Raphael Silva Fagundes

18 de abril de 2020, 20h42

O agente imbecilizador: a figura do líder na hipermodernidade

Leia na coluna de Raphael Fagundes: Bolsonaro é fruto da experiência hipermoderna brasileira. Apresenta-se como aquele que enfrenta a mídia tradicional, a mídia usada pelos líderes de outrora

Jair Bolsonaro (Foto: Marcos Corrêa/PR)

De acordo com Yves Cohen, o século XX pode ser chamado de “século dos chefes”. O sociólogo observa esta questão a partir dos impactos que a Revolução Industrial exercia sobre a modernidade que ainda não havia se despertado para a reflexividade como a dos finais do século passado. A ideia de um líder, de alguém para organizar movimentos políticos, é oriunda, segundo Cohen, da figura do chefe da fábrica que administrava os funcionários. A linguagem da indústria misturou-se a linguagem política dando força ao termo “chefe”. A instalação de empresas criou por conseguinte a formação de sindicatos que, por sua vez, inspirou-se no modelo industrial.

Cada nação foi criando um vocabulário para designar a liderança. Na Alemanha o Führer, na Itália o Duce, na Rússia o vozd e nos EUA o leadership, palavras que, no mundo político, se fortaleceram durante a Segunda Guerra Mundial.[1]

Mas uma modernidade diferente se sucedeu após o grande conflito, uma modernidade que passa a contestar as consequências da industrialização. Esta é chamada por Ulrick Beck de modernidade reflexiva, a qual se fortalece nos anos 1970 e 1980.

Contudo, a figura do líder ainda aparecia mesmo que timidamente em alguns lugares, para ser contestada definitivamente no início dos anos 90 (que para o historiador Eric Hobsbawm, marcam o fim do século XX) e com maior profundidade nos anos 2000.

O que levou a esta situação, na minha opinião, foi o advento da “cultura participativa”. A mesma cultura que fez nascer um líder que não deve ter cara de líder, um político que deve se distanciar ao máximo da ideia de político, ou seja, um personagem que se espelha nas novas formas de comunicação.

Seguindo as ideias de Henry Jenkins, Jean Burgess e Joshua Green analisam a fusão entre cultura popular e o acesso à mídia desencadeando um novo fenômeno: a cultura participativa. Esse fenômeno alterou os movimentos sociopolíticos introduzindo uma maneira colaborativa e horizontal, sem a intermediação de instituições ou lideranças (não confundir com anarquismo). No início, sites como o YouTube foram fortemente criticados pela mídia tradicional, acusando-os de contaminar a juventude e de dar dimensão maior a valores turvos.[2]

Entretanto, para Burgess e Green, o pânico criado pela mídia nada mais foi do que a manifestação de seu próprio desespero de perder o monopólio de juiz, sua atuação suprema como autoridade moral. Agora os usuários falam.

Antes quem tinha acesso à mídia eram os intelectuais, artistas, ideólogos etc.. Somente poucos poderiam ter acesso ao microfone, exibir-se na tela. Mas com a difusão das redes sociais, o acesso à mídia se amplia e todos podem falar, todos podem postar um vídeo próprio exibindo o que pensam (o que pode nos ajudar a atender o ódio atual aos intelectuais e aos artistas).

A questão da força que a tela tem é destacável. De acordo com Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, vivemos em uma ecranosfera, uma modernidade na qual a tela passou a estar em todo lugar. Desde a invenção do cinema, a imagem em movimento fascina as pessoas atraindo um número cada vez maior de espectadores até se tornar uma cultura de massa. Depois veio a televisão, o computador e o celular. Com uma câmera nas mãos, as pessoas fazem seus próprios vídeos caseiros, contam, através de uma estética inspirada nos filmes de Hollywood, sua própria história, realizando o sonho de ser uma celebridade.[3]

O Facebook também é um mundo expresso na tela. Um mundo cada vez mais transformado em bolha, já que o algoritmo do Feed de Notícias só torna visível aos usuários o que os programadores acham conveniente, além do fato de saltar aos olhos questões que a norma algorítmica define como interessantes ao próprio usuário, com base nos interesses privados e nas coisas que ele postou ou acessou.[4] É a reprodução da mesmice.

Desta forma, foi a tela que possibilitou a consagração de uma sociedade mais individualizada, narcísica, projeto moderno, depois pós-moderno e, enfim, hipermoderno.

Nesse mundo, a figura do líder se dilui. Não é apenas um grupo de privilegiados que tem direito à fala na tela, mas todos que tiverem um celular com câmera. No Twitter – de modo que não foi apenas a imagem filmada a pulverizar o conceito de líder, mas a mídia participativa em si – qualquer um pode ter um seguidor, como se fosse de fato um líder.

