Raphael Silva Fagundes

13 de dezembro de 2019, 22h52

O caos cria oportunidades: “Carnival Row”, da fantasia ao fascismo real

Raphael Fagundes comenta sobre a série original da Amazon Prime e reflete sobre as semelhanças com o atual cenário político mundial

Foto: Amazon Prime/Divulgação

A série original da Amazon Prime, estrelada por Orlando Bloom, ficou um pouco apagada por ter estreado em um período em que a crítica só tinha palavras para o filme do Coringa. Contudo, “Carnival Row” precisa ser lembrada e entendida como uma crítica severa à extrema direita que emerge na Europa e na América Latina.

Em uma cidade inspirada na Londres vitoriana, fadas, faunos, centauros e outras criaturas lendárias vivem sob o olhar preconceituoso dos burguenses (a capital de “Carnival Row” se chama Burgos), contrários à imigração. Uma alusão direta à crise migratória que assola a Europa atual.

Não é sócio Fórum? Quer ganhar 3 livros? Então clica aqui.

A história central é a de um detetive que investiga as mortes brutais de um “serial killer”, que deixa corpos desventrados pela cidade. Ele é apaixonado por uma fada, relação da qual surge um romance clichê semelhante ao da maioria das produções hollywoodianas, com traições, desejo de conquista etc. Mas é a trama política que chama a atenção.

O Parlamento que rege as leis da cidade está dividido entre os membros do governo, que defendem uma certa tolerância em relação aos imigrantes não humanos, e os da oposição, que querem a opressão, ou até mesmo a expulsão destes estrangeiros indesejados de “Carnival Row”.

Depois de um sequestro forjado pela esposa do chanceler Absolom Breakspear, o líder da oposição é acusado e, em seguida, envenenado na prisão. Sua filha, Sophie Longerbane, assume o cargo e se apresenta como uma jovem política de aspirações mais radicais que as de seu pai.

Ela usa de estratégias similares às que vimos em “Game of Thrones” para seduzir o filho do chanceler, Jonah Breakspear, e, assim, impor uma política severa contra as minorias. Forja uma carta que desvenda o passado de Absolom Breakspear, que poderia comprometê-lo e desestruturar a política por completo.

Entrevado em uma cama por ter sido vítima de um atentado a facadas por um fauno militante de uma seita secreta, Breakspear é assassinado pela própria esposa, que quer encontrar a qualquer custo o paradeiro do filho bastardo do chanceler, informação que descobriu pela carta forjada por Sophie Longerbane. O caos foi instalado.

O filho do político assassinado descobriu toda a trama bolada pela jovem, que buscava ascensão política. Em um encontro decisivo, Jonah a pergunta por que havia feito tudo aquilo. A jovem responde: “Porque o caos cria oportunidades”. O jovem Breakspear assume o cargo do pai e declara o início de uma era austera e de opressão contra as minorias.

As semelhanças com o mundo atual são impressionantes. À imigração na Europa, que levou à ascensão da extrema direita. Ao caos implantado no Brasil com a Operação Lava Jato, que afundou a Petrobras. Até as facadas no líder político de Burgos lembram o caso brasileiro. Mas nos remete também à situação da Bolívia, onde o caos expulsou o presidente eleito, desencadeando a ascensão de uma extrema direita adversa aos indígenas, fundamentalista e aliada aos militares.

Na Inglaterra, vemos, depois da crise gerada pelo Brexit, que tirou dois primeiros-ministros do cargo, a eleição do conservador Boris Johnson, que chamou homossexuais de “bumboys” e declarou ainda “que muçulmanas usando o véu que deixa só os olhos à vista se assemelhavam a ‘caixas de correio’” (1).

O caos criou oportunidades para a ascensão da extrema direita. E podemos assemelhar com o que diz Naomi Klein sobre a “doutrina do choque”. Por dificilmente prosperar em um ambiente democrático normal, as medidas neoliberais impopulares exigem “um choque inicial, uma suspensão da normalidade política – desastres ambientais, guerras e conflitos, ataques terroristas, golpes de Estado, entre outros -, para haver o ambiente adequado e propício ao avanço de tal agenda (2)”, explica Ramon Blanco, professor da Universidade Federal da Integração Latino-Americana.

É lógico que por ser uma empresa capitalista, a Amazon pouco se importou com a questão econômica do caos. Assim como a Folha de S.Paulo pouco critica as medidas econômicas propostas por Guedes. Por isso, é importante a crítica da crítica. Mas, ainda assim, vale a pena conferir a série para se vislumbrar com a representação artística e fabulosa da ascensão do fascismo no mundo atual.

(1)https://www.google.com/amp/s/www.bbc.com/portuguese/amp/internacional-49066508

(2)BLANCO, R. A doutrina de choque temerária. Le monde diplomatique Brasil, ano 10, n. 16, mas. 2017, P. 11.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum