Raphael Silva Fagundes

15 de junho de 2020, 17h32

Esta é a melhor época para o capitalismo sobreviver a uma crise

Leia na coluna de Raphael Fagundes: "O que chamamos hoje de fascismo nada mais é do que uma radicalização do capitalismo, mantendo a democracia e fortalecendo o mercado"

Foto: Pam Santos/@soupamsantos.

Este texto é um pouco pessimista, mas necessário para se pensar em aspectos importantes no que tange a meta de construir uma sociedade mais justa.

Pelo menos três questões me levam a pensar que o capitalismo vive o melhor momento para sustentar uma crise, sem riscos para a sua estrutura: o etos infantilista; a falência de alternativa; e o pacifismo dos movimentos sociais.

De acordo com Benjamin Barber passamos por um período marcado por “um novo e poderoso etos cultural”, “uma infantilização que está intimamente associada às demandas do capitalismo de consumo numa economia de mercado global”.[1] Identificando que a criança e o adolescente são os maiores consumidores de uma “parafernália relativamente inútil de jogos, aparelhos e inúmeros bens de consumo”, promove-se um prolongamento da adolescência nos adultos, “esperando reacender neles os gostos e hábitos de crianças”.[2] Deste jeito, filmes de heróis, fast-food, videogames são uns dos setores de maior lucro para o capitalismo atual. A cultura pop é uma cultura infantilista.

Por mais que os consumidores possam produzir a partir do que consomem, apropriando-se, na perspectiva de Michel de Certeau, esta “cultura participativa”, tão valorizada por Henry Jenkins, cria muito mais lixo, fake news e memes engraçadinhos que objetos transformadores que sejam capazes de abalar os alicerces do capitalismo.

Aponte uma alternativa para o capitalismo? A crise de 1929 colocava o capitalismo em risco porque o comunismo deixou de ser um espectro e passou a existir no país de maior dimensão territorial do mundo. O fascismo surgiu para evitar que o comunismo chegasse ao poder em diversas regiões da Europa. De fato, os regimes fascistas salvaram o capitalismo.

Hoje o comunismo não é visto mais como uma opção. A maior parte dos intelectuais o abandonaram. Muitos não cansam de dizer “modernidade” ou “pós-modernidades” “para acobertar a ausência de qualquer esperança, ou telos, social coletiva depois do processo de descrédito do socialismo”[3], destaca Fredric Jameson.

O que chamamos hoje de fascismo nada mais é do que uma radicalização do capitalismo, mantendo a democracia e fortalecendo o mercado.

O governo de Bolsonaro, como podemos ver, é mais um combate a um modelo de capitalismo “progressista”, defendido, por exemplo, pelos playboyzinhos do Vale do Silício, que são contra o comunismo, embora não use, o termo “comunismo” para não parecer contraditório. 

A esquerda de hoje, por sua vez, é muito mais liberal que socialista, e a sua luta é mais pelas liberdades individuais que pelo fim da dominação burguesa. Saudades da antiga esquerda! Como dizem Benoît Bréville e Renaud Lambert: “Ontem”, os militantes de esquerda, “lutavam; agora ficam indignados. Eles fundavam organizações para tomar o poder; ei-los agora assinando petições, incitando o mundo a se mostrar mais doce, mais tolerante, menos racista, mais verde, mais igualitário […] Eles não eram movidos pelo desejo de se mostrar exemplares, mas pela determinação de obter ganho de causa. A esquerda não nasceu para passar um sermão no mundo, mas para mudá-lo”.[4]

Este fenômeno nos leva ao último ponto: os movimentos sociais. Nas crises econômicas anteriores, principalmente a de 1929, a luta armada era uma das principais formas para a promoção da queda do capitalismo. Quer queira, quer não, todas as transformações rumo ao socialismo foram realizadas via luta armada. 

Hoje os movimentos guerrilheiros são praticamente inexistentes. Os protestos exigem do governo medidas, inclusão social etc., dificilmente a queda do sistema. O discurso mais radical aqui no Brasil é a saída de Bolsonaro e a convocação de novas eleições. Mais inexistente ainda é a luta pela queda do capitalismo. Existe, além disso, o absurdo de exigir um capitalismo mais humano, que vem ganhando adeptos.

Esse contexto permite que o capitalismo passe por uma crise com maior facilidade. Nenhuma ameaça o espreita. Por outro lado, esta é a pior época para se ser racista, machista etc… Isso porque na fase capitalista em que vivemos a ampliação de mercados exige a inserção de outros grupos. Vende-se produtos para gays, mulheres etc. A própria cultura pop, a mesma que infantiliza, procura representar as minorias em seus produtos. Quanto mais diversidade melhor. Todos se encontram no mercado.

Enfim, esses pontos, no meu modo de ver, são importantes para se pensar as condições que poderiam levar o capitalismo à derrocada. A situação está bem adversa para os que almejam um sistema econômico mais justo.


[1] BARBER, B. Consumido. Rio de Janeiro: Record, 2009, p. 13.

[2] Id., p. 18.

[3] JAMESON, F. A cultura do dinheiro. Petrópolis/RJ: Vozes, 2001, p. 33.

[4] https://diplomatique.org.br/dar-um-sermao-para-o-mundo-ou-transforma-lo/


*Esse artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.


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