Contudo, esse excesso de “verdades” lançadas no mercado cria ansiedades e desconfianças nos consumidores, que vão se direcionando cada vez mais para um refúgio. Por isso, vemos a força da religião, que, por sua vez, também faz uso da cultura participativa. Os fundamentalistas apresentam um estilo de vida seguro e prático libertando as pessoas da angústia da escolha, da indecisão perante o excesso de mercadorias simbólicas e materiais.

Bolsonaro se aproximou da cultura participativa e dos setores religiosos para alavancar sua imagem. Foi assim que tocou a massa (evidentemente tendo o apoio de empresários). Além da religião que busca trazer um porto seguro, o ex-capitão representa um setor que, infelizmente, goza de um grande prestígio entre os brasileiros: as Forças Armadas.

Deste modo, Bolsonaro é fruto da experiência hipermoderna brasileira. Apresenta-se como aquele que enfrenta a mídia tradicional, a mídia usada pelos líderes de outrora. Consegue portanto livrar-se da alcunha de líder ao se propagar pela “mídia revolucionária” onde habitam seus apoiadores.

Uma pesquisa realizada por Alex Primo et all. mostra que 68,6% dos usuários do Facebook acessam tal serviço para “divertir-se com piadas, fotos e vídeos engraçados”. Partindo do conceito de propagabilidade explorado por Jenkins, Sam Ford e Green, os pesquisadores observam que os conteúdos que exploram o humor são mais propensos a circulação do que outros.[5] Usando este método e seus robôs, os memes de fake news simpáticos ao discurso de Bolsonaro receberam inúmeras “curtidas” caindo nas graças dos usuários e, através do algoritmo do Feed de Notícias, coisas do gênero bombardeavam as timelines incessantemente, reproduzindo o mais do mesmo.

Embora essa cultura tenha criado uma espécie de mídia que deu voz aos que antes eram proibidos de fazer parte do mercado simbólico da comunicação, não houve uma democratização do acesso à  informação, mas um aumento da produção de mensagens que são lançadas no mercado para serem consumidas. As pessoas tiveram acesso a uma gama maior de produtos para consumir e não de informação. Consome-se mais opiniões, menos informações. As redes sociais desfizeram qualquer esperança de uma sociedade da informação para fortalecer e perpetuar a sociedade de consumo.

Deste modo, produtos como manifestações contrárias ao isolamento em tempos de pandemia encontram um espaço para serem consumidos. As pessoas até consomem alguma informação, mas este ciberespaço foi construído para se consumir outro tipo de produtos (narrativas pessoais, visões de mundo atonais etc..), não para se informarem.

Este era um produto que as pessoas sempre tiveram interesse em consumir, mas nunca houve uma mídia especializada em vendê-lo.

Na mesma pesquisa feita por Primo et all. constatou-se que 61,5% acessam as redes para “manter-se informado sobre temas atuais”.[6] Deste modo, consomem uma série de produtos, de notícias sérias à fake news em memes. Contudo, estão mais propícios a curtirem e replicarem o que é mais cômico. Uma vez que uma pessoa curte ou compartilha um meme, abre-se caminho para que novos memes apareçam em sua página. E, como sabemos, uma das formas mais adequada para a propagação da idiotice é a piada (quem nunca ouviu uma piada racista?)

Estaríamos, portanto, diante de um retorno dos líderes? Ou a ilusão de cada um de se sentir seu próprio líder dará a qualquer um que se atreva a liderar uma vida curta? A perpetuação do líder depende da sua relação com os setores que se apresentam como um porto seguro em meio à confusão que assola a hipermodernidade? O fato é que temos líderes não mais provenientes da linguagem e do modo organizacional das fábricas, mas da internet, especificamente, das redes sociais. As classes trabalhadoras estariam agora sem uma liderança porque a linguagem proveniente do seu ambiente de trabalho se perdeu prejudicando o reconhecimento de um líder trabalhista?


[1] COHEN, Y. Por que chamar o século vinte de o “século dos chefes”? Sociologia e Antropologia, Rio de Janeiro, v. 05. 03:963-981, dez. 2015.

[2] BURGESS, J. e GREEN, J. YouTube e a revolução digital. São Paulo: Aleph, 2009. p. 40-41.

[3] LIPOVETSKY, G. e SERROY, J. A tela global: mídias culturais e cinema na era hipermoderna. Porto Alegre: Suína, 2009.

[4] https://www.e-compos.org.br/e-compos/article/view/1402

[5] PRIMO, A. et all. Interações e práticas no Facebook. Contraponto, Niterói, v. 37, n. 02, pp. 152-171, ago. 2018/nov. 2018, p. 163.

[6] Ibidem.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum


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