Raphael Silva Fagundes

18 de fevereiro de 2020, 23h12

No Rio, o que mais fede, a água ou o governo?

Leia na coluna de Raphael Fagundes: “Se não voltamos para a Idade Média, não se pode negar que há um esforço da cúpula que assumiu o poder de nos fazer regredir aos primeiros anos do capitalismo”

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel - Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Embora eu tenha minhas dúvidas, após ler Bruno Latour, de que um dia fomos modernos, um viajante no tempo, que fosse transportado da Idade Média para o Rio de Janeiro de hoje, não detectaria diferença em duas coisas: o relacionamento entre política e religião e a qualidade da água.

Na Idade Média, em uma cidade como Paris, “a água fedia nos poços, a capital inteira morria de sede”. Contudo, tanto nobres quanto ricos bebiam a mesma água de má qualidade que os pobres (1).

De acordo com o historiador Hilário Franco Júnior, “como frequentemente a água dos poços, rios e lagos não escapava aos dejetos animais, ela representava um constante risco, daí se preferir beber um vinho ruim a água” (2).

E com a Revolução Francesa, a situação “pouco melhorou, enquanto os equipamentos coletivos permitiam uma melhor distribuição que só pôde ser aproveitada pelos mais ricos”. (3).

O acesso à água potável ampliou e se tornou até um direito humano, mas como outros direitos humanos, a acesso à água limpa vem sendo atacado pelo fascismo. A exploração capitalista da natureza nos faz regredir a condições medievais, embora, como consequência da dominação de classe inaugurada pela Revolução Francesa, os mais pobres são os mais afetados.

O povo carioca, menos supersticioso que o homem medieval que acreditava que os judeus envenenavam os poços, conjecturam que o ataque à Cedae é uma estratégia para privatizá-la a preço de banana. O que é ir na contramão do que o mundo inteiro vem fazendo, reestatizando o setor.

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, já disse que solucionar o problema do saneamento básico “só será possível com a privatização da Cedae, pelo menos a distribuição e o esgoto”. É a intervenção direta do Estado para impor à sociedade o seu plano de poder. E tal plano pretende excluir parte da população de direitos humanos reconhecidos pela Constituição Cidadã de 1988, a maior inimiga da extrema direita que ascendeu ao poder nas últimas eleições.

É lógico que o problema da água, e do saneamento básico, não foi uma invenção do governo atual. As empresas vêm poluindo as nossas reservas hídricas há anos. O problema é que o governador quer entregar a administração da distribuição da água e do saneamento para uma indústria capitalista, isto é, para os mesmos que provocam a poluição. É como dar à raposa a responsabilidade de tomar conta do galinheiro.

Se não voltamos para a Idade Média, não se pode negar que há um esforço da cúpula que assumiu o poder de nos fazer regredir aos primeiros anos do capitalismo. Cultuando a utopia liberal, onde os direitos humanos estavam escritos mais não eram exercidos na prática e onde os trabalhadores, como no caso da Inglaterra, eram considerados uma sub-raça pela elite.

Voltamos à era da exclusão, e ela mais forte do que nunca. Setores da elite apresentarão, nas próximas eleições, a opção burguesa, que não mudará muita coisa. O fato é que a Constituição de 1988 está sendo atacada como nunca foi antes. E se os que se julgam juristas (como é o caso do governador do Rio de Janeiro, do ministro Sérgio Moro etc.) não respeitam o livro das leis o que podemos esperar. Não serão os juristas que farão justiça, ela virá de baixo, da classe trabalhadora.

(1)ROCHE, D. História das coisas banais: nascimento do consumo nas sociedades do século XVII ao XIX. Rio de Janeiro: Rocco, 2000, p. 210.

(2)FRANCO JÚNIOR, Hilário. Idade Média: nascimento do Ocidente. 4 ed. São Paulo: Brasiliense, 1992, p. 132.

(3)ROCHE, D. Op. Cit., p. 211.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum         


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