos midiáticos, com a derrubada de Dilma Rousseff: o radicalismo do liberalismo econômico e a luta contra a corrupção.

O liberalismo econômico está representado pela figura de Paulo Guedes. O ministro já disse que pretende vender praticamente todas as estatais. Qualquer um que ligue em algum canal da Globo, ou ouça a rádio, ou que leia alguns de seus veículos de notícias, irá se deparar com a defesa da privatização. O Estado mínimo é um dos baluartes da corporação desde muito.

Como mostrou muito bem Evilázio Gonzaga, Guedes afirmou que “em silêncio, sem fazer barulho, já vendemos US$ 12 bilhões”. Um silêncio que a mídia ajudou a construir ao se concentrar nas bobagens ditas pelo presidente.

Mas a questão mais importante e latente é a da corrupção. Mais importante porque foi ela que elegeu Bolsonaro. E latente porque somos bombardeados diariamente por notícias sobre ela. O discurso de combate à corrupção é a forma que as classes dominantes usam para criar insatisfação popular sem alterar as bases que alimentam a riqueza e, consequentemente, a pobreza no Brasil.

Lógico que a corrupção é um mal a ser combatido, mas ela não resolve o problema. Por exemplo, a Lava Jato afirma ter recuperado, até o momento, 4,4 bilhões da corrupção para os cofres públicos, mas só de evasão fiscal tivemos 482 bilhões durante o mesmo período. Empresas e cidadãos fogem omitindo ganhos que poderiam ser cobrados pelo governo.

Outra questão é o imposto cobrado sobre o consumo. Este é mais alto do que o cobrado sobre os bens. Um cidadão que ganha 500 reais paga o mesmo valor de imposto na compra de um feijão que aquele que ganha 10.000. Um dinheiro que não faz falta para este último, mas que, para o trabalhador precário, é significativo. Acontece no Brasil e em toda a América Latina, o inverso do que acontece nos países desenvolvidos, onde o imposto sobre os bens é maior que o sobre o consumo. A reforma tributária se torna muito mais importante que o combate à corrupção.

Contudo, as elites escondem esse fato e fomentam a ideologia anticorrupção, para que os privilégios que possuem, privilégios que provocam a desigualdade social, sejam mantidos incólumes. E assim, mais uma vez, as classes dominantes vestem os seus interesses particulares com indumentárias universalistas.

A mídia enche o nosso cotidiano de notícias contra a corrupção e, além disso, para dramatizar ainda mais seu projeto, forja diversos heróis. Joaquim Barbosa e agora Sérgio Moro. Preenchendo todos os espaços para que não haja uma reflexão sobre todo o processo que desencadeia na desigualdade social, coloca a culpa na corrupção, alimentando a política nefasta de cortes nos investimentos públicos, agravando ainda mais a pobreza social. Justifica-se, ainda, o aumento de impostos e a tirada de direitos trabalhistas. A mídia irá afirmar que o aumento da desigualdade é proveniente da roubalheira para que as elites continuem pagando menos impostos que as classes trabalhadoras.

A mídia fomenta até o discurso de ódio, destacando-o, sensacionalizando-o, o que fortalece ainda mais o governo Bolsonaro, que se sustenta por meio de uma retórica de guerra, militar, que ganha terreno fértil em meio a um cenário marcado pelo ódio.

Enfim, a mídia é o principal sustentáculo do governo Bolsonaro, inclusive, o suposto conflito que simula, ajuda ainda mais na construção da imagem do presidente. A corporação Globo sabe que tem uma imensa quantidade de audiência, assinaturas etc., e que não vai perder sua fonte de renda. Não vê, portanto, desvantagem em promover uma rixa falsa entre ela e Bolsonaro, contribuindo para forjar a imagem de um presidente contestador. Tudo é parte de um teatro no qual muitos jornalistas (que acreditam que estão sendo combativos), às vezes, nem fazem ideia de que estão contribuindo para toda essa farsa.

A mídia faz críticas inúteis no sentido de querer interferir em uma possível degradação da imagem do presidente. Por outro lado, tais críticas acabam se tornando úteis, pois fortalecem o projeto econômico (deixando-o nas sombras) que colocou Bolsonaro no poder, o mesmo, por sinal, defendido pelas maiores corporações midiáticas do país.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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