Raphael Silva Fagundes

10 de março de 2020, 22h37

Não pode haver nenhum opressor na luta por liberdade

Leia na coluna de Raphael Fagundes: “A luta feminina era de esquerda. Mas, ao longo do tempo, a direita foi tentando reivindicar para ela essa jornada libertadora”

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Eu sempre acreditei que chegará o tempo em que uma mulher será julgada pelos mesmos padrões morais utilizados para os  homens, pois não é a sua específica virtude feminina que lhe dá  lugar de honra na sociedade humana, mas o valor da missão  cumprida por ela, o  valor de sua personalidade como ser  humano, como membro da sociedade, como pensadora, como lutadora. Alexandra Kollontai

Os liberais escolhem Condorcet como o baluarte da luta pela igualdade entre homens e mulheres. Contudo, o iluminista não falava nada além dos direitos do cidadão (o que poderia ser muito para a sua época), não condenava os costumes que legitimavam a superioridade moral e física que os homens julgavam ter sobre as mulheres.

Entretanto, outros iluministas eram muito mais reacionários nesse quesito que o marquês de Condorcet. O filósofo Denis Diderot dizia que, enquanto os homens raciocinavam com a cabeça, as mulheres pensavam com a genitália. Montesquieu, nas Cartas Persas, descrevia as “mulheres orientais” como seres extremamente desejosos por sexo. Por isso, era necessário trancafiá-las e vigiá-las, dia e noite.

Voltaire discordava de Montesquieu, mas frisava em seu Dicionário Filosófico, que a mulher, em termos físicos, “é mais fraca do que o homem”. Em seguida destacava que, “em geral, o físico governa o moral”, por isso a mulher tem “o caráter mais doce” e “foi feita para suavizar os costumes dos homens”. O homem, por sua vez, “normalmente apresenta uma superioridade muito grande tanto na força física quanto na espiritual”.

Já Rousseau acreditava que a mulher adulta deveria saber o seu lugar. Na Nova Heloísa, a personagem é categórica: “Sou mulher e mãe, sei manter-me em meu lugar. Ainda uma vez, a função de que estou encarregada não é a de educar meus filhos, mas de prepará-los para serem educados”.

Ou seja, a emancipação feminina, para além do direito ao voto, estava muito longe da pauta desses filósofos que fundaram a democracia liberal-burguesa, que predomina hoje no mundo ocidental.

Marx e Engels responderam a visão de Voltaire, e disseram que a vitória do mais fraco (mulher) sobre o mais forte (homem) significa a emancipação de todos. “A mudança de uma época histórica pode determinar-se sempre pela atitude de progresso da mulher diante da liberdade, já que é aqui, na relação entre a mulher e o homem, entre o fraco e o forte, onde com maior evidência se acusa a vitória da natureza humana sobre a brutalidade. O grau da emancipação feminina constitui a pauta natural da emancipação geral”.

Embora Marx e Engels tenham reduzido as relações de gênero a relações de produção, percebem que a emancipação de todos os oprimidos é condição para a liberdade do proletariado. Por conta disso, dirá Lenin: “O proletariado não poderá alcançar a vitória completa sem conquistar a plena liberdade para a mulher”. A condição feminina não estaria mais relacionada ao outro, ao homem, aos filhos ou ao marido.

Destaca Alexandra Kollontai que a luta pela emancipação é contra a estrutura tradicional familiar: “Para  tornar-se  realmente livre, a mulher tem que se desembaraçar das cadeias  que faz pesar sobre ela a forma atual, ultrapassada e  constrangedora, da  família. Para a mulher, a solução do problema familiar não é menos importante que a conquista da  igualdade política e o estabelecimento de sua plena independência econômica”. Aqui ela seguia os passos de Lenin que dizia: “A emancipação da mulher, o comunismo verdadeiro  começarão quando e onde se inicie uma  luta sem quartel, dirigida pelo proletariado, dono do poder do Estado, contra essa  natureza do trabalho doméstico”. Somente o Estado socialista poderia promover a emancipação total da mulher, superando as propostas iluministas estritamente políticas.

A luta feminina era de esquerda. Mas, ao longo do tempo, a direita foi tentando reivindicar para ela essa jornada libertadora. Manipulá-la. Conduzi-la. Daí surgiu o feminismo hollywoodiano, ou o defendido pelos liberais do mundo inteiro. A pós-modernidade “emburguesou” a luta pela emancipação feminina, assim como o cinema a industrializou. Setores da própria esquerda deixaram de lutar como antes e adotaram o discurso liberal da emancipação feminina.

O que a direita fez foi separar a emancipação feminina da emancipação geral. Tornou o feminismo uma luta solitária na qual as madames que oprimem negros e pobres podem fazer parte do movimento. Mas uma luta que permite opressores pode ser considerada emancipatória? E em uma situação extrema, se essas madames tiverem que escolher entre lutar pela causa libertária ou manter a sua condição de opressor econômico, que lado elas escolheriam?

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum


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